Literatura
“Quimera” e “Mostra Monstra”: Prisca Agustoni e Angélica Freitas abrem o calendário de publicações do Círculo de Poemas em 2025
Angélica Freitas e Prisca Agustoni Fotos Bianca de Sá e Prisca Agustoni
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Angélica Freitas e Prisca Agustoni Fotos Bianca de Sá e Prisca Agustoni
“Quimera” e “Mostra Monstra” são trabalhos inéditos das poetas que chegam juntos para assinantes do clube e serão lançados em breve nas livrarias
Gabriel Pinheiro | Colunista de Literatura
O Círculo de Poemas, clube de livros dedicado à poesia criado pela Fósforo Editora, abre sua programação de 2025 com duas das principais poetas da cena brasileira contemporânea: Prisca Agustoni e Angélica Freitas, que lançam, respectivamente, os trabalhos inéditos “Quimera” e “Mostra Monstra”.
Nos primeiros versos de seu novo livro, a poeta Prisca Agustoni nos convida a “verdejar o mundo/ nem que seja na linguagem”. “Quimera” apresenta um conjunto de poemas que colocam em prática este gesto. Pela escrita poética, Agustoni constrói uma espécie de corpo-floresta, que reaproxima humanidade e natureza, consciência e instinto.
“é disso que se trata:
fazer do corpo
colmeia e mangue,
geometria de folhas
e ardências,
ser água, fogo
e deserto,
seiva, semente
e fogueira
corpo-floresta
inflorescência.”
Na mitologia grega, a Quimera seria um monstro, uma besta com a cabeça de leão, corpo de cabra e cauda de serpente, que soltava fogo pelas narinas. O mito aqui deixa seu suposto aspecto monstruoso, de ameaça. Tubarão, orca, baleia, morcego e gato, diferentes animais formam esse ser-poema-quimera proposto por Prisca Agustoni.
“A escrita me amplia, oxigena as palavras, dilata os tempos e/ aos poucos se torna uma paisagem outras, mais habitável –/ uma floresta que invade tudo — dentro e fora de mim. // (…) // é preciso matar o monstro/ até me tornar um deles”.
O ser-selvagem em “Quimera” é uma resposta à necessidade humana do controle e da catalogação. Na poesia reside também a imprevisibilidade do comportamento das orcas, cujos ataques são insistentemente estudados por cientistas, que buscam antecipá-los:
“mas/ como num poema/ o difícil é prever// o que não é/ nem nunca será/ fórmula vazia,”.
Reaproximar homem e natureza é entender nosso lugar no mundo, é entender nossa pequenez, nossa diminuta fração de importância frente a um universo, a um cosmos que nos ultrapassa tanto em tempo quanto em espaço.
“toda palavra revela/ nosso desejo antigo/ de nomear o mistério// na incansável reprise/ do humano que cogita/ dominar as estrelas// mas é vencido/ pelo diminuto ferrão/ de uma abelha/ sob a pele”. Somos pontos infinitesimais, Prisca relembra.
Numa escrita que é cultivo, as páginas de “Quimera” são como terra, espaço de plantação, de germinação e de colheita poética. Mas a poeta nos faz uma pergunta fundamental: “como abrir em flor a escrita/ quando ao redor a matéria é estéril?”. A resposta talvez esteja na semente que este seu novo livro parece plantar, neste gesto de escuta e atenção ao verde — e a todas as outras cores que se escondem e se camuflam ali no verdume. “é como se através dessas brechas/ pudesse ver o mundo/ como é visto pelas plantas”.
Angélica Freitas sabe, como ninguém, pôr em diálogo o erudito e o popular na poesia brasileira contemporânea, arrancando risos abertos – e alguns de incômodo, quando toca na ferida – ao mergulharmos em seus versos de olhar tão perspicaz.
“olhe nos meus olhos
e diga a mentira
não quero saber
da realidade,
só da fantasia
páginas e páginas
de elaboradas cascatas
um enredo artificial
mas cremoso
pra eu mesma depois
sonhar salivando”
“Mostra Monstra” coleta uma série de poemas e desenhos que a artista retira de seu caderno de rascunhos. De versos e traços livres, Angélica dá forma a monstras – e monstros – pouco assustadores, mas que, num olhar mais atento, podem nos dizer mais do que um simples “BUH”.
Entre o catálogo de “monstruosidades” da plaquete estão “o fantasma de suas calcinhas velhas”, “o cocô de rita hayworth”, um senhor inoportuno que aparece dentro de gavetas e do vaso sanitário e “as tetas preocupadas com os problemas do mundo”, estas que, ainda que seduzam seus vizinhos, são o motivo para que eles votem na direita.
Em “Mostra Monstra” também reside o amor em tempos de aquecimento global: “passadas as ondas/ de calor extremo/ te espero com um sorriso/ e uma flor”. Uma leitura deliciosa de uma das vozes mais originais da nossa literatura.
Encontre “Mostra Monstra” aqui.
Gabriel Pinheiro é jornalista e produtor cultural. Escreve sobre literatura aqui no Culturadoria e também em seu Instagram: @tgpgabriel (https://www.instagram.com/tgpgabriel)
Publicado por Equipe Culturadoria
Publicado em 12/02/25