Literatura
“Os imortais” é raro mergulho em nossa pré-história
Em novo romance de Paulliny Tort, o encontro entre neandertais e homo sapiens lança luz sobre questões profundamente contemporâneas.
Paulliny Tort (Foto Renato Parada)
Literatura
Em novo romance de Paulliny Tort, o encontro entre neandertais e homo sapiens lança luz sobre questões profundamente contemporâneas.
Paulliny Tort (Foto Renato Parada)
Por Gabriel Pinheiro | Colunista de Literatura
A pedra lascada é um marco inicial da pré-história. Uma das mais antigas formas de tecnologia da humanidade, o ato de quebrar uma pedra intencionalmente para criar ferramentas constitui um passo fundamental na história da própria evolução humana. Há algo desse gesto primordial, a transformação da matéria bruta em algo novo, na escrita de Paulliny Tort em seu novo romance. É raro, mas de vez em quando nos deparamos com uma obra que parece inaugurar um território próprio, inventar um novo mundo. Foi essa a sensação que tive ao ler “Os imortais”, recém-lançado pela Fósforo Editora.
“Os imortais” acompanha um grupo de neandertais, espécie irmã dos humanos modernos – e que deixou marcas genéticas que nos acompanham até hoje. Homens, mulheres, crianças, jovens e idosos formam aqui uma comunidade frente a um ambiente hostil, que busca, antes de tudo, a sobrevivência. O medo é uma constante: as ameaças do tempo, da natureza, da fome e do outro.
“E tanto no passado quanto agora tudo lhe parece admirável e insólito, porque as diferenças entre eles e essas pessoas são realmente tão notáveis quanto as semelhanças, como se estivessem diante de reflexos apenas distorcidos.”
Paulliny Tort desenha uma civilização ainda incipiente, mas, assombrosamente, muito atual. O encontro com um grupo de seres tão assustadoramente semelhantes quanto radicalmente diferentes – eles, os outros, são homo sapiens – revela aquilo que se esconde por trás do medo: a violência, a rivalidade e o desejo de poder. “Se se apiedar do estrangeiro, falhará. Se sentir a dor dos outros, falhará. Agora ele não é um homem, é o clã. Sua vontade não é a vontade de um homem, é a vontade do clã.”
Na viagem ao passado empreendida pelo romance, a escritora brasiliense reflete sobre questões como identidade, crença, cultura e o humano como um conceito em constante evolução – um processo ainda em curso, que coloca em perspectiva os limites da nossa própria humanidade hoje.
A escrita luminosa de Paulliny encontra um meio de, a partir das linguagens rudimentares de hominídeos pré-históricos, construir uma ponte, uma comunicação possível. Não digo apenas entre os dois povos retratados, mas, sobretudo, entre seus personagens e o leitor. “Os imortais” é um “pequeno milagre”, escreve Caetano W. Galindo na orelha da edição. Eu não poderia concordar mais. Um romance raro, que nos transporta para o passado mais distante justamente para nos dizer de um presente tão inquietantemente próximo.
“Não há monstros, ela não é um monstro, ninguém é, apenas animais perdidos em um universo demasiado vasto.”

Encontre “Os imortais” aqui.
Gabriel Pinheiro é jornalista e crítico de literatura. Escreve aqui no Culturadoria e também em seu Instagram: @tgpgabriel.
Publicado por tgpgabriel
Publicado em 17/06/26