Fórum das Letras em Ouro Preto faz homenagem a Drummond e discute “a poesia com antídoto”

Cine Vila Rica ocupado pelo Fórum das Letras 2017. Crédito: Carol Reis/Divulgação

Por Francyne Perácio*

“Ouro Preto fala com a gente de um modo novo, diferente. Outras cidades se retraem no ato primeiro da visita. Depois desnudam-se, confiantes, e seus segredos se oferecem como café coado na hora […]”. O trecho do poema de Drummond, “Ouro Preto, livre do tempo”, ilustra o “clima” que a cidade viveu nesta semana de Fórum das Letras.

A antiga Vila Rica, respira poesia. Seja pelos versos dos escritores, nas rodas de conversa ou performances artísticas. Nesses oito dias de evento, a literatura reuniu pessoas de todo o Brasil.

Pelo 13º Fórum das Letras de Ouro Preto, circularam jornalistas, poetas, artistas, estudantes e amantes da língua portuguesa. As atividades dividiam-se em debates, lançamentos de livros, sarau, exibições cinematográficas e espetáculos.

“A poesia como antídoto”, resgatou além dos poemas de Carlos Drummond de Andrade, apresentados em múltiplas narrativas, diferentes discursos sobre a literatura.

Fabrício Carpinejar foi apelidado de “crush” do Fórum. Crédito: Carol Reis/Divulgação

VIDA COM POESIA

O “Crush do Fórum” Fabrício Carpinejar, como foi apelidado por um grupo de estudantes da Universidade Federal de Ouro Preto, acredita que a literatura não seja um remédio para os angustiados, ou o oráculo dos indecisos. Mais que isso, ela simplesmente ensina a viver com o turbilhão de sentimentos que cerca o ser humano.

“Não existe quem não gosta de ler, existe quem ainda não descobriu o estilo que lhe fale algo ao coração”, afirma a escritora Laura Conrado, sobre a inserção da literatura pop nas escolas.

 “A partir do momento que você tem uma literatura que representa os dias de hoje e o jovem, é uma grande porta de entrada para o adolescente no meio literário. O livro não é só uma fonte de informação, ele é uma fonte de prazer e autoconhecimento. Você nunca é mesma pessoa depois que lê uma história”, Laura Conrado, escritora.

Intervenção levou literatura para as ruas de Ouro Preto. Crédito: Carol Reis/Divulgação

ATRAÇÕES NO FÓRUM DAS LETRAS

O cardápio de atividades era variado e servia até aos paladares mais exigentes. Para completar a festa, quem passou pela Igreja Nossa Senhora do Rosário, na tarde de sábado (25), viu uma chuva diferente cair do céu. Não era água, tampouco gelo, versos de Drummond, eram lançados e varridos pelo vento.

“Eu quero compor um soneto duro como poeta algum ousara escrever. Eu quero pintar um soneto escuro, seco, abafado, difícil de ler”, poema “Oficina irritada”, Carlos Drummond de Andrade.

Fórum das Letrinhas 2017. Crédito: Michel Becheleni/Divulgação

FÓRUM DAS LETRINHAS

O Fórum das Letrinhas é o projeto infanto-juvenil que compõe a grade de programação do Fórum das Letras. Dedicado a semear literatura para crianças e jovens das escolas públicas e privadas da cidade, o evento, além de leituras e teatro, abordou a morte como reflexão.

A escritora, Rosa Maria Miguel Fontes, falou sobre seu livro “Vovó inventa palavras”. Baseado no relacionamento dos netos, em especial, a neta Juju e a avó Rosa.

Após uma cirurgia e uma falha na anestesia, Vó Rosa encontrava dificuldades na comunicação, daí começa a criar novos termos para se expressar. A família, adota o novo idioma e vive anos felizes com a idosa, até os últimos dias de vida. “Uma vó assim só cabe num lugar, no coração”, trecho do livro “Vovó inventa palavras”.

“Muitas pessoas têm dificuldades em lidar com os idosos, então está na hora de desmistificar isso, encarar essa questão do envelhecimento, porque a tendência é que a gente possa viver cada vez mais. E a gente aprende nos livros, a gente começa contando histórias para as crianças, chama a atenção delas para o tema, para as escolas e a partir daí ajuda a penetrar mais no assunto”, afirma Rosa Maria Fontes.

A escritora Mônica de Ávila também falou sobre a visão estereotipada sobre os mais velhos. “Se você foi uma criança engraçada e carismática, também será assim na fase adulta e na velhice, agora o contrário também acontece”, afirmou. “Envelhecer é ganhar anos de vida”.