A abertura da Mostra de Cinema de Tiradentes deste ano já se apresentou como um gesto simbólico. Em meio a dias de chuva constante e tempo instável na cidade histórica, público, artistas e realizadores se reuniram para marcar o início de uma edição atravessada por encontros e reflexões sobre o cinema brasileiro contemporâneo.
A programação da Mostra segue até o dia 31 de janeiro, com entrada gratuita e um total de 137 filmes. As chuvas têm impacto apenas nas sessões previstas para o Cine-Praça, que, quando necessário, são transferidas para o Cine-Teatro, garantindo a continuidade da programação.
Karine Teles e a recusa ao glamour
Homenageada da noite de abertura, a atriz Karine Teles fez um dos discursos mais contundentes da cerimônia. Ao subir ao palco, relembrou sua primeira passagem pela Mostra. Foi em 2007, quando ainda era espectadora e sonhava em ver um trabalho seu projetado naquela mesma tela. Quase duas décadas depois, o reconhecimento veio acompanhado de uma fala que fugiu do tom celebratório esperado em momentos como esse.
Em vez de reforçar a imagem glamourizada da profissão, Karine escolheu expor a instabilidade que marca a trajetória de quem trabalha com arte e cultura no Brasil. Falou de carreiras imprevisíveis e da alternância entre períodos de trabalho intenso. Também mencionou os longos intervalos sem projetos, das mudanças constantes no cenário político e institucional. Tudo isso sem se esquecer do desgaste emocional de persistir em um campo que exige recomeços sucessivos. “Não é nada glamouroso, não é nada romântico”, afirmou, ao descrever a dureza de seguir criando.
Lucidez em meio ao otimismo do cinema brasileiro
A força do discurso esteve justamente na lucidez. Em um momento de otimismo em torno do cinema brasileiro, impulsionado por prêmios, visibilidade internacional e retomada de políticas públicas, Karine lembrou que essas conquistas não eliminam as fragilidades estruturais do setor. Persistir continua sendo um desafio cotidiano para artistas e técnicos.
Ao agradecer à Mostra pelo reconhecimento, a atriz também destacou o papel do festival como espaço de encontros, debates e formação de novos olhares. A fala da atriz conectou o reconhecimento individual a uma defesa coletiva de um cinema mais plural e de uma indústria cultural mais consistente, capaz de oferecer condições menos precárias para quem a constrói.
Em uma noite marcada por celebrações, o discurso de Karine Teles funcionou como um chamado à realidade. Um lembrete de que, apesar dos avanços recentes, fazer cinema no Brasil segue sendo, antes de tudo, um exercício de resistência.
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Publicado por Carol Braga
Publicado em 24/01/26
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