Literatura
“De pé, tá pago”, do costa-marfinense GauZ, é romance vibrante
Gauz - Crédito: The Booker Prize
Literatura
Gauz - Crédito: The Booker Prize
Por Gabriel Pinheiro | Colunista de Literatura
“De pé, tá pago” começa com uma imagem poderosa: “Novos recrutas. A longa fila de homens negros subindo as escadas estreitas se parece com uma cordada sem precedentes galgando o K2, o formidável topo da Cordilheira do Himalaia.” Congoleses, marfinenses, malineses, guineenses, benineses, senegaleses. Homens negros em fila, esperando as instruções para o novo emprego – alternativa possível à condição de “indocumentados” na França. Entretanto, para receber o parco salário no final do mês é necessário permanecer atento e de pé ao longo de toda a jornada de trabalho. Romance de estreia de GauZ, “De pé, tá pago” é um lançamento da Ercolano, com tradução de Diogo Cardoso.
Na figura de dois jovens marfinenses vivendo na França, GauZ registra o dia a dia de seguranças de origem africana em diferentes estabelecimentos comerciais. Por exemplo, conglomerados de roupas, lojas de grife e redes de cosméticos, em Paris. Se parecem invisíveis ao público dessas lojas, todavia, nós sabemos que esses seguranças têm cor. E estão vendo tudo.
“Os contratos são por tempo indeterminado. Todos que entraram desempregados nessas repartições sairão daqui como seguranças. Quem já tem alguma experiência na profissão sabe o que os aguarda nos próximos dias: ficar de pé o dia inteiro em uma loja, repetir a tediosa proeza do tédio, todos os dias, até receber o pagamento no final do mês. De pé, tá pago.”
O autor marfinense faz recortes específicos na comunidade africana presente na Europa. Mas sua escrita ecoa tanto em experiências de imigração anteriores quanto no hoje, quando movimentos migratórios seguem em expansão, numa sintomática crise de refugiados.
O autor observa as mudanças – ora sutis, ora nem tanto – na recepção francesa aos imigrantes africanos da segunda metade do século XX ao início do XXI. De mão de obra barata à ameaça ao mercado de trabalho dos “verdadeiros” cidadãos do país. O ataque de 11 de setembro de 2001 às Torres Gêmeas, por exemplo, é outro período de virada observado por GauZ. Dessa forma, ele observa um aumento exponencial do discurso xenofóbico em momentos de crise – uma xenofobia que nem sempre é capaz de se disfarçar de civilidade.
“Uma dessas ideias era que a quantidade de estrangeiros estava crescendo demais na França. Na Crise, eles estavam roubando o trabalho dos verdadeiros franceses, além de estarem tirando deles o chão em que se banham e o pão que abocanham.”
De escrita ritmada e com um humor ácido e cortante, GauZ faz um retrato vívido da condição do imigrante. Analisando, assim, tanto a precariedade, quanto do apoio entre pares, na ameaça de deportação, nas expectativas de futuro e num presente que se impõe entre subempregos e precárias moradias. “Eram todos aqueles a quem o sistema explorava, mantendo-os vivos apenas o suficiente para trabalharem e consumirem sem reclamar”.
O escritor também tem um olhar afiado para o capitalismo e a sociedade do consumo, desenhando, assim, toda uma verdadeira fauna de consumidores desenfreados que circulam pela Champs-Élysées – atentamente observados por estes seguranças invisíveis.

“De pé, tá pago” faz, enfim, um verdadeiro apanhado da existência negra e africana na Europa, olhando para as heranças de um colonialismo que insiste em deixar rastros – mesmo onde fingem que ele nunca existiu – e para um fluxo migratório que segue em constante evolução ao longo da história. Em suma, uma crônica vibrante da diáspora africana, do trabalho e da sobrevivência. E de um racismo estrutural que se atualiza e insiste em colocar uns para vigiar enquanto outros consomem.
Encontre “De pé, tá pago” aqui.
Gabriel Pinheiro é jornalista e crítico de literatura. Escreve aqui no Culturadoria e também em seu Instagram: @tgpgabriel
Publicado por tgpgabriel
Publicado em 02/09/25