Tem uma pérola disponível na Amazon Prime Video. Desculpe começar logo com um adjetivo assim, mas não consigo pensar em outra coisa para falar sobre O som do silêncio, filme que marca a estreia na direção de ficção de Darius Marder. É a história do baterista Ruben (papel de Riz Ahmed) que tem um duo de metal com a namorada Lou (Olivia Cooke). No meio de uma turnê ele percebe que está ficando surdo.
A partir deste momento, o longa cujo roteiro é assinado por Darius em parceria com Abraham Marder e Derek Cianfrance, se transforma em uma jornada de autoconhecimento e auto aceitação. É impossível não sentir empatia pelo que Ruben enfrenta. Os olhos esbugalhados, a revolta e a tristeza no fundo contaminam o espectador que parece posto em um lugar de cúmplice. É isso!
Ruben e Lou
Boa parte desse resultado se deve ao trabalho de interpretação de Riz Ahmed. Filmes como O Abutre e Rogue One tem o nome dele na ficha técnica mas eu confesso não me lembrar. Sinal de que o trabalho mais marcante da carreira é mesmo como Ruben. O longa começa com uma cena dele na bateria. Som alto. Na manhã seguinte somos apresentados ao trailer em que ele vive com Lou.
É uma sequência de atos cotidianos que seriam banais se não estivessem ali para ressaltar como o ruído faz parte da nossa vida. Tem coisas óbvias como o barulho do liquidificador e outras delicadíssimas como a gota de café, a respiração e o jazz. Ah o jazz! Nessa mesma sucessão de cenas o diretor deixa claro o amor e a devoção que Ruben sente por Lou. Eles dançam e ali já se vê a química entre os atores. Tudo construído com gesto e som. Sem palavras.
Quietude
Mas O som do silêncio não fala só de amor ao próximo (a relação deles é linda linda). Talvez faz refletir, por exemplo, sobre amor próprio, o que inclui ter sabedoria para aceitar certas condições, inclusive a quietude. É essa a jornada de Ruben.
A surdez apresenta ao protagonista um novo mundo e, claro, a necessidade de novos aprendizados. Se expressar é um deles. O processo de transformação se dá em uma comunidade no interior dos Estados Unidos. Mas Ruben não perde a esperança. É aí que entra o equívoco da tradução do nome do filme para o português.
Em inglês é Sound of Metal, o que seria, na tradução literal, Som do metal. Serve como referência tanto ao gênero musical que o personagem toca com Lou, como também ao que vou chamar aqui de “robotização do mundo”.
Riz Ahmed e Olivia Cook em O som do silêncio. Foto: Amazon Prime Video/Divulgação.
Os sons
Além da qualidade das interpretações (a jovem Olivia Cooke hipnotiza a gente!) e do roteiro, o diferencial de O som do silêncio é mesmo a maneira como o áudio é trabalhado no filme. Dessa maneira, todo barulho é dramaturgia. Se há um roteiro tradicional com as palavras, a impressão é de que houve um minucioso script para o som. A mixagem foi feita no estúdio do diretor mexicano Carlos Reygadas por Jaime Baksht e Michelle Couttolenc, que também cuidaram do som de O labirinto do Fauno, do diretor Guillermo del Toro. Em resumo, foram dez semanas de trabalho.