Música

Lô Borges: o artesão da canção brasileira

O cantor e compositor mineiro, coautor do “Clube da Esquina”, uniu lirismo, invenção harmônica e espírito coletivo, transformando a MPB.

Lô Borges | Foto: João Diniz

Lô Borges sempre tratou a canção como um organismo vivo. O modo dele escrever junta melodias de vocação popular com harmonias ousadas, modulando entre o lirismo mineiro e ecos beatlemaníacos. Assim, criou uma síntese que ampliou as possibilidades da MPB. 

O traço autoral está em temas que ficaram no ouvido coletivo: “O Trem Azul”, “Um Girassol da Cor do Seu Cabelo”, “Paisagem da Janela”, entre outras. 

A virada estética de 1972

Em 1972, a dupla Lô Borges–Milton Nascimento assinou “Clube da Esquina”, álbum duplo que redefiniu a ambição sonora no Brasil. Misturou bossa, rock psicodélico, jazz, erudição e regionalismos com arranjos intrincados e uma poesia que falava de fé, amizade, utopia e dúvida. Em tempo: em plena ditadura. A recepção inicial foi áspera; com o tempo, a crítica reviu o julgamento e o disco virou referência mundial, figurando entre os mais importantes já gravados. 

“Disco do Tênis”: identidade e risco

No mesmo ano, Lô lançou o álbum solo de estreia: o célebre “Disco do Tênis”. Ali estão o minimalismo das imagens, a harmonia dissonante e a força melódica que marcariam a trajetória do artista. O próprio compositor relatou o tamanho do desafio criativo daquele processo, que consolidou uma voz própria aos 20 anos. 

Composição como ofício diário

A relação de Lô com a escritura de canções foi obstinada. Nos últimos anos, manteve um ritmo raro: Rio da Lua (2019), Dínamo (2020), Muito Além do Fim (2021), Chama Viva (2022), Não Me Espere na Estação (2023), Céu de Giz – Lô Borges convida Zeca Baleiro (2025) e Tobogã (2024). A sequência recente confirma o compositor em estado de produção permanente com melodias novas, parcerias novas e fôlego de estreia. 

Por que a obra dele é central?

Lô deslocou a MPB para fora das paredes do gênero. Trouxe à canção a convivência entre sofisticação harmônica e canto coloquial; entre Minas e o mundo; entre o íntimo e o universal. Ao fazer isso em coletivos ajudou a instaurar um modo de criação que soma autores, arranjadores e instrumentistas numa mesma ideia de obra. “Clube da Esquina” é o emblema desse método, mas sua discografia inteira testemunha o mesmo princípio: canções como espaços de encontro. 

Um legado em presente contínuo

Lô Borges deixa muito mais que discos importantes. Deixa um método de criação: melodia como casa, harmonia como horizonte, poesia como gesto de liberdade. E a lição prática de um compositor que escreveu todos os dias — até o fim.

Por Carol Braga | @culturadoria.

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Publicado por juniodecarvalho

Publicado em 03/11/25

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