Literatura
Édouard Louis investiga relação com irmão em “O desabamento”
Novo livro do escritor francês sensação da última Flip, é novo capítulo em projeto literário que mergulha no íntimo familiar.
Édouard Louis (Foto de Joel Saget)
Literatura
Novo livro do escritor francês sensação da última Flip, é novo capítulo em projeto literário que mergulha no íntimo familiar.
Édouard Louis (Foto de Joel Saget)
Por Gabriel Pinheiro | Colunista de Literatura
“Não senti nada quando soube que meu irmão tinha morrido; nem tristeza, nem desespero, nem alegria, nem prazer” diz Édouard Louis logo nas primeiras linhas de seu novo romance, numa honestidade brutal – uma das marcas de sua literatura. Ambos não se encontravam havia quase uma década, ele ressalta. “Não queria mais vê-lo”. Depois de se debruçar sobre o pai e a mãe em livros anteriores, o escritor francês mergulha agora na trágica história do irmão mais velho, numa investigação que, assim como nas demais obras, nunca diz só sobre o outro. Na verdade, muitas vezes, diz mais sobre si mesmo. “O desabamento” é um lançamento da Todavia Livros, com tradução de Marília Scalzo, enviado em edição especial para os assinantes do clube TAG Curadoria.
“O desabamento” tem início no tempo presente. No imediato da morte. Uma ligação da mãe: “Ela disse que o hospital ia desligar os aparelhos”. O corpo do irmão havia sido encontrado pela companheira desabado no chão do apartamento onde morava, inconsciente. “Ele estava morto, mas ela era a única que tinha o direito de deixá-lo morrer. Ele tinha trinta e oito anos”. Louis repete essa frase algumas vezes. A cada uma delas, uma nova camada de peso parece sedimentar sobre cada palavra.
Entre presente e passado, Édouard registra os primeiros trâmites familiares acerca da morte, em companhia da mãe e da irmã, e dá início a um exame dos motivos que levaram o irmão à se tornar um ser basicamente irreconhecível – tanto em comportamento, quanto fisicamente – em decorrência do alcoolismo e de uma depressão profunda. “Eu bebi para me libertar e o álcool se tornou minha prisão”, confessou ele à mãe pouco antes de morrer.
Louis resgata, assim, a infância do irmão, abandonado pelo pai biológico e criado pela mãe e por um padrasto distante – o pai de Édouard. É nesse abandono precoce e na dinâmica familiar fraturada que, acredita, tem início a Ferida – como ele chama o longo processo de auto-aniquilação, consciente ou não, do falecido irmão. “Ele tinha sido abandonado desde a infância, toda a sua história era a história de um longo abandono.”
Se a honestidade sem meias palavras é uma das marcas do trabalho do escritor francês, outra é a análise incisiva de todo um cenário político, social e cultural. Nesse sentido, Édouard Louis olha tanto para a intimidade familiar, quanto para um contexto mais amplo de sociedade e de país. Em suma, uma dinâmica é diretamente dependente da outra.
Questões como a violência – tanto física, quanto verbal –, o vício, o machismo e a homofobia que marcam não apenas a existência do irmão e o cotidiano familiar de Louis, mas também as relações na comunidade na qual sua família se vê inserida no interior da França, são fortemente influenciadas e aprofundadas por uma desigualdade social que parece, na grande maioria das vezes, insolúvel. “Há dias em que a Injustiça me parece nada mais do que a diferença de acesso ao erro, a Injustiça me parece nada mais do que a diferença de acesso às tentativas, sejam elas fracassadas ou exitosas, e fico tão triste, tão triste.”
Num trabalho de investigação quase jornalística, Louis entrevista uma série de personagens, especialmente ex-companheiras do irmão, para tentar dar forma à figura fraturada daquele que tornara-se um desconhecido. Nesse sentido, se vê de frente a um quebra-cabeça repleto de peças faltantes, especialmente a partir de sua última década de vida.
Nesse processo, Édouard e o leitor encontram uma figura muito mais complexa e repleta de nuances do que sua morte parece, de início, nos dizer. O escritor, assim, se vê obrigado a enfrentar diferentes fantasmas, sendo um deles o afeto. “Meu irmãozinho é a minha vingança” , declarou um dia o irmão de Édouard Louis. “O desabamento” é, enfim, mais um capítulo singular de um projeto literário honesto, corajoso e, inevitavelmente, doloroso. “Família é assim: primeiro ela te expulsa e depois te critica por fugir.”

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Gabriel Pinheiro é jornalista e crítico de literatura. Escreve aqui no Culturadoria e também em seu Instagram: @tgpgabriel
Publicado por Gabriel Pinheiro
Publicado em 22/07/25