Há uma frase, frequentemente atribuída ao político e escritor francês Édouard Herriot, que diz que “a cultura é o que fica depois de se esquecer tudo o que foi aprendido”. Foi com essa reflexão que terminou, na segunda-feira, 18 de agosto, o 3º Diálogo do Patrimônio: Sustentabilidade de Projetos Culturais, realizado no Centro de Memória da AngloGold Ashanti, em Nova Lima.
Promovido pelo Instituto AngloGold Ashanti, o encontro reuniu produtores culturais, especialistas em captação, representantes de instituições e empreendedores para discutir, de maneira prática, como estruturar, financiar e dar sustentabilidade a projetos culturais.
Ao longo do dia, a programação percorreu diferentes etapas da sustentabilidade de um projeto cultural. Maria Letícia Corrêa, do Instituto AngloGold Ashanti, discutiu a lógica do investimento social corporativo; Yuri Mello Mesquita, da Fundação Clóvis Salgado, apresentou um panorama do investimento sociocultural em Minas Gerais; e Lucas Alves, da Prosas, abordou o mapeamento de oportunidades e editais.
À tarde, depois da apresentação do Tambor Casa de Gentil, Pedro Melo, da Ponte Gestão, e Rafaela Lima, da AIC, discutiram o caminho entre a elaboração de uma ideia e o acesso aos recursos da Lei Rouanet. Por fim, Natália Manga, da Manga Fina, e Leonardo Vinícius Euletério, representante da Casa Pai Benedito, levaram para a conversa experiências relacionadas a impacto e negócio social.
Conexões
Para Maiara Venceslau, da Fortine Social, que participou do encontro, a combinação entre formação e possibilidade de criar conexões foi um dos pontos relevantes da programação. “Achei os conteúdos muito enriquecedores para quem é proponente”, disse. Segundo ela, o encontro também permitiu conhecer pessoas à frente de projetos de diferentes áreas e perceber possibilidades de “parcerias, conexões ou mesmo simplesmente andar lado a lado, sair da solidão da execução, do conceber os projetos”.
A fala ajuda a dimensionar uma das propostas do evento: reduzir a distância entre quem elabora projetos e quem detém conhecimento, ferramentas ou recursos para viabilizá-los. Para quem trabalha com cultura, entender com mais clareza o que um investidor social procura também significa gastar menos tempo desenvolvendo propostas que dificilmente encontrarão espaço naquela instituição.
Essa aproximação foi destacada por Rafaela Lima, da AIC. “Essas oportunidades de a gente efetivamente se conectar, trocar e de um investimento no desenvolvimento institucional dos grupos, dos coletivos e das organizações são fundamentais”, afirmou. Ela ressaltou ainda que iniciativas desse tipo permanecem raras.
Clareza também faz parte do investimento cultural
Mais do que apresentar mecanismos de financiamento, as discussões evidenciaram a importância de empresas e instituições explicitarem o que esperam dos projetos nos quais investem. Para o proponente, essa informação ajuda a compreender onde concentrar esforços. Para o investidor, pode significar receber propostas mais alinhadas aos objetivos de seu investimento social.
Maria Letícia Corrêa, supervisora de Projetos, Investimento Social e Legado do Instituto AngloGold Ashanti, destacou que a busca do Instituto está direcionada a iniciativas capazes de produzir transformações concretas nos territórios e nas comunidades.
“A gente está de mãos dadas com quem de fato vai fazer a diferença”, disse Maria Letícia. Segundo ela, a intenção é “buscar os projetos que de fato vão fazer a diferença naquele lugar e não simplesmente patrocinar”.
Essa perspectiva também passa pelo acompanhamento dos projetos apoiados. Para Maria Letícia, a relação entre investidor e proponente não deve terminar com o repasse dos recursos. “Não é só fazer o investimento, virar as costas e deixar acontecer. Para mim, acompanhar faz toda a diferença, porque ali realmente é a hora que eu estou perto de quem está sendo beneficiado”, afirmou.
Quando impacto deixa de ser uma palavra abstrata
A experiência de Natália Manga, mostrou como essa relação pode se materializar. À frente da Manga Fina e participante do Parceria Sustentável, projeto que estimula o empreendedorismo realizado com recursos próprios da AngloGold Ashanti, ela contou que o apoio chegou em um momento no qual o crescimento do negócio exigia maior profissionalização.
“O crescimento depende muito de profissionalização. E o Parceria está trazendo isso para mim. Para além da profissionalização, acompanhamento constante, formação. Então é um movimento gigantesco de transformação e um divisor de águas para a empresa”, disse Natália.
A experiência trouxe para o debate outra questão recorrente no investimento social: como identificar e mensurar o impacto de uma iniciativa.
A Manga Fina, por exemplo, trabalha a partir de referências afrocentradas e aborda ancestralidade, cultura e comunidade. Para Natália, compreender a dimensão desse trabalho também modifica a maneira como o negócio se apresenta diante de possíveis parceiros.
“A gente está saindo de um lugar e ganhando uma visibilidade, começando a ser enxergado por empresas e instituições, que é um movimento que a gente precisa para fazer a comunidade se mover, crescer e prosperar”, afirmou.
Maria Letícia citou a própria trajetória da Manga Fina para explicar por que considera importante acompanhar os projetos apoiados. Segundo ela, Natália inicialmente não reconhecia nem sabia mensurar todo o impacto produzido pelo negócio. O processo permitiu tornar mais visíveis efeitos relacionados à cultura, à ancestralidade e à comunidade na qual a iniciativa está inserida.
Um mercado que começa a falar com mais clareza
O encontro em Nova Lima levantou uma questão que vai além da programação. É preciso mais clareza na relação entre investidores e proponentes culturais.
Criar um projeto, estruturá-lo para mecanismos de incentivo e buscar patrocinadores exige tempo. Quando as empresas não deixam claras suas prioridades, produtores podem perder meses elaborando propostas pouco alinhadas ao investidor.
Explicitar o que se procura não significa garantir financiamento. Ou seja, significa tornar o processo mais transparente.
Ao mesmo tempo, essa clareza obriga quem está do outro lado da mesa a fazer perguntas sobre o próprio trabalho. Que transformação o projeto produz? Quem é atingido por ela? Como demonstrar esse impacto? De quais parceiros ele precisa para crescer?
O 3º Diálogo do Patrimônio mostrou que sustentabilidade cultural vai além de leis de incentivo, editais e planilhas.Ela passa também pela profissionalização. Ou seja, pela capacidade de demonstrar impacto e pela construção de relações entre quem produz cultura, quem conhece os mecanismos de financiamento e quem dispõe de recursos para investir.
Talvez seja justamente nesse ponto que a frase escolhida para encerrar o encontro ganhe sentido. Depois de apresentações, leis, editais e ferramentas, fica uma ideia: projetos culturais sustentáveis dependem de conhecimento e de rede.
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Publicado por Carol Braga
Publicado em 19/08/26
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