Cinema

Cinco razões que fazem de ‘Ainda estou aqui’ um filme arrebatador

Ainda estou aqui chega aos cinemas brasileiros no dia 07 de novembro enquanto continua firme na campanha por uma vaga ao Oscar 2025

Por Carol Braga

Ainda estou aqui, o filme do diretor Walter Salles, é o tipo de longa que paralisa o espectador assim que a projeção acaba. Bom, pelo menos foi assim comigo. Demorei um pouco para conseguir levantar, sair do cinema. Ou seja, ele me gerou sensações físicas. Um peso. Uma tristeza. Muitas reflexões. E, além disso, indignações. Como pode, gente?

O diretor Walter Salles tem dito em entrevistas que “um país sem memória é um país sem presente e sem futuro”. Ainda estou aqui é – de maneira muito coerente – uma contribuição concreta do cineasta no registro da história brasileira como ela deve ser. Verdadeira, crua, dolorida, vergonhosa. Mas, como elegância é algo que o acompanha ao longo da carreira, Salles consegue narrar atrocidades, por incrível que pareça, com delicadeza.

Sim, “delicado” é um adjetivo que nada tem a ver com os absurdos cometidos pelo regime militar e apresentados no longa. No entanto, tal qual Walter Salles, Eunice Paiva (Fernanda Torres e Fernanda Montenegro) também era uma mulher elegante, delicada e forte. Então, é a partir dessas e outras características da protagonista que o diretor puxa o fio da história, convida o mundo a conhecer o passado atroz do Brasil por meio da violência sofrida pela família dela. 

O roteiro de Ainda estou aqui, assinado por Murilo Hauser e Heitor Lorega, foi premiado no Festival de Veneza. Ele é inspirado no livro homônimo de Marcelo Rubens Paiva, filho de Eunice e Rubens, portanto, testemunha ocular dessa história. 

Confira, a seguir, cinco características que contribuem para que Ainda estou aqui seja tão arrebatador:

A abordagem da temática

Ainda estou aqui começa no Rio de Janeiro de 1970. A mulher e os cinco filhos do ex-deputado e engenheiro Rubens Paiva (Selton Mello) têm uma vida comum – e feliz – para o padrão classe média carioca daquela época. Seria tudo normal se não fosse o terrível período histórico que aquelas pessoas atravessavam.

No entanto, diferentemente de muitos filmes que contam episódios da ditadura, o longa segue um caminho distinto. Não panfleta, não dá aula, mas conduz reflexões. E isso é tão necessário em um tempo em que constantemente precisamos lembrar a nós mesmos e aos outros o quanto a democracia no mundo ainda é frágil.

A Humanização da História

A primeira parte do filme, onde é narrada a intimidade da família no Rio de Janeiro, é necessária para gerar conexão. É a partir da empatia estabelecida que o horror ganha contornos cruéis, inexplicáveis, absurdos. Tudo isso sem ser óbvio, sem mostrar ou legendar algo que está dado. Ao focar na vida de Rubens Paiva e sua família, Salles consegue conectar o público com as consequências do regime de forma pessoal e comovente.

O diretor Walter Salles. Foto Alile Dara Onawale/Divulgação
O diretor Walter Salles. Foto Alile Dara Onawale/Divulgação

Impressionismo de Walter Salles 

Fernanda Torres tem dito em muitas entrevistas o quanto considera o resultado de “Ainda estou aqui” fruto de escolhas impressionistas de Walter Salles. Ela tem toda razão. O movimento impressionista na pintura buscava capturar a luz e o movimento de forma instantânea, valorizando as sensações e as impressões visuais dos artistas. No filme, por exemplo, ele também prioriza a perspectiva subjetiva dos personagens. Ou seja, explora sentimentos, memórias e percepções. As interpretações ficam por nossa conta. Assim como as angústias compartilhadas.

Além disso, aspectos técnicos como a fotografia, a minuciosa direção de arte também contribuem fortemente não só para criar atmosferas mas principalmente transmitir emoções. Pintores impressionistas como Monet, por exemplo, também faziam assim. 

Deste modo, o filme estimula os sentidos do espectador, sem apelar para nenhum recurso tradicional, como trilha sonora, por exemplo. Como é direto, consegue criar uma experiência sensorial intensa.

Interpretação

Todo filme é uma engrenagem que precisa funcionar no todo. Ainda estou aqui, não alcançaria a potência que tem se não houvesse o equilíbrio encontrado no elenco. Não tem um olhar, uma respiração, uma lágrima sobrando ou faltando.

Fernanda Torres, lógico, está fora da curva. Vê-la no registro dramático do modo como aparece em cena deixa claro o quanto a atriz mergulhou nos sentimentos da personagem, para além da aparência e da força dos fatos. 

O mesmo vale não só para Selton Mello como Rubens Paiva, mas também os intérpretes de cada filho: Valentina Herszage (Veroca), Bárbara Luz (Nalu), Luiza Kosovski (Eliana), Guilherme Silveira (Marcelo) e Cora Mora (Babiu). 

A química entre os atores e a profundidade com que eles encarnam cada personagem contribuem significativamente para a imersão do espectador na trama. E mais: o vazio na expressão de Fernanda Montenegro interpretando Eunice Paiva nos minutos finais vai ser uma das coisas mais fortes que você verá no cinema. 

Ainda Estou Aqui. Foto Alile Dara Onawale/Divulgação
Ainda Estou Aqui. Foto Alile Dara Onawale/Divulgação

Alerta para futuro do mundo

Ainda estou aqui não se limita a contar uma história individual, mas também reflete sobre a importância da memória e da história coletiva. Não tem como construir um futuro diferente sem ter conhecimento das realidades que constituíram nosso passado. Sem ser panfletário ou didático, o filme serve como um lembrete dos horrores do passado e da necessidade de manter viva a luta por justiça e democracia.

EM TEMPO: A atriz Bárbara Luz compartilhou com a gente um pouco do processo criativo dela para fazer Ainda estou aqui! Confira!

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Publicado por Carol Braga

Publicado em 06/11/24

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