Literatura
A escrita como pátria na literatura de Ágota Kristóf
A relação entre vida, língua e escrita nas obras de uma das grandes autoras europeias do século XX
Ágota Kristóf | Foto: Ulf Anderson
Literatura
A relação entre vida, língua e escrita nas obras de uma das grandes autoras europeias do século XX
Ágota Kristóf | Foto: Ulf Anderson
Por Gabriel Pinheiro | Colunista de Literatura
“Como teria sido minha vida se não tivesse deixado meu país? Mais dura, mais pobre, penso, mas menos solitária, menos lacerada, talvez feliz. O certo é que eu teria escrito, em qualquer lugar, em qualquer língua”, escreve Ágota Kristóf no relato autobiográfico “A analfabeta”, publicado pela Editora Nós, com tradução de Prisca Agustoni. O trecho parece condensar muitos dos temas que atravessam as páginas deste breve livro: o exílio, a pátria, a solidão, a violência, a guerra e a literatura. Sobretudo a literatura. Ela, capaz da salvação, necessidade para a sobrevivência.
Em “A analfabeta”, Kristóf escreve sobre a pobreza de sua infância, sobre uma Hungria e uma Europa em plena Segunda Guerra Mundial, sobre a dominação do país, no pós-guerra, por outra nação, por outra cultura. O idioma russo e o retrato de Josef Stálin nas paredes passam a compor a nova realidade do pequeno país do Leste Europeu ao se tornar parte da União Soviética. Kristóf escreve sobre o trauma do apagamento de uma língua pela imposição de outra.
No final dos anos 1950, a fuga. Ágota narra a travessia traumática, o risco e a vida como mulher refugiada. O exílio na Suíça impõe novos desafios – e reatualiza traumas nem tão novos assim. Ali, uma nova língua, o francês, precisa ser aprendida. O aprendizado que, pouco a pouco, apaga aquilo que veio antes: a língua-pátria, o húngaro da leitura e da escrita de uma criança alfabetizada precocemente, confrontado com o francês de uma mulher adulta que se enxerga, então, uma analfabeta.
A escritora constrói o relato a partir de pequenos textos que atravessam diferentes momentos de sua trajetória. Na Suíça, aparece o trabalho fabril e monótono. Ali também se dão os exercícios iniciais de escrita em francês, o primeiro texto enviado a editoras, as respostas negativas e, enfim, o sim. Ágota Kristóf relembra a publicação de seu primeiro livro, “O grande caderno”, que mais tarde se tornaria a peça inaugural de sua “Trilogia dos Gêmeos”.
Embora escrita muitos anos após a conclusão da trilogia,“A analfabeta” é uma excelente porta de entrada para a literatura de Ágota Kristóf e para o universo ficcional desenvolvido nesta trilogia – “O grande caderno”, “A prova” e “A terceira mentira” – publicada pela Dublinense, com tradução de Diego Granado. Na ficção dos gêmeos que buscam estratégias de sobrevivência diante do horror da guerra, Kristóf trabalha o trauma, a violência, a escassez, a fome, o exílio, a identidade e, claro, o próprio fazer literário. A escrita e a leitura surgem também como possibilidades de emancipação, de rompimento com o ciclo vicioso da barbárie. “Nosso país está rodeado de arame farpado; nós estamos totalmente isolados do resto do mundo.”
A prosa da Trilogia dos Gêmeos é marcada pelo embate de Ágota Kristóf com essa língua que, outrora, lhe era estrangeira. Aprender o francês torna-se não apenas uma questão de sobrevivência em um novo país. É uma necessidade para que a literatura permaneça, ao contrário do tanto que é perdido nesse processo.
Do primeiro ao terceiro livro, vemos a prosa da autora húngara passar por transformações intensas. Cada volume apresenta estruturas marcadamente distintas, resultado do domínio cada vez maior de Kristóf sobre o idioma francês. “Não precisa estudar para ser escritor. Só precisa saber escrever sem cometer muitos erros. Quero muito aprender a escrever corretamente na sua língua, isso me basta.”
A vida de Ágota Kristóf é a matéria primordial de toda a sua produção literária já publicada no Brasil. “Ontem”, publicado originalmente em 1995, poucos anos depois da conclusão de sua famosa trilogia, chega agora em tradução para o português (Editora Nós, tradução de Prisca Agustoni). O livro acompanha a vida de um operário exilado – tanto de sua pátria e de sua língua quanto de si mesmo. O cotidiano imutável, as escassas perspectivas de futuro de um trabalho fabril marcado pela repetição exaustiva. Numa prosa hipnótica, “Ontem” parece escrito como um registro de um pesadelo. São muitos os sonhos ruins dos quais seu protagonista não consegue acordar: a fome, a guerra, a morte, a solidão, a exaustão. A atmosfera angustiante da prosa de Kristóf talvez atinja seu grau máximo aqui.
Um dos maiores nomes da literatura europeia do século XX, Ágota Kristóf é uma autora singular e incontornável, dona de um projeto literário umbilicalmente ligado à própria vida e à própria história. Você já ouviu alguém dizer “a literatura me salvou”? Talvez essa frase nunca tenha feito tanto sentido quanto na obra – e na vida – de Ágota Kristóf.
“Às vezes me pergunto se vivo para trabalhar ou se é o trabalho que me faz viver.
E qual vida?
Trabalho monótono.
Salário miserável.
Solidão.”
Encontre “Ontem” aqui.
Encontre “A analfabeta” aqui.
Encontre a “Trilogia dos Gêmeos” aqui.
Gabriel Pinheiro é jornalista e crítico de literatura. Escreve aqui no Culturadoria e também em seu Instagram: @tgpgabriel.
Publicado por tgpgabriel
Publicado em 13/04/26