Curadoria de informação sobre artes e espetáculos, por Carolina Braga

Arte e Liberdade: Zula Cia de Teatro monta peça a partir de experiência em presídio

Por Carol Braga

16/04/2018 às 13:56

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Crédito: Bernardo Carneiro/Seap/Divulgação

Teatro para além dos palcos: atravessando muros

Por Lara Alves

Reza uma lenda japonesa que aquele que fizer mil tsurus de origami terá um desejo realizado. Ao cabo de séculos essa tradição viajou entre ocidente e oriente. Do lado de cá do oceano, mulheres que cumprem pena no pavilhão externo do Complexo Penitenciário Feminino Estevão Pinto dobraram exatos mil tsurus. Tão vermelhos quanto seus uniformes.

Os passarinhos foram confeccionados em uma semana e dependurados no hall de entrada do presídio. Em resumo, era como se voassem para fora do cárcere. A ação integrava a exposição “A Arte Como Possibilidade de Liberdade”, curada pela Zula Cia de Teatro. Assim, as mil dobraduras de papel carregavam os pedidos das mulheres e voavam rumo a um mesmo destino: a liberdade.

A mostra é parte de um projeto da companhia que atravessou os anos de 2016 e 2017. Foi responsável por oferecer aulas de teatro para mulheres privadas de liberdade. A proposta foi uma das finalistas ao Prêmio Innovare de 2016 – que celebra práticas que contribuem para o aprimoramento da justiça no Brasil.  Se vencedor, o projeto seria implantado em todas as unidades prisionais do país. Finalizada neste ano, a proposta ganha uma nova faceta: as atrizes responsáveis pelas aulas estreiam, em novembro, um espetáculo inspirado na vivência no complexo.

A criação do projeto

Entre envio de projetos e conversas com as diretorias do presídio, a sócia-fundadora da Zula e líder do projeto, Talita Braga, levou quase um ano para adentrar os portões do complexo. Com um trabalho focado na mulher em situações marginais (“As Rosas no Jardim de Zula”) e em histórias de conflito relacionadas à maternidade (“Mamá”), o desejo de trabalhar com mulheres em cárcere, para a atriz e a própria companhia, era antigo.

Em 2016 a atriz participou do núcleo de pesquisa para arte-educadores no Galpão Cine Horto, coordenado por Glaucia Vandeveld. “Conversei muito com ela, que já tinha desenvolvido um projeto parecido de aulas de teatro na unidade prisional de Ribeirão das Neves e, a partir daí, surgiu uma pergunta. ‘Pode a arte possibilitar momentos de liberdade para mulher em situação de cárcere?’. Formulamos o projeto e fomos, em setembro de 2016, para o Complexo Penitenciário Estevão Pinto com o intuito de ministrar uma oficina de iniciação teatral”, explica Talita.

Durante os meses de setembro, outubro e novembro, Talita e Glaucia ministraram encontros semanais de duas horas. Era toda terça-feira, durante o banho de sol. Algum tempo depois, as atrizes Kelly Crifer e Mariana Maioline se uniram ao projeto. Assim, o sucesso das aulas foi tamanho que o projeto teve continuidade até setembro do ano seguinte.

“Finalizamos a primeira etapa em fevereiro de 2017 com uma apresentação feita pelas alunas. E deu certo demais. As meninas amaram e os resultados foram muito melhores que a gente esperava. Tanto a direção quanto nossas alunas pediram para continuarmos”, pontua Talita.

 

A atriz Talita Braga durante um dos encontros no Complexo Penitenciário Estevão Pinto. Crédito: Bernardo Carneiro/Seap/Divulgação

 

Situação de cárcere

As condições do cárcere feminino no Brasil são um traço alarmante. Revelam como a própria situação da mulher é encarada no país. No livro que encerra sua trilogia sobre o sistema carcerário brasileiro, o médico Drauzio Varella afirma que prisão de mulher envergonha a família inteira. De acordo com ele, se a sociedade é capaz de aceitar a detenção de um parente homem e a ele lhe sobra tranquilidade sobre a situação dos filhos cuidados pelas mães, à mulher costuma restar dúvidas sobre o futuro das crianças e o possível abandono da família.Há filas vazias nos dias de visita a mulheres.

