Literatura
Editora mineira Relicário aposta em livro escrito a quatro mãos
Adriana Lisboa. Foto Sierra Nichols.
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Adriana Lisboa. Foto Sierra Nichols.
‘Realejo de Vida e Morte’ e ‘Realejo dos Mundos’, da editora Relicário trazem as assinaturas de Jocy de Oliveira e de Adriana Lisboa, respectivamente
A escritora Adriana Lisboa conta que só foi conhecer “Realejo dos Mundos”, segunda parte da “Liturgia do Espaço”, da compositora, pianista e escritora Jocy de Oliveira, décadas após a encenação original da peça, ocorrida em 1987, no Rio de Janeiro. Na verdade, foi em 2018, quando já tinha arrematado o romance “Todos os Santos” e estava em busca de um novo projeto ao qual se dedicar, que Adriana pensou em escrever algo inspirado na vida e na obra da curitibana. “Pesquisando a obra dela, lendo os títulos publicados (inclusive ‘Diálogo com Cartas’, que ganhou um prêmio Jabuti), me detive sobre o ‘Realejo dos Mundos'”, lembra.
Nascia, ali, o embrião do livro “‘Realejo de Vida e Morte’ (um roteiro de Jocy de Oliveira). Além dele, ‘Realejo dos Mundos’ (um romance de Adriana Lisboa)”, que, como o título já aponta, é uma obra escrita a quatro mãos. Trata-se da mais recente aposta da editora Relicário, que já tem lançamentos marcados em abril, nas Livrarias da Travessa no Rio e em São Paulo.
Ainda sobre o processo de criação, Adriana lembra que foi no citado mergulho na obra de Jocy que finalmente conseguiu assistir à gravação da performance no Estádio de Remo da Lagoa Rodrigo de Freitas. “E, aí, a parte do meu texto ficcional se construiu imaginando um casal de amigos, jovens estudantes de música, presentes naquele concerto”.
Os dois personagens recordam o passado num momento de incerteza, de um mundo natural cada vez mais alterado e transfigurado pela presença humana. “Em que a música está presente em suas vidas como uma espécie de fantasma, mas também de promessa e esperança”, específica ela, ao Culturadoria, frisando que se debruçou sobre a escrita antes da pandemia da covid-19, o que, entende, rendeu todo um outro significado à narrativa.

Mas… E como um novo roteiro de Jocy entrou nesta história? A própria Adriana trata de explicar. “Em 2019, quando escrevi a obra, depois de entrevistas, telefonemas e trocas de mensagens com Jocy, no ano anterior, mandei o manuscrito a ela. Eu o considerava um texto um pouco estranho, híbrido, inclassificável – mas era isso o que queria que fosse mesmo, porque, para dialogar com a obra dela, não poderia ser algo mais convencional”, conta a autora.
Para surpresa de Adriana, pouco depois, Jocy retornou, dizendo que, por seu turno, queria adaptar o texto para uma “ópera cinemática”. O que, claro, encheu a escritora carioca, que atualmente reside nos Estados Unidos, de satisfação. “É um privilégio trabalhar com ela e ver essa colaboração vindo ao mundo”, destaca. A encenação aconteceu ano passado, no Sesc Pompeia.
Sendo assim, o livro da Relicário traz o romance de Adriana Lisboa, que narra a influência da música e das composições de Jocy na sua formação; e o roteiro de Jocy, uma livre adaptação do romance de Adriana. Não só: a obra abarca, ainda, uma profusão de fotos da estreia, 14 partituras para um futuro filme e QR codes, que permitem ao leitor ouvir a música simultaneamente à leitura do livro.
No cômputo geral, Adriana Lisboa ressalta o modo como Jocy se vale de certos recursos – como o som de ostras, gravado pelo cientista irlandês Michael Prime (“sons bioelétricos”), usado como uma metáfora ambiental na adaptação do texto.
“A excelência dos músicos e cantores que trabalham com ela é também algo digno de nota: um grupo que aprendeu o ‘idioma’ Jocy de Oliveira e que, no palco, domina inteiramente aquilo que ela propõe. E que muitas vezes é extremamente desafiador, tecnicamente falando”.
