Cinema

Odisseia de Nolan é pra ser visto no cinema

Filme de Christopher Nolan transforma Homero em experiência cinematográfica de grande escala, mas encontra sua força no rosto vulnerável de Odisseu.

Odisseu (Matt Damon) e Atena (Zendaya) em 'A Odisseia' (2026), de Christopher Nolan | Foto: Melinda Sue Gordon/Universal Studios

Por Júnio Carvalho

Antes de mais nada, “A Odisseia” é para ser apreciada e vivida na sala escura, diante de uma imagem monumental e de uma trilha que conduz o espectador do início ao fim. E, se possível, em salas IMAX. 

O filme chega com a ambição de aproximar dois tempos separados por quase 3 mil anos: Homero e Nolan. A aposta técnica também é parte dessa leitura. “A Odisseia” é o primeiro longa rodado inteiramente em filme IMAX. Cada frame tem resolução até três vezes superior à de uma gravação digital, e cada rolo permite apenas cerca de dois minutos e meio a três minutos de filmagem contínua.

Ou seja, para chegar aos 170 minutos de duração final , a produção usou mais de 2 milhões de pés de filme IMAX 70 mm e teve orçamento estimado em US$ 250 milhões. Portanto, a pergunta não é só como Nolan adapta Homero. O que está em jogo é a própria entrega do diretor a uma experiência cinematográfica radical e grandiosa.

A Odisseia (2026), de Christopher Nolan 
Melinda Sue Gordon/Universal Studios
Foto: Melinda Sue Gordon/Universal Studios

Um prólogo para o mito

O filme começa com um ecoamento de palavras e frases que permeiam a narrativa inteira, como um prólogo:

Um rosto. Um homem. Uma guerra. Uma artimanha

Depois, anuncia que se trata de uma época em que a magia se fazia presente. Isso já cria uma expectativa alta sobre como Nolan vai articular essa história milenar, esses seres mitológicos e esses desafios celestiais que Odisseu, vivido por Matt Damon, vai percorrer ao longo de 20 anos até conseguir retornar à ilha de Ítaca.

Uma das escolhas mais interessantes está na ordem dos fatos. Nolan não segue a cronologia de maneira direta., Odisseu é convocado por Agamenon para lutar na Guerra de Troia. Ele é o responsável pelo “truque do cavalo de Tróia”. A guerra dura dez anos. Depois, ele leva mais dez anos para voltar para casa.

Matt Demon como Odisseu/Ullyses | Melinda Sue Gordon/Universal Studios

Mas o filme brinca com passado, presente, memória e as ameaças do futuro. A narrativa se abre pela ajuda de Calypso, que aprisiona Odisseu por sete anos em sua ilha, o resgata do mar e o impede de continuar comendo a flor de lótus, que aliviava a dor por não conseguir voltar para casa e o fazia esquecer quem era. Ao perguntar se ele se lembra de alguma coisa, ele começa a narrar a própria história.

Essa não-linearidade traz dinâmica ao filme. Também cria um jogo muito interessante de câmera e de mudanças de cenas-paisagens, que te envolve cada vez mais. Ao mesmo tempo, adiciona camadas à história e à face desse herói grego em ruínas.

Algo que me pareceu estranho, mas não chega a incomodar tanto, é o fato de os atores falarem um inglês de hoje em dia. Isso cria certo distanciamento territorial e temporal. Porém, não atrapalha o acompanhamento do filme, embora soe estranho ouvir “dad” e “fucking” no longa. 

Odisseu se desfaz diante da guerra

Se você espera cenas épicas da Guerra de Troia, não terá. A guerra faz parte da narrativa, claro, mas é plano de fundo. Não vemos um Odisseu heroico e vencedor da batalha de dez anos. Vemos um ser humano vulnerável, que carrega por décadas o peso de escolhas e o fardo de ser o rei de Ítaca.

Matt Damon está muito bem como Odisseu. Ele traz na face, a princípio, um herói invencível, astuto e resistente. Depois, começamos a vê-lo por dentro. Surge um lado mais humano e redutível. Ele assume seus medos, enquanto persiste o desejo de voltar ao lar.

Odisseu vai se desfazendo ao longo do filme. Ele percebe que, como ele mesmo diz, “a luta foi transformada em caçada”. Então carregaderrotas, perdas e aquilo que já não pode reparar.

A trilha sonora, belíssima e muito presente, também vai se desfazendo ao final. É bonito ver isso em acordo com as cenas derradeiras. Assim como Odisseu percebe que nada daquilo valeu a pena, a música vai ficando mais melancólica. Ela perde o caráter epopeico de guerra e vai para um lugar de ruína.

Elenco de peso dá corpo à travessia

O elenco de peso escalado por Nolan ajuda a ampliar essa dimensão humana do mito. Anne Hathaway está divina como Penélope. Ela vive nas ruínas da ausência de Odisseu, mas precisa ser resistência de uma ilha sem rei e sem defesa. De forma simples e muito forte, traz no olhar a esperança pela volta do amado. Também expressa uma resistência aflita diante de um bando de pretendentes que habitam seu reino durante anos, pressionando-a a escolher um próximo rei, pois ninguém mais acredita que Odisseu irá voltar.

Anne Hathaway como Penélope | Foto: Melinda Sue Gordon/Universal Studios

Outro destaque é Lupita Nyong’o no papel de Helena. Em poucos segundos, ela consegue trazer pelo olhar e pela musculatura facial a revolta e a culpa da personagem. Helena, acusada de ser um dos motivos da guerra de Troia, aparece marcada por essa culpa imposta e por uma presença que não precisa de muito tempo de tela para permanecer.

Zendaya também ganha destaque como Atena. Ela humaniza pelo olhar a deusa da guerra. Em vez de uma presença apenas celestial, sua Atena surge atravessada por uma atenção silenciosa, como se observasse Odisseu não só como protegido, mas como alguém que também carrega contradições.

Um filme para sentir medo dos Deuses

O filme consegue captar muito bem a dimensão deste homem diante de um mundo governado por ordens religiosas e seres mitológicos. Para isso, Nolan alterna planos muito abertos, que mostram a grandiosidade dos desertos, dos mares governados por Poseidon e dos cenários de guerra, com planos muito fechados, voltados para diálogos íntimos, momentos de vulnerabilidade, confissão e medo.

Os takes fechados valorizam a intimidade e o humano desses personagens seculares, mitológicos e celestiais. Já os takes abertos, com fotografias belíssimas, dão a grandiosidade de um império e de um mar imenso comandado pelo Deus dos mares. Em alguns momentos você se sente junto à tripulação de Odisseu, sem rumo e à espera de uma rota pra casa.

O jogo de câmera nos faz temer junto a Odisseu e sua tripulação, os seres mitológicos durante a saga da volta. Os efeitos visuais e a construção dos monstros e de Circe fogem de uma mera aparência artificial e nos convencem por uma verossimilhança assombrosa. E, principalmente, a trilha sonora nos incita a um sentimento de perigo real. 

Mesmo com quase três horas de duração, “A Odisseia” prende até o final. E emociona no encontro de Odisseu com seu filho, vivido por Tom Holland. Ali, toda a grandiosidade e a valentia dos personagens se desfazem pela saudade e pela relação perdida entre os dois por causa da guerra.

A “Odisseia” é um poema épico conhecido universalmente. Já sabemos para onde a narrativa irá nos levar. Mas o que está em jogo é a aposta de Nolan para essa adaptação. E ela está menos em surpreender pelo destino da história do que em fazer o espectador sentir, no corpo, o peso de uma volta para casa.

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Publicado por juniodecarvalho

Publicado em 15/07/26

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