O Brasil ocupa o quinto lugar no ranking de países com maior população prisional feminina e, em menos de 15 anos, a taxa de mulheres presas aumentou mais de 500%. Um perfil traçado pelo Infopen aponta que 67% das presidiárias são negras ou pardas, e 68% têm entre 18 e 34 anos.

Experiências

“Eu não dormi em muitas noites desse primeiro semestre de aulas lá no Estevão Pinto. Isso por conta das histórias que a gente ouvia, de como as mulheres são tratadas lá dentro porque elas são mulheres e não podem cometer crimes”, conta a atriz Kelly Crifer.

Aprisionadas, as mulheres encaram inúmeras humilhações e são reduzidas a um tipo sub-humano. As necessidades femininas são ignoradas e, por exemplo, quase não há absorventes – em presídios paulistas há relatos de mulheres que usam miolo de pão para conter a menstruação.

Glaucia Vandeveld lembra que quando entrou no Estevão Pinto, materializou-se a memória do que é a penitenciária, do que é esse lugar da prisão: o estado das pessoas. Para ela, a prisão é um lugar em que as pessoas ficam humilhadas, independentemente de como elas são tratadas.

“Elas ficam humilhadas, elas estão humilhadas só de estarem lá dentro. Então, o tempo todo, elas estão de olho baixo, mãos para trás, algemadas. Elas não podem, por exemplo, cumprimentar um professor no deslocamento. Quando acontecia era um cumprimento bem disfarçado, não podia ‘oi, tudo bem? Você tá boa?’, não podia”, explica Glaucia.

 

 

“Pode a arte possibilitar momentos de liberdade para a mulher em situação de cárcere?”

Julgadas em massa por manchetes sensacionalistas, algumas mulheres precisam ser separadas das restantes no interior dos presídios. Este é o caso das alunas de iniciação teatral do Estevão Pinto. As atrizes que participaram do projeto optaram por não conhecer os crimes das mulheres privadas de liberdade. Dessa forma, sem um viés oportunista ou curioso, as histórias dos crimes cometidos não foram material de trabalho das atrizes na prisão.

“Não nos interessava mesmo o crime que elas cometeram, nos interessava modificar, por meio da arte, aquele espaço e conseguir dar um respiro para elas naquelas duas horas de trabalho. Interessava-nos retomar as subjetividades daquela mulher”, explica a atriz.

Exposição realizada durante o processo criativo com as alunas. Crédito: André Veloso/Divulgação

Teatro como alívio

A ferramenta teatral foi certeira na conexão buscada com as alunas. O intuito era que o teatro, mais que fornecer um alívio na monotonia e na humilhação dos dias, fosse capaz de ajudar no processo de ressocialização. “Nós queríamos retomar quem era aquela mulher antes do crime que ela cometeu. Porque o material de trabalho no teatro são as nossas subjetividades, é como a gente se vê e se coloca no mundo”, pontua Talita.

Aos bocados, no decorrer do ano de trabalho, os efeitos das aulas de teatro foram percebidos pelas arte-educadoras. Notavam diferença no corpo da aluna que acabava de chegar ao projeto daquela que  já estava ali.

“Isso tem muito a ver com a palavra ‘liberdade’. O corpo de quem chega era muito domado num lugar formatado que tem ali. O olhar baixo, pouca movimentação, andava pelo espaço, não mexia os braços, as mãos ficavam fechadas. Havia dificuldade para fazer contato visual. As meninas que já estavam lá faziam contato visual, conseguiam soltar os braços, trocar afeto com as outras em exercícios simples do teatro”, explica Mariana Maioline.

