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O Palco Invisível: Dossiê inédito revela os desafios e a potência criativa do teatro no interior de Minas Gerais

Pesquisa inédita com 130 agentes culturais revela baixos salários, falta de infraestrutura e dependência de editais temporários no interior mineiro

Cia Lamparina | Foto: Ane Souza

A cultura de Minas Gerais respira para além das montanhas da capital, mas a que custo? Historicamente ofuscados pelas luzes e pelos grandes investimentos concentrados em Belo Horizonte, os artistas do interior do estado sempre criaram no improviso, na paixão e na escassez. Agora, essa realidade que todos os fazedores de cultura conheciam empiricamente ganhou dados estatísticos. 

Um dossiê inédito, idealizado pelo pesquisador e artista Bruno Regenthal, mapeou o setor teatral no interior mineiro. Ele é integrante da Cia Lamparina, com sede em Ouro Preto, e entende de perto essa realidade. 

Preenchendo uma lacuna de dados que existia desde 1996, o levantamento contou com a participação de 130 agentes culturais. O objetivo vai além da academia: “A gente sabe como é, a gente entende, a gente vive isso, mas precisa estar escrito pelos próprios fazedores de cultura”, defende Regenthal.

A tese que emerge desse documento é clara e urgente: apesar da notável efervescência criativa e da inegável resiliência dos artistas, o teatro no interior sobrevive de forma precária devido à falta de espaços adequados e à extrema dependência de políticas públicas temporárias. 

A precarização financeira e o impacto da “bacia de eventos”

Os números levantados pela pesquisa são um retrato duro da desvalorização do trabalho artístico longe dos grandes centros. O levantamento escancarou, por exemplo, que 58% dos artistas recebem apenas R$ 800 por seu trabalho no teatro. E mais: impressionantes 84% são obrigados a exercer outra atividade profissional para conseguir complementar a renda. 

A situação é ainda mais complexa em cidades com forte apelo turístico e cultural. São locais que sofrem com uma lógica quase colonizatória da “bacia de eventos”. Grandes festivais e produtoras de fora trazem sua programação, realizam os eventos e vão embora. “Trazem a programação toda de fora e a gente, por mais que isso contribua com uma formação artística, […] acaba gerando essa precarização de oportunidades para nós, artistas do interior mineiro”, lamenta o pesquisador.

Teatros de portas fechadas para a arte: o desafio da infraestrutura

Ter um teatro municipal na cidade não garante, necessariamente, que haja um palco disponível para o artista local. Um dos pontos mais críticos do dossiê revela que a infraestrutura física dos teatros no interior é frequentemente desviada de sua função primordial. 

“Esse teatro municipal, por exemplo, na via de regra, normalmente vira um galpão. […] É ocupado por eventos não artísticos, palestras, congressos”, relata Bruno. Quando os grupos de teatro conseguem uma pauta nesses locais, deparam-se com a ausência de estrutura básica. “Você tem que montar um teatro dentro do teatro. Você tem que colocar iluminação, você tem que colocar cortina, equipamento de som”, explica. 

É justamente por essa falta de equipamento adequado que muitos grupos têm abraçado o Teatro de Rua, transformando a necessidade em uma das maiores potências estéticas de Minas Gerais ao ocupar as praças.

A armadilha dos editais provisórios e a urgência de políticas perenes

Nos últimos anos, leis emergenciais e de fomento representaram um respiro, mas a pesquisa joga luz sobre uma “armadilha”: esses recursos, muitas vezes, resolvem a vida financeira dos grupos por apenas um ou dois meses. Sem a garantia de estabilidade, os artistas vivem em um ciclo exaustivo de concorrência. 

A grande luta apontada pelo dossiê é a transformação dessas leis de incentivo em Fundos Municipais de Cultura perenes e ativos. O retrato de Ouro Preto ilustra perfeitamente o problema: “Ouro Preto aqui, por exemplo, a gente tá há 5 anos sem fundo”, revela Bruno. “Enquanto os municípios estão precarizados em relação à cultura, a gente podia ter uma lei municipal de incentivo à cultura. […] E aqui em Ouro Preto a gente teria muita possibilidade, por exemplo, ser por ISS, até por IPTU”, complementa o pesquisador.

Efervescência criativa, resistência e amor incondicional

Apesar de todas as adversidades estruturais e financeiras, a maior descoberta do dossiê talvez seja a indomável efervescência criativa do interior mineiro. O levantamento revelou que quase metade dos espetáculos apresentados nas cidades são criações autorais, montadas por companhias locais. 

Ao invés de desistirem, muitos atuam movidos por um amor genuíno pela arte, mantendo grupos com mais de 10 ou até 20 anos de resistência, como é o caso da Cia Solares, de Santa Luzia. “Muitas pessoas circundam no amadorismo, no sentido de não considerar sua atividade como ganha pão […] e fazem teatro de uma forma, no conceito da palavra mesmo de amar aquilo de uma forma incondicional, independente do financeiro”, emociona-se Regenthal.

O documento construído por esses 130 agentes culturais se torna agora um instrumento de cobrança. “Foi a coisa mais coletiva que eu fiz até hoje”, celebra o autor do estudo. O próximo passo é tirar a cultura dos bastidores da gestão pública. “Fico muito feliz desse documento ser um documento histórico. Ele vai ser pautado em assembleias, ele vai ser pautado em pesquisa daqui para frente. […] Quero levar essa discussão para deputados, vereadores, pessoas que cuidam do interesse público”, conclui.

O dossiê completo está disponível gratuitamente no link

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Publicado por juniodecarvalho

Publicado em 15/05/26

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