Cinema

“Malu”, uma joia que aporta nas salas de cinema

Carol Duarte e Yara de Novaes em cena de "Malu" (Bubbles Project/TvZero/Filmes do Estação/Divulgação)

Filme de Pedro Freire em homenagem à mãe, a atriz Malu Rocha, traz desempenhos extraordinários calçados em ótimo roteiro

Patrícia Cassese | Editora Assistente

Em uma das entrevistas que concedeu no bojo do lançamento de “Malu”, que estreia nesta quinta-feira, 31 de outubro de 2024, nos cinemas do Brasil, após passagens marcantes em festivais de porte (sobre as quais falaremos mais adiante); a atriz Yara de Novaes descreve a personagem-título, à qual brilhantemente incorpora, por meio de um substantivo tão interessante quanto apropriado: a desmesura. Ou seja, no sentido figurado da palavra, “que revela intensidade ou grandeza acima do comum, desmedida”. Visceral.

Viés biográfico

A palavra cai como uma luva para o recorte da vida da atriz Malu Rocha (1947-2013) levado à telona pelo filho dela, o diretor e roteirista Pedro Freire – que, aqui, estreia no formato longa-metragem, após várias experiências bem sucedidas em curtas. A transposição deste período de vida da intérprete paulista, vale esclarecer, contém algumas licenças poéticas. Caso da decisão de, no écran, a personagem ter apenas uma filha, Joana, vivida pela graça que é Carol Duarte.

Na vida real, Malu Rocha teve dois filhos – além do já citado Pedro Freire (filho do casamento da atriz com o colega de profissão Herson Capri), a atriz e roteirista Isadora Ferrite, fruto da relação com Zanoni Ferrite, também ator. O citado recorte temporal do filme “Malu” escolhido pelo roteirista e diretor tem início já próximo ao período próximo ao final da vida da atriz – ela faleceu aos 65 anos, por complicações em decorrência do Mal de Príon, uma doença neurodegenerativa. É já no curso da narrativa fílmica, aliás, que os primeiros sintomas vão se manifestando na personagem, assustando-a sobremaneira.

Idealista

O início do filme flagra Malu nos anos 1990, morando nos arredores do Rio de Janeiro, em uma casa que divide com a mãe, Dona Lili, incorporada por ninguém menos que Juliana Carneiro da Cunha, 75 anos (*). Naquele momento, o referido endereço de Malu e Dona Lili abriga, ainda, Tibira (Átila Bee), que, a convite da primeira, se instalou em um barracão anexo. No entanto, as condições precárias da moradia são notadamente um sério empecilho para a realização do grande sonho de vida de Malu naquele estágio de sua existência: o de construir, por lá, um centro cultural para os moradores do entorno, com a oferta de vários cursos, voltados também às crianças.

Choque de realidade

Ao conhecer o local, as feições de Joana, a filha de Malu, que acaba de chegar de Paris, não dão conta de disfarçar o choque. O caos, ali, é reinante. Um contraponto brutal ao local onde ela decide inicialmente se instalar no retorno ao Brasil, ou seja, a casa do pai. Há uma cena que ilustra bem esse estupor quando uma barata aparece à mesa, em meio à refeição que as três – Malu, Dona Lili e Joana – compartilham. Enquanto Joana grita e se levanta, enojada, Dona Lili e Malu reagem ao “evento” com a mais absoluta serenidade de quem convive cotidianamente com essa, digamos assim, intrusa.

Aliás, a sensação de estranhamento de Joana é intermitente, como quando a jovem está voltando para casa com a avó e essa, de súbito, sente vontade de fazer xixi. Por outro lado, pelo prisma do afeto, Joana não demora a se conectar com a realidade da vida das matriarcas, o que demonstra em pequenas atitudes, como a de se fazer valer de roupas confortáveis para ajudar Malu nas pequenas obras, manifestando entusiasmo ao menor avanço que seja. Ela também se conecta fácil a Tibira, ao contrário de Dona Lili, que não vê com bons olhos a presença do rapaz, por acreditar que ele forneça drogas à filha Malu.

Tensões

A relação das duas, diga-se, é marcada por tensões, que eclodem em vários momentos do filme, como o da visita de um padre, chamado por Dona Lili à casa, à revelia de Malu. E é em meio aos vários acontecimentos contemplados no arco temporal que o filme abarca que a tal característica da personagem central salientada pela própria Yara de Novaes, a “desmesura”, se espraia. Assim, Malu é absolutamente intensa e apaixonada, a ponto de se lançar sem redes no espaço, a fim de alcançar seus objetivos. Desse modo, ignorando solenemente eventuais pedras no caminho, sempre fiel a seus ideais.

Ela não se curva às adversidades, é combativa, teimosa. A visceralidade, contudo, faz com que constantemente Malu cruze a tênue linha do script que rege o trato social – no caso, junto às pessoas que mais ama, a mãe e a única filha -, incorrendo em atitudes extremas. A intensidade é tal que, por mais de um momento, o espectador provavelmente vai discordar das decisões drásticas tomadas por Malu – que sim, têm um quê de autodestrutivas. Ao mesmo tempo, é impossível não se apaixonar por ela, não admirá-la, não querer que não sofra, não acolhé-la.