Para além das mudanças físicas e facilmente perceptíveis no decorrer das aulas, a relação entre as alunas, tal qual sua saúde mental, melhorou consideravelmente segundo relatos. As atrizes da Zula trabalhavam com meninas muito medicadas.  “Eu me lembro de uma delas falando que respirava melhor depois das aulas. Quando ficava ansiosa, em vez de tomar remédio, respirava. Tudo isso tem a ver como o teatro vai trabalhando as relações a ponto de curar. Curou e a aluna reconheceu que poderia ficar sem o remédio”, conta Glaucia.

Crédito: André Veloso/Divulgação

Sobre os afetos

Medo de não ser aceita, medo de chorar, medo de nunca mais sair e medo do próprio medo foram algumas das aflições que atingiram as atrizes nos momentos que antecederam a entrada no Complexo Penitenciário Estevão Pinto. Contrariando certas expectativas, um afeto foi criado entre atrizes e alunas desde o momento da chegada.

Sendo assim, a conclusão das atrizes é que o cárcere é um lugar de muito sofrimento. No primeiro dia, ao chegar na área em que seria realizado o curso a falação tomava conta do lugar ocupado por cerca de 30 mulheres.

“Assim que a gente pisou lá, olhamos para elas, veio aquele silêncio. Aí a pedagoga nos apresentou, entramos na cela, e hora nenhuma eu tive medo delas. Eu tive medo de não ganhá-las. Só que tinha um desejo muito grande pelas aulas, porque elas precisavam de movimento, de que algo acontecesse. De cara eu saí impactada”, conta Talita. Satisfação maior veio quando as alunas perguntaram se elas voltariam na semana seguinte.

Coxinha e liberdade

Aliás, a coxinha é um capítulo à parte na história de amor e carinho criada entre atrizes e alunas. Não apenas voltaram na semana seguinte, como também levaram coxinhas em duas ocasiões especiais. Para quem goza de suas liberdades no mundo sem grades, comer coxinha, tomar refrigerante ou passar batom pode parecer uma tarefa simples e prazeirosa. No entanto, no cárcere, faz parte das minúcias da vida cotidiana que mais estão ausentes. Por lá, tudo é muito raro e precioso.

Lana Thairine é ex-aluna do projeto. Cumpriu sua pena no Complexo Penitenciário. Destaca tanto a importância das aulas de teatro quanto a delicadeza da relação estabelecida com as professoras. “Na minha vida, elas reacenderam a minha autoestima, porque elas sempre mostraram que a gente valia muito. Estar ali dentro é você se sentir um nada.  Quando você vê pessoas se preocupando com o horário, o dia, estar sempre ali presente, você se sente importante”, diz Lana.

Ela lembra, por exemplo, do dia da coxinha.  “Coisa boba, que no dia a dia aqui fora é normal. Mas, pessoas lá dentro, tinham cinco, sete anos sem saber o que era uma coxinha. Às vezes aqui fora a gente não dá valor a quase nada.  Mas, quando a gente está lá dentro passa a dar valor até pra migalha do biscoito que come. A Zula foi essencial pra colocar a gente lá em cima e mostrar que aquilo era apenas uma fase. Também que quando acabasse a gente seria capaz de começar do zero”, desabafa Lana.

 

Integrantes do projeto, Kelly Criefer, Glaucia Vandeveld, Mariana Maioline e Talita Braga. Acervo Pessoal/ Zula Cia de Teatro

 

Hierarquia e batom

A lógica hierárquica no interior de um complexo penitenciário está tão presente entre as mulheres privadas de liberdade quanto entre elas em relação a agentes e diretoria. A partir de relatos, as atrizes puderam perceber que o valor de uma mulher dentro da prisão diz respeito diretamente à quantidade de bens que ela tem. Se tem bens e recebe visita é extremamente valiosa. Parte da descoberta teatral das alunas nas aulas perpassou exatamente esse ponto: a autoestima precisava ser recuperada.

A mostra foi pensada por Alexandra Tavera, a trilha sonora é assinada por André Veloso e a arte gráfica leva o nome de Philippe Albuquerque. Além da exposição com os relatos e as vozes das mulheres, uma apresentação teatral foi montada para valorizar o trabalho das alunas. Teve o apoio de Ana Haddad na preparação vocal.