Com os trabalhos prontos, elas acharam que seria pertinente publicá-los em livro, pela Editora Relicário, inclusive para pessoas que trabalham com adaptação teatral ou cinematográfica. “Pensamos que seria bacana ter os dois textos ali, cotejáveis. Mas como Jocy sempre pensa grande, o que é ótimo, acabou planejando a inclusão de fotos das récitas e as partituras com QR code”, diz Adriana, acrescentando que a concepção da publicação foi da própria compositora, junto à designer Roberta de Freitas.
“Acho o resultado sensacional”, exalta Adriana. “É quase um livro de arte, ficou belíssimo. A ideia dos QR codes é muito boa: dar ao leitor a possibilidade de ouvir as músicas da ópera me parece uma excelente ideia – e, para quem lê música, acompanhar as partituras, na notação sui generis de Jocy”.
Muito antes de Adriana Lisboa se enveredar pela escrita, Adriana Lisboa atuou como musicista, tendo obtido o bacharelado em flauta transversa. Por isso, o interesse pelo tema sempre esteve presente em sua vida. “Conheci o trabalho de Jocy através da obra de John Cage – ela organizou um concerto com ele em 1995, no Rio de Janeiro, ao qual fui por acaso: ia a um outro concerto mas errei a data e ‘aterrissei’ ali”.
Na ocasião, a escritora ficou tão deslumbrada (“e desestruturada”) que começou a ler e a ouvir tanto Cage quanto Jocy. “O elemento do acaso na música de Jocy, o aleatório, o questionamento de certos papéis (da mulher, da ‘diva’, por exemplo), a circularidade do tempo, a abertura para o improviso – tudo isso me parecia um sopro de ar fresco se contraposto a um ‘mainstream’ de valores muito mais conservadores e rígidos”, narra.
Para Adriana, o resultado musical (“a um tempo estranho, surpreendente, belo, às vezes incômodo, às vezes sublime”) a fascinava. “Do mesmo modo, sempre me interessou o fato de Jocy incorporar várias facetas artísticas, sendo não apenas pianista e compositora mas também escritora, cineasta, roteirista, diretora de teatro. Tenho imensa admiração por artistas múltiplas que trabalham a criação com esse fôlego. No caso dela, inclusive desafiando instituições extremamente misóginas para fazer sua arte como queria”.
Adriana Lisboa enfatiza que o trabalho anterior de Jocy, “Liquid Voices”, foi também uma ópera cinemática. “Uma obra de música e cena, cujas récitas foram filmadas e depois editadas para integrar um filme, com outras passagens gravadas em locações variadas”, conta.
O projeto de “Realejo” segue a mesma linha. “As récitas realizadas em 2022, no Sesc Pompeia, em São Paulo, que incluíam vídeos projetados, foram filmadas, e Jocy está também dirigindo filmagens na cidade de Atafona (Rio), que vem sendo literalmente consumida pelo mar. Tudo isso vai compor um filme, que é o objetivo final de todo esse trabalho”.
Além da obra em questão, Adriana Lisboa conta que tem alguns outros lançamentos previstos para este ano, caso de um novo livro de poesia, um novo infantil e a reedição de “Caligrafias”. “Também estou envolvida na escrita de um novo romance. Eu, que andava bastante afastada da escrita de ficção nos últimos quatro anos”.
Antes de “Realejo”, Adriana lançou, também pela editora Relicário, Todo o Tempo que Existe”, espécie de relato (“ou ensaio autobiográfico”). O livro foi escrito a partir da morte do pai dela, Arnaldo, em 2021, vítima da covid, e remontando à partida também da mãe, Gilda, em 2014.
Por fim, “A obra vem encontrando um público carinhoso e generoso. Acho que a experiência da perda, tenha ela a cara que tiver, é tão familiar a todos nós que acabamos, de um modo ou de outro, nos reconhecendo nessas narrativas. Escrever esse livro foi muito importante para mim, e o caminho que ele tem trilhado me comove e alegra. Uma espécie de ‘estamos juntos’”, finaliza.
Publicado por Patrícia Cassese
Publicado em 16/03/23