Teatro
“Portátil”, espetáculo do Porta dos Fundos, chega a BH
Portátil. Foto: Raquel Pelicano/Divulgação
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Portátil. Foto: Raquel Pelicano/Divulgação
Em entrevista ao Culturadoria, Gregório Duvivier, escritor e ator do elenco de “Portátil”, fala sobre os desafios do improviso
Por Helena Tomaz | Assistente de Conteúdo
Bastam algumas informações de uma anedota familiar ou, ainda, de uma aventura de viagem e pronto: quem está na plateia do espetáculo “Portátil” pode, de repente, ter a chance de ver a história que vivenciou sendo recriada no palco, sem ensaio prévio. É que a proposta da montagem é gerar no calor do momento a narrativa que será apresentada a cada sessão – ou seja, na base do improviso. O princípio é se apropriar de uma história contada por algum voluntário do público, com as informações sendo fornecidas ali, na hora.
Com um elenco que traz integrantes do Porta dos Fundos – no caso, Gregório Duvivier, João Vicente de Castro e Luciana Paes -, além da presença do músico Andres Giraldo, e com direção de Bárbara Duvivier, a peça preserva o humor característico do conhecido grupo de humor. Porém, apresenta um formato alternativo às esquetes que tornaram o coletivo conhecido em todo o país. O público belo-horizontino poderá conferir o resultado no próximo dia 24, quando “Portátil” finalmente chega à capital mineira. O espetáculo vai ocupar o palco do Sesc Palladium, com ingressos a partir de R$ 45 (meia-entrada).
Em entrevista ao Culturadoria, o ator e escritor Gregório Duvivier falou sobre os oito anos em que a peça está em cartaz e sobre os desafios de trabalhar com o improviso.
A gente está com a peça desde 2015, na verdade. Lá se vão oito anos! De lá para cá, pouca coisa mudou na estrutura. Assim, a gente praticamente tem uma estrutura que é a mesma desde o começo, e que é um achado da nossa diretora, a Bárbara Duvivier.
Dentro dessa estrutura, eu acho que hoje existe mais química entre a gente, mas também (temos) alguns macetes, algumas brincadeiras recorrentes. Acho que estamos nos comunicando cada vez melhor. Talvez essa seja a grande diferença. Quando assisto às apresentações “de antigamente”, as (que foram) filmadas, eu vejo que, hoje, estamos mais “azeitados”. Fora isso, é a mesma estrutura! E, claro, a cada apresentação, a peça muda radicalmente!
O improviso continua (sendo) um desafio. A gente já faz [a peça] há oito anos, mas não ficou fácil. Pelo contrário: acho que a dificuldade aumenta, porque a gente cresceu em tamanho. A gente vai fazer, por exemplo, [uma apresentação] na Concha Acústica [do teatro Castro Alves, em Salvador]. E lá cabem cinco mil pessoas. Então, o medo, o desafio, a adrenalina, continuam enormes, e acho que é por isso que a gente faz. A gente gosta disso.
Na verdade, em vez de ensaiar, a gente treina. Sim, é esse o termo que a gente usa. Igual o pessoal que malha, que faz um treino. A gente se encontra e passa jogos e exercícios que aumentam a nossa rapidez mental, a nossa disponibilidade para o desconhecido. Tem vários jogos de improvisação que são muito bons para isso. Então, em vez de ensaio, é mais um treino.
A gente tem tido reações muito boas, o público, em geral, sai bem surpreso. Tem um comentário que sempre fazem, que, aliás, é o melhor comentário que a gente pode ouvir, que é: “Eu não acredito que isso era improviso”. Essa é a melhor coisa que a gente pode escutar, quando a pessoa não acredita que a gente fez na hora. E isso acontece sempre. É muito bom, a gente fica muito feliz, mas, ao mesmo tempo, tem que acreditar, porque é óbvio que é feito na hora. Quem viu várias vezes sabe que é completamente diferente. O público fica bem surpreso e é isso que a gente mais gosta. Quando o público não espera o que vai ver, é sempre surpreendente. Para o público e para a gente, também.
Portugal recebe a gente muito bem, toda vez, é uma delícia ir para lá. Lá, a gente encontrou um público muito fiel e muito caloroso. E, curiosamente, a peça é parecida no Brasil e em Portugal, porque Portugal conhece muito bem o Brasil, conhece muito bem o Porta [dos Fundos], conhece muito bem a nossa maneira de falar português e acha muita graça nela. Então, é muito gostoso fazer lá também por isso: a gente se sente em casa.
A gente não faz uma peça para o público português. É diferente porque é diferente a cada apresentação. E, também, porque a gente faz a partir de uma sugestão da plateia, mas não por que é adaptada para eles. Porque, como disse, eles conhecem a gente muito bem. E, na verdade, gostam da gente por isso, pelo jeito que a gente é e que a gente fala. Assim, não precisa (fazer) nenhuma adaptação.
Eu sempre lembro bem da última apresentação, que a gente fez agora, em São Paulo. Foi bem bonito, porque tinha uma família toda de dentistas [na plateia]. Foi muito engraçado: todo mundo era dentista, só se falava de dentes, de cirurgia buco-maxilar, o tema era super específico. Ao mesmo tempo, foi bonito. Foi emocionante, porque foi uma homenagem a uma pessoa da plateia. O sonho dela era que o pai fosse forte para sempre. E o pai estava na plateia. Estava mais velhinho, e foi muito bonita a homenagem a ele. Volta e meia a gente se emociona, e essa é a parte que eu mais gosto, quando o espetáculo é emocionante. É uma comédia, é claro, tem muito humor, mas, às vezes, o humor encosta no drama, encosta na poesia, encosta em outros gêneros. E aí é quando eu fico mais feliz: quando a gente consegue passear pelos gêneros.
Publicado por Carol Braga
Publicado em 13/09/23