Literatura

Cecilia Gentili e as cartas de uma infância queer interrompida

"Faltas - Cartas para todos da minha cidade que não me violaram” , de ativista trans Cecília Gentili, é acerto de contas com o passado.

Cecilia Gentili | Foto: Oscar Diaz

Por Gabriel Pinheiro | Colunista de Literatura

“Mas escrever é diferente, Mami. As coisas ficam no papel. Na escrita, não consigo me recuperar de um erro apenas sendo rápida: preciso voltar e reescrever tudo. Ao escrever esta carta para você, tive que voltar e revisar as coisas tantas vezes”, escreve Cecília Gentili em uma carta para a mãe. Mas essa carta nunca será entregue diretamente à destinatária, como um objeto particular, uma partilha íntima entre mãe e filha. Ao lado de outras missivas, ela compõe “Faltas — Cartas para todos da minha cidade que não me violaram” (DBA Editora), livro que reúne uma série de cartas escritas por Gentili a figuras que habitaram e, em diferentes graus, transformaram sua infância e adolescência em Gálvez, uma pequena cidade argentina nos anos 1970.

De Gálvez à Nova York

Atriz, escritora e ativista trans, Cecília Gentili tornou-se símbolo, na cidade de Nova York. Por exemplo, na luta pelos direitos LGBTQIAP+ e pelo apoio a populações historicamente marginalizadas. Um símbolo fruto de uma identidade construída a duras penas. Em “Faltas”, Gentili resgata uma infância que lhe foi usurpada pelo outro. Pelo ódio do outro, pelo medo do outro, pela incompreensão do outro, pelo poder do outro, pelo desejo do outro, pelo abuso do outro. Cecília Gentili escreve sobre o abuso sexual sofrido sistematicamente ao longo da infância por um pai de família da vizinhança.

“Indo direto ao ponto, Rosanna. seu pai me estuprou. Começou quando eu tinha seis anos e continuou por vários anos. Ele abusou sexualmente de mim pelo resto da minha infância e adolescência.”

Cecilia Gentili e a infância queer

Em uma escrita dolorosamente honesta, Cecília rememora a experiência enquanto criança queer em uma cidade isolada, sem recursos, convivendo com a pobreza e a ausência de possibilidades. É ali, ainda muito jovem, em uma família desestruturada, que ela percebe o descompasso entre o gênero que lhe foi atribuído ao nascer e aquele ao qual sente pertencer. Nesse sentido, em determinado momento, Cecília revela à avó materna ter compreendido sua condição. Seria um extraterrestre, e os objetos voadores não identificados vistos no céu argentino naquele período eram naves tentando resgatá-la.

Uma série de pessoas orbitou esse espaço e esse tempo de Gentili: a mãe, a avó, a amante do pai, o melhor amigo, a filha de seu abusador, por exemplo. Cecília escreve uma carta para cada uma dessas figuras que, em maior ou menor grau, testemunharam essa infância marcada pela violência sexual — e pouco ou nada fizeram a respeito. Ainda que não escreva nenhuma carta para ele, seu algoz permeia cada página como um fantasma.

Um olhar para a sobrevivência

Raiva, mágoa e frustração convivem com o amor, o afeto e o carinho ao longo da escrita de Gentili. Assim, em um texto que não mede palavras para dizer tudo aquilo que permaneceu represado por décadas, a autora abraça uma honestidade brutal, sem deixar de lado a ironia, o humor e a acidez. Acerto de contas ou reelaboração do trauma, “Faltas — Cartas para todos da minha cidade que não me violaram” é, dessa forma, um mergulho nas muitas ausências que podem constituir uma existência queer. Em suma, um olhar para a sobrevivência, apesar de tudo.

“Mas lá vou eu falando de mim de novo. Claramente, querido, esta carta que escrevi para você acabou sendo toda sobre mim. E já era hora! As coisas entre você e eu precisam ser mais sobre mim. Não significa que te ame menos: significa que me amo mais.”

Encontre “Ressuscitar mamutes” aqui.

Gabriel Pinheiro é jornalista e crítico de literatura. Escreve aqui no Culturadoria e também em seu Instagram: @tgpgabriel.

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Publicado por tgpgabriel

Publicado em 20/02/26

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