As provocações da exposição ‘O corpo é a casa’, de Erwin Wurm

Entrada da exposição ‘O corpo é a casa’, de Erwin Wurm no CCBB-BH. Crédito: Carolina Braga

A melhor definição que já ouvi sobre o que é arte contemporânea foi de uma amiga. Lívia Mourão, que é uma grande artista, contou que viu certa vez em um documentário alguém comparando a produção de nosso tempo a um adolescente. “Difícil de entender mas está gritando por atenção. Quer passar uma mensagem”.

E como a maioria dos adolescentes, a arte contemporânea está segura de que a mensagem é claríssima. Será?

Foi inevitável não me lembrar disso a medida em que caminhava pelas salas do Centro Cultural Banco do Brasil entre as criações do austríaco Erwin Wurm. São esculturas que gritam por atenção. Atraem com humor mas, no fundo, tem uma reflexão a fazer.

Por ter como essência a provocação, esse tipo de produção é, muitas vezes, incompreendido. Você mesmo já pode um dia ter se questionado, mas isso é arte? Te garanto que a pergunta voltará à sua mente ao ver O corpo é a casa. Especialmente quando se deparar com alguém fazendo a foto de duas pessoas montadas de cavalinho uma sobre a outra. Ou então, tentando equilibrar, nos pés, duas embalagens Tetrapak de leite.

Uma das obras interativas da exposição de Erwin Wurm no CCBB-BH.

Também será possível colocar a cabeça dentro de uma casinha de cachorro, se equilibrar em bolinhas de tênis e por aí vai. Estar entre as obras de Erwin Wurm é se divertir. A ludicidade, no entanto, não é gratuita. O corpo é a casa é uma exposição que desafia o entendimento do que é ou não é arte.

Dialogo com marcos da arte contemporânea

 

Erwin Wurm não reinventa roda alguma. Ele apenas dá continuidade a reflexões que acompanham a arte contemporânea ao longo do século XX. Em 1917, Marcel Duchamp assinou um mictório e fez desse objeto um dos mais cultuados da área. O austríaco – defensor de que tudo é escultura – dialoga com isso com ironia. Veja o vídeo:

As chamadas One-Minute Sculptures (esculturas de um minuto) são criadas por Wurm desde a década de 1990. Vale lembrar que os celulares de então ainda não tinham câmeras. As propostas que ele faz são muito simples. Até bestas. Mas foram capazes de prever essa adoração do ser humano pela cultura selfie.

“Se Andy Warhol disse que todo mundo queria ser famoso por 15 minutos, Wurm disse que as pessoas seriam esculturas por um minuto”, explica o curador Marcello Dantas.

Morde e assopra – tem crítica ao mesmo tempo que diverte

Logo na entrada da exposição tem um mapa mental da obra de Erwin Wurm. Naquele gráfico dá para perceber o quanto tudo o que ele faz não é tão gratuito como pode parecer. As referências vem da filosofia, psicologia com autores como Freud, Kant e Espinoza, Pierre Bourdieu, Theodore Adorno, Susan Sontag e muitos outros.

 

Tudo é escultura

Erwin Wurm se considera essencialmente um escultor. Sendo assim, a obra dele questiona o que é escultura. Um monte de roupas? Um prédio? Uma cadeira? Uma pessoa? “Qualquer objeto, no momento que ele perde a função para a qual foi criada, pode ser uma escultura”, explica Marcello. Quando Wurm pendura mesas e cadeiras na fachada de prédios o que ele está querendo é chamar atenção para isso. No fim das contas, será que tudo é arte?

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EM TEMPO

Antes de publicar enviei o texto para Lívia. Ela, como sempre, dialogou comigo e com a arte.

“Adorei Carol! Achei claro e delicioso… além de ter ficado muito lisonjeada com a menção ❤ adoraria saber mais da sua experiência com a obra dele. Mais desse diálogo, do que o do Wurm. Arthur Danto falava que o que diferencia uma caixa de sabão Brillo da criada por Warhol é o momento. Arte vira então um momento, a experiência entre o expectador e a obra. A obra não é arte sem esse momento. Pensei nisso quando li sobre a exposição e com sua clareza, tive uma impressão que Wurm foca nisso, na irônica desmitificação da arte, herança Duchampiana e joga para o espectador o momento, para tal existir. Ele pode até estar utilizando da experiência alheia para esse momento existir, viramos instrumentos de Wurm, mas acho que ao utilizar ready made, em tempos mais recentes, existe mais o questionamento “o que é artista” do que o “que é arte”.”