Mais de oito décadas após sua criação, “A Alma Boa de Setsuan” ainda provoca uma pergunta desconcertante: é possível permanecer bom em um mundo corrompido? O clássico de Bertolt Brecht estreia no Teatro I do CCBB BH em 31 de julho, sob direção de Leonardo Fernandes.
A montagem reúne 12 artistas, entre atores e músicos que executam a trilha sonora ao vivo. A temporada segue até 17 de agosto, com sessões de sexta a segunda, às 20h, e ingressos entre R$15 e R$30.
Na história, três deuses descem à Terra em busca de uma alma verdadeiramente boa. Eles encontram Shen Te, uma jovem prostituta e a única pessoa disposta a acolhê-los. Como reconhecimento, entregam a ela dinheiro para comprar uma pequena tabacaria.
Porém, quanto mais Shen Te ajuda quem está ao seu redor, mais sua bondade é explorada. Para sobreviver, ela inventa Shui Ta, um suposto primo duro, pragmático e implacável. A personagem passa, então, a alternar entre a compaixão e as exigências práticas da sobrevivência.
Um Brecht contemporâneo
A adaptação assinada por Leonardo Fernandes e Lucas Vasconcellos destaca as relações de poder, a desigualdade, a exploração e o dinheiro como mediador das relações sociais. Além disso, a encenação combina humor, ironia, elaboração visual e distanciamento brechtiano.
A estreia será no mês em que se completam 70 anos da morte de Brecht. O dramaturgo alemão revolucionou o teatro ao desenvolver o Teatro Épico e transformar o palco em espaço de reflexão crítica.
“Dirigir Brecht é aceitar que nenhuma obra-prima pertence ao passado. O maior desafio não é atualizar o texto, mas revelar que ele nunca deixou de ser atual. Se o público sair do teatro olhando para o mundo de outra maneira, então a peça terá cumprido sua missão. Com um autor como Brecht, o trabalho do diretor é amplificá-lo e torná-lo ainda mais acessível para a geração atual”, analisa Leonardo Fernandes.
A trajetória de Leonardo Fernandes
Diretor, ator, músico e artista visual, Leonardo Fernandes recebeu, em 2016, o Prêmio APCA de Melhor Ator por “Cachorro Enterrado Vivo”. Como diretor, desenvolve uma pesquisa marcada pelo rigor técnico e visual, pelo trabalho corporal e textual dos atores e pela aproximação entre dramaturgias clássicas e linguagens contemporâneas.
“A Alma Boa de Setsuan” sucede uma sequência de sete espetáculos concebidos e produzidos de forma independente pelo artista. Em um cenário de constantes desafios para a cultura brasileira, sua trajetória reafirma um modo de fazer teatro sustentado pela persistência, pela invenção e pelo compromisso inegociável com a criação artística.
Há um paralelo inevitável entre essa trajetória e o próprio pensamento de Brecht. Fazer teatro de forma independente, insistindo na criação em um contexto de escassez de recursos, também é um gesto político. É acreditar que o palco continua sendo um espaço de encontro, pensamento e transformação, uma convicção que atravessa tanto a obra do dramaturgo alemão quanto o percurso de Leonardo Fernandes.
Seus espetáculos independentes são “Cachorro Enterrado Vivo”, “Enquanto Estamos Aqui”, “O Sonho das Pérolas”, “Os que vêm com a Maré”, “Frankenstein”, “A Grande onda de Kanagawa” e “A Alma Boa de Setsuan”.
Elenco, música e criação visual
No palco, Bárbara Costa, Camila Félix, Ivana Andrés, Luciano Luppi, Marco Perpétuo, Leonardo Fernandes, Letícia Leão, Vanessa Gabriel e Victor Velloso formam o elenco. A montagem também aposta na presença dos músicos em cena, com Bruna Guimarães no violoncelo, Gilvan Borges no piano, Leonardo Fernandes na bateria, Letícia Leão na voz e no violão e Roberto Júnior no saxofone.
Eliatrice Gischewski atua como assistente de direção e também responde pela preparação corporal, pela coreografia e pela operação de luz. A criação de luz é de Wladimir Medeiros, enquanto Luciano Luppi trabalha como cenotécnico.
As ilustrações foram criadas por Ivana Andrés, Leonardo Fernandes e Luciano Luppi. Já os vídeos são de Letícia Leão, por meio da Leão Arte Filmes. A equipe conta ainda com Airon Gischewski na técnica de som.
Serviço
A Alma Boa de Setsuan
Temporada: De 31 de julho a 17 de agosto de 2026
Sessões: Sexta a segunda, às 20h
Local: Teatro I – CCBB BH (Praça da Liberdade, 450 – Funcionários).
Classificação Indicativa: 14 anos
Ingressos: R$30,00 (inteira) e R$15,00 (meia-entrada), disponíveis no site CCBB BH e na bilheteria do CCBB BH.
Publicado por juniodecarvalho
Publicado em 17/07/26
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