Por Gabriel Pinheiro | Colunista Literatura | @tgpgabriel
Uma carta guardada por mais de 50 anos. Um envelope lacrado, nunca aberto ou espiado. Aos 71 anos, Raimundo decide aprender a ler e a escrever, pois só dessa forma pode reencontrar – na leitura da carta cinquentenária – aquele que a escreveu, Cícero. A palavra que resta é o primeiro romance de Stênio Gardel.
A palavra que resta traz uma série de rememorações de Raimundo, da infância e adolescência no ambiente rural, com os banhos de rio, a lida diária na roça e o autodescobrimento, à fuga para a capital, onde, ao invés de lugar de uma suposta liberdade, encontra, primeiro, um espaço de aprisionamento e medo – pois as grades eram plantadas dentro de si. Nestas remembranças, seguimos hipnotizados por uma prosa poética muito próxima da língua falada. São capítulos inteiros numa cadência da fala, sem a prisão dos pontos finais, como um fluxo do rio que corre sem impedimentos, nos pedindo para ler em voz alta, para ler e ouvir ao mesmo tempo. Com ele seguimos um fio da memória, em que uma lembrança leva à outra e à outra.
Violência simbólica
Nessas lembranças, prazer, desejo, medo e dor, sentimentos há muito guardados, correm juntos. Esses também como um caudaloso rio que, na cheia, avança irrefreável, engolindo tudo. Como o rio que corria próximo às casas de Cícero e Raimundo – ou Cícero e Gaudêncio, segundo nome de Raimundo, pelo qual apenas aquele que lhe escreveu a carta o chamava – e, na cheia, invadia as casas das famílias.
Há no relato de Raimundo uma violência simbólica que parece ferir mais que a violência física, na carne, porque fere dentro. Quando o seio familiar não é espaço de acolhimento, onde “a voz que afaga é a voz que afoga”. Um ciclo de dor que se repete, primeiro em uma geração, depois em outra. O peso de uma cruz que se carrega, se guarda e não se nomeia. Essa violência que resulta em muros que cercam uma existência escondida, na penumbra do medo: “Não era medo que levantava o braço do pai? ele enfiou esse medo em mim. foi escorrendo pelo cinturão e entrou nas minhas costas, ele é a minha espinha, nele que me sustento”.
Emancipação
A palavra que resta é um romance sobre o poder emancipatório da palavra. Pelo domínio da escrita, dar corpo a décadas de sentimentos represados, do que há de mais profundo dentro de si para o papel; pelo domínio da leitura, o reencontro com aquele e aquilo há muito perdido, mas nunca esquecido. Ter na palavra uma chance de redenção. Essa sensível narrativa de Stênio Gardel é também um romance sobre o tempo – esse que cura, que perdoa, que cicatriza, mas que também não esquece.