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Poesia brasileira contemporânea e autores clássicos do gênero em destaque na Global Editora

Sérgio Vaz (Crédito Jairo Goldflus) - Plablo Neruda (Crédito Keystone-Hulton Archive) - Fernando Pessoa (Domínio público)

Editora, que celebra 50 anos, apresenta novo livro de Sérgio Vaz e edições especiais de Fernando Pessoa e Pablo Neruda, dando destaque à poesia

Por Gabriel Pinheiro | Colunista de Literatura

Flores da Batalha, de Sérgio Vaz

Fundador da Cooperifa, Sérgio Vaz completou 35 anos de atuação no campo da poesia, dedicado à transformar em versos a experiência da periferia brasileira – tão múltipla e diversa dentro de um país de proporções continentais como o Brasil, mas permeada por diferentes pontos de contato em suas regiões. O Sarau da Cooperifa é um dos campos mais férteis da produção e do compartilhamento da poesia em São Paulo hoje, com encontros que reúnem cerca de 300 pessoas por noite com o objetivo de, juntas, partilharem vivências traduzidas a partir da escrita poética. “Flores da batalha”, seu novo livro lançado pela Global Editora, com apresentação de Emicida, celebra estas mais de três décadas dedicadas ao ofício das letras.

Logo em um dos primeiros poemas do volume, num olhar pungente para a brutalidade do cotidiano periférico no país hoje, Sérgio Vaz nos deixa em suspenso, com versos que pegam de raspão nos olhos que lêem: “Executaram o menino/ que morava na rua debaixo/ com cinco tiros./ Um matou ele,/ o outro a mãe/ o terceiro o pai/ o quarto o irmão./ O quinto/ foi um recado,/ e pegou de raspão/ no bairro inteiro”. Sergio Vaz coloca sob a luz reveladora de um raio-x uma realidade que se esconde à olhos nus: apenas nos acomodamos, escolhemos não enxergá-la.

É a realidade da violência policial, da miséria, da insegurança alimentar e do medo. Se é cômodo viver na apatia, não enxergando os muitos brasis que coexistem – e co-resistem – neste país-projeto-falho-de-nação, em “Flores da batalha” o poeta nos rememora: “Na guerra/ dos simpáticos/ contra os antipáticos/ os apáticos não correm perigo./ Eles não lutam/ não sangram, não morrem,/ mas também não vivem”.

Olhar para si

Vaz nos diz da própria relação com a literatura desde a infância. Sobre se sentir esquisito por gostar de livros: “Achava que tinha um defeito de fabricação”. Até que encontrou Miguel de Cervantes e seu Cavaleiro da Triste Figura, Dom Quixote: “Descobri que era um sonhador e não tinha problema algum. Quem tinha um problema era o mundo”. O fazer poético é um dos temas mais frequentes no conjunto de textos deste novo livro. A poesia como forma de romper o silêncio, de botar pra fora aquilo que grita dentro, pois “A palavra que não foi,/ atormenta quando fica”. 

Os poemas de “Flores da batalha” são a lembrança de que, até mesmo das batalhas, nascem flores. Na verdade, sobretudo numa terra marcada por conflitos cotidianos, onde a luta é diária, as flores talvez cresçam com mais força, pontuadas por espinhos não para ferir, mas para proteger. Os versos de Sérgio Vaz rompem o concreto, buscam caminho nas fissuras de um cotidiano cinza e aprofundam suas raízes num solo fértil. De dores e dissabores? Sim, mas não só. Um solo onde germinam também a luta, a esperança, a alegria, o amor, o desejo e a resistência. 

Encontre “Flores da batalha” aqui.

Flores da Batalha de Sergio Vaz. Editora Global

“20 poemas de vida e um sino quebrado”, de Pablo Neruda

Vencedor do Prêmio Nobel de Literatura em 1971, Pablo Neruda foi um dos maiores nomes da poesia em língua espanhola em todo o mundo. Chileno, sua escrita ultrapassou fronteiras, mergulhando tanto no íntimo de sua própria história, quanto no universal, em acontecimentos definidores do século XX, como a Guerra Civil Espanhola. A coletânea “20 poemas de vida e um sino quebrado” chega pela Global Editora em edição bilíngue. Fazendo um apanhado especial na vasta obra do escritor chileno, os textos são apresentados no original, em espanhol, e traduzidos para o português em um trabalho primoroso do escritor e também poeta Affonso Romano de Sant’Anna.

