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Literatura

Efe Godoy assina capa de clássico de Armonía Somers

Artista visual mineira dá forma à edição brasileira de “A mulher nua”, romance de 1950 que une erotismo, surrealismo e crítica social em uma narrativa transgressora.

Efe Godoy | Foto: Dulci Fonseca

A artista visual mineira Efe Godoy é um dos destaques da edição brasileira de A mulher nua, romance de estreia da uruguaia Armonía Somers. Lançado originalmente em 1950, o livro chega agora ao Brasil pela Relicário Edições, com tradução e apresentação de Mariana Sanchez, design de Ana C. Bahia e ilustração de capa assinada por Efe.

O gancho visual ajuda a apresentar ao público brasileiro uma obra que marcou a literatura latino-americana pelo caráter transgressor. Considerado um clássico do surrealismo, do erotismo e da crítica social, o romance provocou escândalo no Uruguai ao narrar a jornada de Rebeca Linke, uma mulher que, ao completar 30 anos, abandona tudo, despe-se das convenções e segue nua em direção ao desconhecido.

Na narrativa, a nudez da protagonista não aparece como mero recurso erótico. Ela funciona como um catalisador. Ao cruzar um vilarejo rural, Rebeca expõe o que há de mais reprimido naquela comunidade. Luxúria, violência, histeria e fanatismo religioso vêm à tona. Assim, Armonía Somers constrói uma fábula sombria e sensorial sobre desejo, liberdade e hipocrisia social.

Armonía Somers é o pseudônimo de Armonía Liropeya Etchepare Locino. Nascida no Uruguai em 1914, foi pedagoga, arquivista e escritora. Com A mulher nua, consolidou uma escrita que atravessa o fantástico, o grotesco e a crueldade, tornando-se uma das vozes mais originais da chamada Geração de 45 uruguaia, da qual também fazem parte nomes como Juan Carlos Onetti, Ida Vitale e Mario Benedetti.

Uma capa em diálogo com o corpo e a fabulação

Na edição brasileira, Efe Godoy aproxima sua pesquisa visual da força simbólica do romance. A artista trabalha entre vídeo, objeto, desenho, pintura e performance, com ênfase em memória e fabulações espontâneas. Esse repertório aparece na construção de uma capa que dialoga diretamente com o corpo como território de transformação e insurreição.

“Fazer imagens que misturam corpo, memória e natureza tem sido a minha maior paixão, pois também somos misturas de naturezas. Tudo que a gente vive, sonha, imagina pode resultar em uma imagem. Sou uma fazedora de imagens incansável, já é natural pra mim resolver meus problemas secretos em imagens que depois de um tempo me dizem coisas que eu não sabia, isso pra mim é magia. Para a capa usei essa mesma lógica”, declara Efe Godoy.

A tradutora Mariana Sanchez também destaca a atualidade do romance. Na apresentação, ela escreve: “Como toda tradução, esta também buscou despir o original para revesti-lo de outra língua, de outro corpus. […] A mulher nua é uma história de amor, libertação e gozo, mas também de sombras, castração e misoginia, com múltiplas implicações socioculturais e religiosas, o que diz muito sobre a realização do desejo da mulher na sociedade, em qualquer tempo e lugar. Se esta não é a vitória do desejo feminino, é certamente a vitória da linguagem, fruto do trabalho sui generis de uma mulher que sempre escreveu sem concessões”.

Com essa nova edição, A mulher nua amplia a circulação de uma autora ainda pouco conhecida no Brasil e ganha uma entrada visual potente pelas mãos de Efe Godoy.

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Publicado por juniodecarvalho

Publicado em 07/09/26

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