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98 segundos sem sombra: Os anseios de uma adolescente latinoamericana nos anos 80

Giovanna Rivero. Foto: Irene Antu?nez

“98 segundos sem sombra”, de Giovanna Rivero, é uma coedição das editoras Incompleta e Jandaíra, com tradução de Raquel Dommarco Pedrão.

Por Gabriel Pinheiro | Colunista de Literatura

Genoveva Bravo Genovés é uma adolescente nos últimos anos da década de 1980. Presa numa pequena cidade no interior da Bolívia, ela sonha em alçar vôos maiores, libertar-se da família, da escola e dos costumes entediantes. Enquanto este objetivo parece distante, num futuro quase-impossível, ela segue, à seu modo, tentando se dissociar da realidade monótona na qual está inserida. Assim, compartilha conosco suas experiências e pensamentos mais íntimos – muitos deles dotados daquela intensidade característica da adolescência – por meio de um diário. “98 segundos sem sombra”, de Giovanna Rivero, é uma coedição das editoras Incompleta e Jandaíra, com tradução de Raquel Dommarco Pedrão.

Therox é uma cidade sem livrarias. A última fechara há pouco, metamorfoseada em butique. Antes do fechamento, Genoveva compra um último livro: “O diário de Anne Frank”. É a partir do relato honesto e aterrador de uma jovem judia ameaçada por algozes nazistas que a garota boliviana parte para sua própria empreitada dentro da escrita de si. Um gesto que foi frustrado numa primeira tentativa: “Mas como eu não sofria daquela maneira, não dormia em um sótão aterrorizada e com o ouvido atento às botas dos lobos alemães, era uma vergonha escrever um diário de verdade”. Narrado em primeira pessoa, lemos em “98 segundos sem sombra” essa sua segunda tentativa de escrita. “Aqui, escrevo os rascunhos das redações e coisas que me incomodam ou me machucam e que preciso colocar em algum lugar antes que se transformem em um tumor cármico”.

O desencontro familiar

Sobretudo, Genoveva odeia o pai. Militante de esquerda e trotskista, a figura paterna parece carregar em si todo o peso de um projeto político que falhou na América Latina, não conseguindo liderá-la após as ditaduras militares que dominaram a região. Estamos no final da década de 80: se os países daqui rumavam para o recomeço de suas interrompidas democracias, o neoliberalismo os mergulha numa desigualdade social crescente. Entretanto na mãe, a jovem enxerga a apatia: apesar da insatisfação com a vida que leva, a permanência no mesmo local – tanto físico quanto simbólico. Restam, na família, o irmão e a avó, Nacho e Clara Luz. Duas figuras nas quais a adolescente canaliza a ternura e o cuidado nas páginas do diário. Com a avó, a jovem descobre as superstições que atravessam gerações da família, entre rezas e vodus.

Interessante que irmão e avó são nomeados, ao contrário do pai e da mãe, transformados em arquétipos, com os respectivos papéis e os conflitos e frustrações na relação com a filha. “Somos uma família estranha. Talvez por isso a raiva se acumule em mim como um vômito, primeiro na boca do estômago, depois na garganta, como se eu estivesse empachada com alguma coisa”.

América Latina e neoliberalismo

Sobre o neoliberalismo e a América Latina, Giovanna Ribeiro constrói um interessante retrato do período e da região na pequena Therox. A cidade é o “Cu do Mundo”, a protagonista nos diz. Nesse sentido, encontramos aqui uma comunidade que sofre a escassez de oportunidades e acaba sendo dominada pelo narcotráfico. Uma guerra silenciosa é travada entre o tráfico e a DEA – Administração de Fiscalização de Drogas, órgão norte americano – que inunda a cidade com agentes. Alguns disfarçados, outros nem tanto. “Quando numa sociedade a vida não vale um tostão furado, estamos em guerra, ou pior, somos testemunhas absurdas da invasão!”, ela anota o discurso inflamado de uma professora. 

Brincando no sol de quase meio-dia, Genoveva e a melhor amiga esperam o momento em que suas sombras entram completamente embaixo dos pés. Um fenômeno fugidio, efêmero, que dura exatos noventa e oito segundos. “São também os meus segundos, quando nada na realidade me divide e estou no controle de tudo o que é meu”. Giovanna Rivero constrói nesta cena uma imagem poética e marcante daquilo que transborda em sua protagonista, uma garota que carrega dentro de si um desejo de mundo.

“98 segundos sem sombra” tem um texto cativante, melódico e debochado, quiçá desbocado. Uma escrita indomável, assim como é aquela a quem dá voz. 

Capa do livro 98 segundos sem sombra. Créditos Jandaíra e Incompleta
Capa do livro 98 segundos sem sombra. Créditos Jandaíra e Incompleta

Encontre “98 segundos sem sombra” aqui

Gabriel Pinheiro é jornalista e produtor cultural. Escreve sobre literatura aqui no Culturadoria e também em seu Instagram: @tgpgabriel (https://www.instagram.com/tgpgabriel)

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Publicado por Carol Braga

Publicado em 12/01/23

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