“20 poemas de vida e um sino quebrado” propõe um itinerário íntimo pela própria biografia de Neruda. Divididos em três partes – Infância, Juventude e Maturidade – os poemas abarcam a trajetória do chileno desde o próprio nascer até o aproximar da morte. “Nascimento” abre o volume nos dizendo: “Um homem nasceu/ entre tantos/ que nasceram,/ viveu entre muitos homens/ que viveram,/ e isto não tem história/ só a terra, (…)”. Após nosso percurso pelo livro, quase em sua conclusão, Neruda reflete sobre a finitude em “Final”, dedicado à sua última companheira, Matilde Urrutia: “Foi tão belo viver/ quando vivias!// O mundo é mais azul e mais terrestre/ à noite, quando durmo/ enorme, dentro de tuas breves mãos”.

Poesia e política

Neruda é conhecido por sua carreira diplomática e pelo profundo teor político de parte de sua bibliografia. Em “Explico algumas coisas”, o chileno olha para o que um dia fora uma Espanha coberta pelas flores, pelos lilases e pelas papoulas, de um período pré-Guerra Civil e o que o país europeu se tornaria sob o domínio franquista com seu lema “¡Muerte al intelecto!”. “Perguntareis por que sua poesia/ não nos fala dos sonhos, das folhas,/ dos grandes vulcões de seu país natal?// Venham ver o sangue pelas ruas,/ venham ver/ o sangue pelas ruas,/ venham ver o sangue/ pelas ruas!”.

Muitos dos versos do volume nos dizem sobre primeiras experiências: a descoberta do amor e do desejo, o primeiro vislumbre da água espumosa do mar, a primeira viagem para outro país, para outro continente. “Quando saí aos mares fui infinito./ Era mais jovem eu que o mundo inteiro./ E na costa saía a receber-me/ o extenso sabor do universo.// Eu não sabia que existia o mundo”.

Propondo aproximações entre textos escritos ao longo de décadas de atuação dentro do campo poético, “20 poemas de vida e um sino quebrado” é um trabalho singular para os leitores e admiradores de Pablo Neruda, assim como para aqueles que, até então, não tiveram contato com sua poesia. Fica a certeza de que, no virar da última página, o leitor sentirá o desejo de conhecer mais e mais deste poeta tão singularmente humano.

Encontre “20 poemas de vida e um sino quebrado” aqui.

20 poemas de vida e um sino quebrado. Editora Global.

“Poesia Autónima”, de Fernando Pessoa

Outro grande nome da poesia mundial que ganha edição especial pela Global Editora é o português Fernando Pessoa. Famoso por seus expressivos heterônimos, que parecem gravar vida própria dentro da bibliografia do autor – como Alberto Caeiro, Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Bernardo Soares – o poeta chamou de “autónima” aquela poesia em seu próprio nome e personalidade. É esse registro que a pesquisadora Teresa Rita Lopes organiza em “Poesia Autónima”, cujo segundo volume acaba de ser lançado.

Colossal, este segundo volume traz, em 672 páginas, 789 textos escritos entre 1931 e 1935 – incluindo, também, um sem número de poemas não datados. No primeiro volume desta “Poesia Autónima”, publicado em 2021, a organizadora já havia apresentado um total de 581 textos poéticos em 608 páginas. Naquele volume estão registrados os poemas escritos entre 1902 e 1930.

Três décadas de construção

Juntos, os dois livros formam um panorama extenso da poesia de Pessoa. É interessante acompanhar a própria construção da voz do poeta ao longo de três décadas, da juventude até a maturidade. Dos poemas da “Juvenilia”, publicados entre 1902 e 1908, há um de devoção apaixonada àquela cujos olhos são contas escuras, como duas Ave-Marias: “Quando a dor me amargurar./ Quando sentir penas duras,/ Só me podem consolar/ Teus olhos, contas escuras”.  Em versos escritos no mês de sua morte, em novembro de 1935, ele olha com pesar para o recém-instaurado Estado Novo em seu país: “Meu pobre Portugal,/ Dóis-me o coração./ Teu mal é o meu mal/ Por imaginação.// (…) Meu pobre e magro povo/ A quem deram, às peças,/ Um fato em estado novo/ Para que o não parcelas”.

Os dois volumes de “Poesia Autónima” são um deleite para aqueles interessados na obra poética de Fernando Pessoa. O trabalho de pesquisa e organização reflete a dedicação de Teresa Rita Lopes, professora de Literaturas Comparadas na Universidade Nova de Lisboa, em Portugal. A pesquisadora tem uma vasta trajetória acadêmica focada no estudo deste que é o maior escritor português em toda a história.

Encontre “Poesia Autónima Vol. 1” aqui.

Encontre “Poesia Autónima Vol. 2” aqui.

Poesia Autónonima. Editora Global.

Gabriel Pinheiro é jornalista e produtor cultural. Escreve sobre literatura aqui no Culturadoria e também em seu Instagram: @tgpgabriel

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Publicado por Gabriel Pinheiro

Publicado em 17/07/23

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