Curadoria de informação sobre artes e espetáculos, por Carolina Braga

A extinção das abelhas e as possibilidades de resistência

Em ‘A extinção das abelhas’, Natalia Borges Polesso escreve sobre a possibilidade de resistência em um mundo colapsado

Em A extinção das abelhas, Natalia Borges Polesso escreve sobre um mundo em colapso: das instituições, do meio ambiente, da violência, dos recursos alimentares e, sobretudo, das relações interpessoais e da vida em comunidade. Avançando para um futuro muito próximo, Natalia nos diz sobre as incertezas de um porvir que pode não chegar mais. Não é o fim do mundo, pois, como aponta uma de suas personagens, nós seremos extintos, mas o mundo continua.

Regina é orfã: o pai morreu no início da vida adulta e a mãe fugiu ainda em sua infância. A falta da mãe e a vida sozinha com o pai – e sua amargura com o abandono da esposa – desenvolvem na personagem uma profunda relação com a solidão. Após a morte paterna, Regina encontra em um casal de vizinhas e sua filha uma nova possibilidade de família, de apoio e de convívio comum. Natalia tece diferentes redes e relações entre mulheres em seu livro. São poucos os homens na narrativa. É no feminino que encontramos novas formas de relações familiares, relações amorosas e redes de apoio em torno de um objetivo em comum.

Mesmo com a ausência materna, Natalia cria alguns espelhamentos importantes entre mãe e filha. Há uma busca pela liberdade, por ser uma mulher selvagem – no sentido de não-domesticada, de não-obediência aos papéis pré-definidos – nas duas personagens. Guadalupe, a mãe, encantada com a monga, foi ser ela mesma a mulher peluda: fugiu com o circo. A única foto que Regina tem dela, a traz vestida com o corpo da monga, segurando a cabeça na mão, sorrindo junto de sua trupe. Essa fantasia também se torna uma possibilidade de fuga para a própria protagonista: quando se torna camgirl, em performances eróticas na internet, a cabeça de monga é parte essencial para a existência desta sua nova persona, a Divaine. Acompanhamos as errantes trajetórias das duas personagens no decorrer da narrativa – alguns dos momentos de maior beleza do livro são aqueles em que acompanhamos Lupe, uma figura sempre em desencontro, inquieta.

Natalia Borges Polesso autora de A Extinção das Abelhas. Foto: Laine Barcarol/Divulgação

A falta de reação ao “novo normal”

A extinção das abelhas fala sobre a nossa inércia. Sobre esperarmos as coisas voltarem ao normal e elas nunca voltarem. Sobre esse “novo normal”  que, de tanto permanecer conosco, “ficou velho e nos acostumamos”. E é nessa falta de reação que o universo que nos circula se enfraquece e começa a ruir.

Anunciado como um verdadeiro circo em Davos, na Suíça, por gente de terno liso e sapato lustro, o “colapsômetro” prometeu ser “uma medida de proteção e segurança planetária”. Uma série de sanções foram impostas a países que ultrapassassem os limites previstos em relação às transformações no clima. Um dos índices principais dizia respeito às abelhas. Sua extinção como uma condenação da própria vida humana na Terra. E, sim, elas começam a morrer, sistematicamente.

A degradação ambiental, a escassez de alimentos e o aumento da violência seguem, então, num ritmo crescente no país. São pontos que se interligam, uma cadeia de eventos em direção ao colapso. Do uso desenfreado dos pesticidas agrícolas ao desaparecimento de vegetais nos mercados, das milícias que dizem proteger condomínios fechados daqueles que estão do lado de fora dos muros ao ataque às minorias e à comunidade LGBTQIA+ – essa violência se transforma em um jogo com tabela de pontuação.

O novo presidente da república promete em sua campanha “arrumar a casa de todo mundo que precisa” – experiência que ele já realizava, em bem menor escala, quando apresentava um programa de TV. Mas não é simplesmente ajudar e ponto, as pessoas precisam fazer por merecer esse apoio. Te lembra alguém? Num olhar irônico sobre esse pesadelo em forma de futuro, Natalia arranca algumas gargalhadas ao longo da leitura. É quase um rir para não chorar, quando se percebe o quão próximo de nós está este mundo porvir que já é quase um presente.

“O fato é que era melhor ter aquele apresentador de televisão como presidente do que o presidente anterior. Eu nunca pensei que fosse ficar feliz com uma coisa dessas. Eu nem pensava muito nisso, porque me dava um nó”.

Fluidez da narrativa

É muito interessante como a autora cria todo um ritmo para a narrativa, onde cada última palavra de um capítulo é também o título do capítulo seguinte, criando um texto de leitura muito fluida, que nos convida a permanecer e não interromper nosso processo de leitura. Em sua segunda parte, há um tom jornalístico numa série de brevíssimos capítulos que registram os índices do “colapsômetro” no Brasil e em diferentes partes do globo, que se integram à narração de Regina, que testemunha o fim do mundo que até então conhecia.

O fim das abelhas é também o fim de uma vida em sociedade que tenha como prerrogativa o bem comum. A distopia de A extinção das abelhas nos amedronta por parecer tão próxima. Claro, é mais fácil render-se à inércia e aceitar que não há mais nada o que fazer, acostumar-se à normalidade. Mas Natalia Borges Polesso vê uma possibilidade de saída, uma chance de redenção, que, talvez, esteja no comportamento das abelhas: se nos tornarmos enxame, nos unirmos em torno de um objetivo comum, de um verdadeiro senso de comunidade.

Encontre “A extinção das abelhas” aqui.

Por Gabriel Pinheiro

Gabriel Pinheiro é jornalista e produtor cultural, sempre gasta metade do seu horário de almoço lendo um livro. Seu Instagram é @tgpgabriel.

Capa do livro A extinção das Abelhas. Foto: Reprodução Companhia das Letras
Capa do livro A extinção das Abelhas. Foto: Reprodução Companhia das Letras

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