Dos guardanapos para as redes sociais: uma perspectiva para literatura nos tempos digitais

Fabrício Carpinejar no Fórum das Letras 2017. Crédito: Carol Reis/Divulgação

Por Francyne Perácio

Expressar a arte seja por versos, pinturas, imagens, esculturas e performances não é nenhuma novidade, mas e no ambiente virtual? Como a literatura dialoga com a instantaneidade da internet?

O poeta, escritor e jornalista, Fabrício Carpinejar, autor de Liberdade na vida é ter amor para se prender, reuniu em sua obra frases dos guardanapos que guardou. “Tentei fazer um cinema pessoal, diferentes estados de espírito: desencanto, solidão, alegria. Um livro que chega ao final sem algumas folhas, que emagrece por amor”.

Nessa obra é possível descartar as páginas e doá-las a quem desejar. Segundo o escritor gaúcho, o guardanapo é o antepassado do WhatsApp. Assim como o aplicativo, por meio deles era possível enviar recados.

“Acho de última categoria o que está acontecendo hoje. Ninguém fala com o outro para começar uma relação, tu pega o nome e some, pra tentar falar nos aplicativos, no Tinder, Happn ou Facebook. Ninguém tem coragem de se encarar e seduzir presencialmente”, protesta Carpinejar.

Uma nova forma de comunicação, por meio de símbolos, ilustra conversas nas redes sociais. Nada de hieróglifos egípcios, longe disso, são os emojis, aquelas “carinhas amarelas” responsáveis por sustentar amizades virtuais.

“Com os emojis você pode manter uma amizade. Não precisa falar nada, a pessoa conta uma confissão, e você envia uma carinha, e ela fica feliz que você respondeu. Não suporto pessoas que só falam por emojis.  Escrevem uma historinha e você tem que decifrar. E o pior é quando pergunta, entendeu? E tu tem que realmente entender a história”, confessa o escritor.

Eduardo Jardim lançou livro no Fórum das Letras 2017. Crédito: Carol Reis/Divulgação

Literatura engajada

Retomando a pergunta inicial, sobre a literatura e as redes sociais, apesar das plataformas diferentes, ambas promovem a interação entre as pessoas. Além de relacionamentos, movimentos políticos, manifestações ideológicas e sociais também são organizados pela internet.

Para o escritor, filósofo e professor Eduardo Jardim, autor do recém lançado Tudo em volta está deserto, a internet contribui para ampliar a literatura.

“Acho que as redes sociais podem sim, espalhar literatura, reflexão e multiplicar vozes, mas é claro que a gente vive também um tempo de explicações muito simplificadas. Como ali é fácil simplificar, acaba que a gente encontra muita coisa estereotipada, superficial. Apesar disso, eu vejo muito positivamente o fato de que existe agora esse meio que é virtual e que muitos escritores estão aparecendo por aí”.

Jardim ainda relata que a arte e a literatura têm a função de auxiliar as pessoas em momentos de crises, como o que vivemos hoje. “Nós temos uma história de literatura, de pensamento, de poesia, e eu acho que, quem sabe, a gente se apoiando as essas diferenças, possamos atravessar momentos difíceis?  E sermos não só reativos ao que está acontecendo, mas sermos criativos de novos caminhos”? Enfatiza o escritor.