Crítica | Todos caíram nas graças de Halle Bailey, a sereia negra
A atriz Halle Bailey, em cena de "Pequena sereia ". Foto por Courtesy of Disney - © Disney
A atriz Halle Bailey, em cena de "Pequena sereia ". Foto por Courtesy of Disney - © Disney
Ao protagonizar Ariel, na live action da animação “A Pequena Sereia”, a atriz afro-americana promove a representatividade e muda a perspectiva de várias crianças desta e de futuras gerações
Por Lizandra Andrade I Participante do Projeto Culturadoria em rede
Comentado e discutido desde o anúncio de sua produção, em 2016, a live action da animação “A Pequena Sereia” segue em destaque na pauta, mesmo após sua estreia, em maio. Da curiosidade inicial, passou-se às críticas e aos discursos de ódio, e, agora, a obra é aclamada pelos críticos de cinema.
Embora eu não seja especialista no ramo, afirmo que o filme, apesar de apresentar as mesmas lições que vemos em outras narrativas da Disney (“seja fiel a si mesmo”; “siga seu coração”; “não desista de seus sonhos”), vai um passo adiante. No contexto atual, especialmente em nosso momento cultural, a sereia de 2023, interpretada por uma afro-americana, quebra paradigmas – o que, porém, não é suficiente.
Na infância, as meninas são cercadas por contos de fadas, e a maioria já sonhou em ser princesa, encontrar um príncipe, viver uma grande história de amor, regada de aventuras, morar em um castelo e ser feliz para sempre. Muitas se inspiram nessas narrativas, mas será que as meninas negras, de fato, se identificam com elas?
Existem várias princesas brancas, e esse não é o problema. Sendo assim, a inquietação vem do fato de que não existem… princesas negras. Quer dizer, não existiam. O protagonismo negro feminino tem, paulatinamente, ganhado destaque nas produções dos estúdios Walt Disney, desde o final dos anos 1990.
Tudo começou com a primeira Cinderela, Brandy Norwood, em 1997. Passadas praticamente duas décadas, só agora foi dado o segundo passo, com o anúncio da produção criativa de “A Pequena Sereia”.
A internet enlouqueceu. Todos queriam saber qual atriz interpretaria Ariel, a jovem disposta a trocar o reino do mar, seu canto e sua cauda por um par de pernas. Tudo por amor!
O filme, inspirado no conto escrito por Hans Christian Andersen, autor de histórias infantis do século XIX, tinha como personagem principal uma sereia ruiva, de pele alva. E a atriz anunciada para viver a história provocou um choque!
Afinal, tratava-se da afro-americana Halle Bailey.
Houve um burburinho desproporcional na internet. Parte do público questionou a escalação da atriz negra como protagonista, e alegou falta de fidelidade ao enredo. Outros aplaudiram e justificaram: por se tratar de uma personagem mítica, a sereia não precisa, necessariamente, ser vivida por uma mulher branca.
Halle ignorou os comentários.
Quanto à Disney, defendeu seu elenco em carta aberta ao público.
A principal característica de Ariel não é o cabelo ruivo, ou os olhos azulados, mas sua voz. Eis a particularidade que o diretor do filme Rob Marshall procurou em todas as atrizes que fizeram o teste para o remake da animação. E Halle Bailey tem esse atributo – quem esteve nos cinemas pode ver que, além de carisma, a cantora trouxe, ao papel, o timbre capaz de alcançar as notas altas de “Part of Your World”.
Nascida em 27 de março, dos anos 2000, em Atlanta, Georgia, nos Estados Unidos, Halle Lynn Bailey é a caçula, de três filhos, do casal Courtney e Doug Bailey.
Logo, sua carreira artística começa cedo. Aos seis anos, chama atenção na comédia “As Férias da Minha Vida” (2006). Depois, atua nas séries “Austin & Ally” e “Grown-ish”, além de participar do filme “Let It Shine” (2012).
É como cantora, porém, que ela se destaca, no duo Chloe x Halle, com sua irmã mais velha. Em 2013, as duas fazem covers das músicas de Beyoncé e divulgam no YouTube.
Dois anos depois, a própria Beyoncé convida a dupla para assinar contrato com sua gravadora, a Columbia Records, e, em 2018, é lançado o álbum “The Kids Are Alright” (“As crianças estão certas”, em tradução livre para o português).
Ao ser escalada para dar vida a Ariel, Halle comemora, em seu Instagram pessoal, e posta a imagem mais famosa da sereia (a da pedra) – que, contudo, tinha a pele negra, cabelos escuros e olhos castanhos.
De lá para cá, muito se tem compartilhado sobre o assunto. É fato que, nem sempre, de maneira saudável, posto que misógina, rude e preconceituosa. O pioneirismo, entretanto, é um rico convite para ampliarmos o olhar na cultura em que estamos todos imersos.
Sereias não são seres mitológicos, exclusivos de países europeus. Iemanjá, na cultura Iorubá; Kianda, da cultura angolana, e Iara, de nosso folclore indígena, remetem a nossa ancestralidade, não branca, não europeia.
Historicamente, os brancos ocupam papel de destaque, não só no cinema, mas, também, em outras áreas do entretenimento. Dessa forma, nas primeiras décadas do século XX, não havia negros no cinema americano, nem em papéis secundários. Logo, usava-se o expediente racista conhecido como blackface, em que pessoas brancas eram pintadas de preto.
A primeira vez em que meninas negras se viram como princesas foi na adaptação do conto “Cinderela”, em 1997. Ou seja, doze anos antes de surgir Tiana, de “A Princesa e o Sapo”, em desenhos.
Lançado para a televisão, o telefilme tinha, no elenco, a cantora Whitney Houston, como fada-madrinha – e produtora –, e a atriz Whoopi Goldberg, como a rainha Constantina, mãe do príncipe encantado Christopher, além do ator filipino Paolo Montalban.
Para completar a família real, o rei Maximilian foi vivido por Victor Garber, e Jason Alexander assumiu o papel de Lionel, seu leal servo – um elenco, portanto, multirracial!
Detalhe: foi Whitney Houston quem escolheu a cantora e atriz Brandy Norwood para interpretar Cinderela. Inicialmente, o projeto teria a própria Whitney como protagonista, mas os anos se passaram e ela se sentiu mais adequada a viver a fada madrinha.
Assim, passaram-se 25 anos, já que a sereia negra de Halle Bailey chegou às telas de cinema só agora, em 2023.
A sensação ao final de “A Pequena Sereia” é positiva e com alguns pontos a se destacar . Halle Bailey, mesmo envolvida por críticas, atuou confiante e segura, entregando bons agudos nos cantos. Já Melissa McCarthy (Úrsula) e Javier Barden, como Rei Tritão, deram vida aos personagens de forma madura, dada a vasta experiência em filmes de ambos. A pitada de humor ficou por conta dos personagens animados Sabidão, Linguado e Sebastião.
Ponto positivo também para o diretor Rob Marshall que soube elaborar bem os musicais que deram fluxo ao enredo – cada espetáculo me fez sentir exatamente a sensação a ser passada: mistério e maldade, em “Corações Infelizes”; emoção e amor, em “Parte de Seu Mundo” e “No Fundo Dessas Águas”; e uma pitada de curiosidade e aventura, em “Zum, Zum, Zum”.
De maneira geral, “A Pequena Sereia” é um filme maravilhoso e agradável, além de ótima oportunidade para refletir sobre o protagonismo negro nos cinemas.
Publicado por Carol Braga
Publicado em 11/07/23