Malu mulher

Na première do filme em Belo Horizonte, realizada no Cine Belas Artes, Yara de Novaes falou, à editora Carol Braga, do Culturadoria, que, se após assistir ao filme, ao menos uma pessoa fosse ao Google procurar pelo nome Malu Rocha, para saber mais da vida tão rica dessa atriz que partiu tão cedo, o propósito do filme já teria sido atingindo. Certamente, serão vários, os interessados em saber mais sobre Malu. E, nesse sentido, os méritos começam pelo roteiro e direção do filme, calços mais que importantes. Daí, atingem o pico com as interpretações das três atrizes. O que, aliás, de maneira alguma é uma surpresa.

Juliana Carneiro da Cunha é um nome icônico das artes cênicas. Nunca é demais lembrar que a atriz – que desde 1989 vive na França – marcou presença em montagens antológicas no Brasil, como “As Lágrimas Amargas de Petra Von Kant”. Encenada no início dos anos 1980, sob a direção por Celso Nunes, a partir do texto de Rainer Fassbinder, a montagem tinha Fernanda Montenegro como protagonista. Ao cruzar o Atlântico, Juliana fincou carreira no Théâtre du Soleil, dirigido por Ariane Mnouchkine, sua esposa.

Carol Duarte

Quanto a Carol Duarte, o talento da atriz, que hoje tem 33 anos, espraiou-se já em sua primeira incursão no cinema, com “A Vida Invisivel” (2019), de Karim Aïnouz. Antes, ela já havia dado o ar da graça na novela global “A Força do Querer” (2017), de Glória Perez. No ano passado, Carol Duarte esteve em Belo Horizonte com a peça teatral “Babilônia Tropical – A Nostalgia do Açúcar”, que cumpriu temporada no CCBB BH. No cinema, também marcou presença em “La Chimera”, produção internacional dirigida por Alice Rohrwacher. Nela, Carol contracenou com atores como o britânico Josh O’Connor e a ítalo-americana Isabella Rossellini, assim como com Alba Rohrwacher. Infelizmente, por ora, o filme não está disponível em nenhuma plataforma.

Yara de Novaes

Yara de Novaes, ao menos para nós, mineiros, dispensa apresentações. Notável talento das artes cênicas, ela saudou, na conversa com o público que sucedeu a exibição do filme “Malu”, na première do Una Belas Artes, suas primeiras incursões no cinema – lembrando que está no elenco de “Zé”, de Rafael Conde, exibido recentemente nos cinemas, brilhando, como Yedda, a mãe do personagem central. A produção revisita a militância de José Carlos da Mata Machado, líder do Movimento Estudantil Brasileiro, e assassinado em 1973. A parceria com Conde, aliás, é uma constante em sua trajetória.

Em “Malu”, de fato Yara dá um passo grande na sua trajetória no campo do cinema, com uma atuação potente e à altura da personalidade singular da personagem. Se o roteiro traz cenas inquestionavelmente difíceis, Yara de Novaes dá conta do recado de maneira avassaladora, marcante, inesquecível. Ainda que o próprio diretor admita que não foi a primeira atriz pensada para envergar o papel, após assistir ao filme, fica difícil pensar em outra intérprete. Bem, pesquisamos no Google e chegamos a um nome, que seria o da escolha inicial do diretor. E que, salientamos, é o de uma atriz tal qual primorosa, fabulosa, mas que teve que desistir do projeto por conta de uma questão pessoal.

Fato é que é tão escancarado o talento das três atrizes que compõem os pilares de “Malu” que o trio foi agraciado no Festival do Rio (leia abaixo)

Carreira Internacional

“Malu” estreou mundialmente na World Cinema Dramatic Competition, mostra competitiva do Festival de Sundance. Também foi exibido no New Directors New Films, do Festival de Cinema do Lincoln Center em Nova Iorque. No Brasil, entrou para a mostra competitiva da Première Brasil da 26ª edição do Festival do Rio. Nela, arrebanhou prêmios em quatro categorias, de onde vieram cinco Troféus Redentor. Primeiramente, Melhor Longa-Metragem de Ficção, dividido com “Baby”, de Marcelo Caetano. Tal qual, Melhor Roteiro, para Pedro Freire.

Já Yara de Novaes arrebatou o prêmio de Melhor Atriz, sendo o troféu de Atriz Coadjuvante dividido – merecidamente – por Carol Duarte e Juliana Carneiro da Cunha. Ah, sim. O longa “Malu” também foi selecionado para a Mostra Brasil da 48ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo.

Rota de festivais

Atualmente, o histórico de “Malu” já registra uma vasta passagem por festivais. Entre os quais, e para além do Sundance e do New Directors New Films, o Hong Kong International Film Festival. Ou o San Diego Latino Film Festival (EUA). Tal qual, o Sundance CDMX (México). E, ainda, na Europa, o Mediterranean Film Festival Split (Croácia) e Galway Film Fleadh (Irlanda). Não bastasse, o Durban IFF (África do Sul) e o Melbourne IFF (Austrália).

Até o final do ano, “Malu” estará em nada menos que cinco festivais nos Estados Unidos. A começar, no New York Latino Film Festival, bem como no Port Townsend IFF. Somam-se, a esses, o AFI Latin American Film Festival, o Mill Valley Film Festival e o Denver IFF. O longa também vai competir internacionalmente no Cairo IFF, no Egito.  Confira, abaixo, o trailer

Serviço

“Malu”

Sessões em BH
Una Belas Artes (Rua Gonçalves Dias, 1581, Lourdes): 17h
Cineart Shopping Cidade (Rua Rio de Janeiro, 910, Centro): 16h30, 18h40 e 20h50.

Cineart Ponteio (Rodovia BR 356, nº 2.500): 17h10

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Publicado por Carol Braga

Publicado em 31/10/24

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