Cinema

O que torna “Como Treinar o Seu Dragão” uma história tão poderosa até hoje?

Live action entende exatamente o lugar de onde vem e tem consciência daquilo que não se pode perder pelo caminho. 

Como treinar seu dragão. Foto: Dreamworks/Divulga

Há filmes que não apenas contam histórias, mas se instalam no imaginário coletivo com raízes profundas. Como Treinar o Seu Dragão, lançado originalmente em animação em 2010, é um desses. Ao ganhar a primeira versão em live-action em 2025, carrega não apenas a expectativa de uma nova estética, mas o peso da memória de toda uma geração. O resultado? Um filme que entende exatamente o lugar de onde vem e tem consciência daquilo que não se pode perder pelo caminho. 

Dirigido novamente por Dean DeBlois, o mesmo cineasta responsável pela trilogia animada, o novo longa é, então, um exercício de transposição estética. E isso já seria o bastante para justificar sua existência: é raro ver um diretor revisitar sua própria obra com outros instrumentos e, ainda assim, alcançar a mesma densidade emocional. 

Surpresa no elenco

Mason Thames é o Soluço. E essa afirmação não é uma metáfora. O jovem ator de 17 anos é um dos destaques do longa. Ele entrega não só semelhança física com o personagem animado. Há algo mais raro no trabalho de Thames: uma precisão emocional.

O olhar hesita quando precisa hesitar. A respiração acompanha o ritmo dos conflitos internos. O corpo expressa timidez, dúvida e coragem com igual potência. Thames não interpreta um herói. Ele vive um garoto que ainda não sabe o que e quem é.

Essa entrega exige mais do que técnica. Exige escuta. Thames escuta a história original, a construção do personagem animado e traduz isso em carne. Nada nele parece artificial. Nem mesmo nas cenas mais difíceis, como os vôos simulados em cima de gimbals articulados e o dorso mecânico de um dragão.

A equipe técnica queria que ele se sentisse mesmo montando uma criatura viva. Criaram estruturas móveis, manipulações por marionetistas e simulações de vento para garantir que cada tomada fosse sensorial. O ator reagiu a tudo isso com presença. Não parece teatro. Parece verdade.

Tecnologia a serviço da emoção

Assim, os efeitos visuais de Como Treinar seu Dragão são impressionantes. Mas não se impõem sobre a história. Isso, por exemplo, é mérito da direção. Os dragões têm textura, sombra e volume. Banguela, em especial, mantém a expressividade no olhar, nos gestos, nos movimentos. 

A fidelidade visual estende-se às cenas de voo. Elas, então, são coerentes com a lógica emocional do filme. Voar, aqui, é metáfora de liberdade. E o espectador sente isso porque o realismo não está só na imagem, mas na construção sensível das situações.

Dean DeBlois não quis fazer um espetáculo vazio. Ou seja, o filme é bonito porque é sóbrio. Ele entende que o mais importante já estava na animação: o afeto. A amizade entre um menino e um dragão. A jornada de um filho em busca de aceitação.

Temas que permanecem vivos

A história continua a mesma. E isso é ótimo. Assim, Soluço é um jovem viking que vive na ilha de Berk, onde todos acreditam que os dragões são inimigos. Ele pensa diferente. Por que matar o que não se conhece?

Essa pergunta move o enredo. E abre espaço para reflexões. O filme fala de guerra e paz. De masculinidades rígidas. De coragem sensível. No início, Soluço quer ser aceito pelo pai. Mas aprende que a verdadeira aceitação só vem quando se assume como é.

É nessa virada que a trama se fortalece. Ela permanece atual porque fala de algo essencial: crescer é encontrar a própria voz. E Soluço encontra a dele quando para de repetir o que os outros esperam.

A fidelidade ao roteiro original não engessa o filme. Pelo contrário. Dá a ele um lastro emocional que torna cada cena mais significativa. Ao escolher não alterar o que já era bom, a produção faz uma homenagem sincera à animação.

Maturidade e respeito ao público

Como Treinar o Seu Dragão em live-action não tenta ser maior. Em resumo: tenta ser fiel. E isso exige coragem. É um filme que se recusa ao excesso.

É dirigido com firmeza. Atuado com profundidade. Construído com tecnologia de ponta que serve à emoção, não ao espetáculo. E, sobretudo, é um filme que confia no que já emocionou. E reencontra essa emoção com um olhar mais maduro.

Não é sobre voar mais alto. É sobre voar com sentido.

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Publicado por Carol Braga

Publicado em 12/06/25

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