Literatura

“Água turva” é uma potente ficção de denúncia.

Morgana Kretzmann - FOTO Fernando Rabelo

“Água turva” é o novo romance da ganhadora do Prêmio São Paulo de Literatura, Morgana Kretzmann, publicado pela Companhia das Letras.

Por Gabriel Pinheiro | Colunista de Literatura

Localizado na fronteira entre o Rio Grande do Sul com a Argentina, o Parque Estadual do Turvo corre o risco de desaparecer, caso a construção de uma hidrelétrica seja autorizada. Uma série de interesses políticos e financeiros estão em jogo, num tabuleiro movediço e intrincado, cujo resultado poderá alterar de maneira definitiva a vida de uma comunidade e da natureza que a circunda. “Água turva” é o novo romance da ganhadora do Prêmio São Paulo de Literatura, Morgana Kretzmann, publicado pela Companhia das Letras.

Três mulheres entrincheiradas 

Das muitas peças postas em jogo por Morgana, três mulheres, conectadas por um passado que insiste em assombrar o presente, são essenciais para a construção narrativa do romance. Olga, Preta e Chaya. Ódio, mágoa e arrependimento marcam o reencontro das três personagens na cidade fronteiriça. Aparentemente estáveis, tais fronteiras acabam se mostrando maleáveis, colocando cada uma delas tanto em lados opostos, quanto lado a lado numa mesma trincheira. 

Morgana faz um dedicado desenvolvimento das personagens, evitando dicotomias e apostando na complexidade de suas ações e intenções. Partindo do passado em direção ao presente, pouco a pouco descobrimos uma série de eventos que marcam suas histórias, levando-as inevitavelmente em direção aos conflitos do hoje. “Ela saca a arma. O adolescente não larga a pedra. Os segundos passam, até que Chaya se deixa atingir pelo impacto daquele olhar, daquela cena, a sensação de recusa em normalizar a barbárie da qual ela faz parte, o impacto do preço da palavra não dita, da ação já feita.”

Ficção de denúncia

Caminhando entre a literatura e a reportagem, numa construção que também se aproxima muito do audiovisual – Morgana é roteirista, uma marca evidente na cadência de seu texto e no desenho de cada cena – “Água turva” grita o real. Seus personagens – entre políticos corruptos e ambientalistas no limiar dos confrontos – e sua trama parecem saídos dos noticiários, numa costura que deixa claro o poder da ficção como denúncia. Entre propinas, o rugido da onça e golpes de facão, “Água turva” é um thriller ambientalista poderoso e urgente.  “Por conta dos novos cortes no orçamento, os dois tiveram que comprar seus próprios coletes à prova de balas. Coletes usados, vindos do outro lado do rio Uruguai, de Moconá, na Argentina. Ouvem o som de um tiro seco.”

Encontre “Água turva” aqui

Gabriel Pinheiro é jornalista e produtor cultural. Escreve sobre literatura aqui no Culturadoria e também em seu Instagram: @tgpgabriel (https://www.instagram.com/tgpgabriel)

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Publicado por Carol Braga

Publicado em 21/05/24

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