Lana Thairine também se lembra que, no dia da apresentação, as professoras doaram um batom para cada menina. Outro objeto corriqueiro do cotidiano que tem muito valor dentro de uma cadeia. “Tenho certeza que muitas das mulheres lá vão usar o batom até o final. Depois, guardarão a embalagem para se lembrar daquele momento. Foi muito importante porque nós estávamos num setor onde não tem nada. De repente, nos vimos como as estrelas do espetáculo. Veio diretoria, agentes de outros setores, e se tornou a notícia do momento”, conta Lana.

 

Nova montagem

Outro espetáculo ainda fora montado ao final do ciclo, em setembro do ano passado. As alunas propuseram, então, uma homenagem cênica para Talita, Glaucia, Kelly e Mariana. A carta escrita como homenagem está disponível no fim desta matéria. Foi a partir desta despedida que surgiu a necessidade das atrizes de montar um próprio espetáculo.

De acordo com Talita, o desejo de fazer a peça surgiu por uma demanda das alunas. Ela sempre incentivaram as artistas a criar um espetáculo. Seria uma resposta a todos os atravessamentos que sentiram lá dentro. “Existe uma carência que vem lá de dentro. É suprida através do olhar da arte que propõe. Do toque que propõe afeto, que propõe não julgar, que propõe não criticar”, pontua Talita.

No começo deste ano, as quatro atrizes deram os primeiros passos rumo à terceira montagem da Zula Cia de Teatro.

O que o público pode esperar do espetáculo ainda é incerto. O processo está sendo iniciado. As atrizes estão revivendo todo o tempo passado no interior do Complexo Penitenciário. A partir disso, os temas que podem ser discutidos serão levantados. A importância do teatro como ferramenta de sobrevivência. A questão da força das mulheres quando se unem e a questão do sistema prisional são ferramentas do nosso trabalho. E estamos retomando tudo isso”, adianta Kelly Crifer.

O projeto foi aceito pelo edital de ocupação do Centro Cultural Banco do Brasil. A previsão é que estreie no espaço multiuso do espaço na Praça da Liberdade em novembro deste ano.

 

CARTA DAS ALUNAS PARA AS ATRIZES

“Bom, estamos nós aqui de novo para mais uma despedida. Chega ao final mais uma etapa e o que dizer pra vocês, Glaucia, Kelly, Mari e Talita?

Uma frase muito marcante: o que eu quero ver pela janela? O que nós vemos pela janela?

Amor, apesar das diferenças, alegria em meio a tanto sofrimento, brilho mesmo que venha dia nublado e escuridão, carinho que nós recebemos uma grande dose na hora certa, justiça em um mundo cheio de desigualdade, mulheres vencedoras que sabem o que querem, o quanto nós somos especiais para vocês. Realizações de sonhos porque vocês acreditaram em nós, reações espontâneas, muito bom quando vem o que nós menos esperamos, riqueza de detalhes desde o menor até o maior, tudo em seu devido lugar, trabalho feito com carinho e amor, tudo isso encontramos em todas vocês e tenham certeza de uma coisa: nós amamos vocês.

Não é tão difícil de entender o porquê de tanta dedicação no que fazem, mesmo num espaço tão pequeno nos fizeram ver possibilidades e novas ideias que não ficaram só no papel, se tornaram realidade. Hoje podemos dizer que valeu a pena cada tentativa, cada ensaio, valeu, Glaucia, Kelly, Mari e Talita, por terem acreditado em nós.

Vejo pela janela uma infinidade de coisas, mas não esquecendo do essencial, vejo cada uma de vocês com histórias diferentes, mas todas ligadas pelo objetivo de transformar as nossas vidas pelo menos por aquele momento em um mundo maravilhoso, totalmente diferente da realidade que vivemos. Pois é assim que nos sentimos com vocês ao nosso lado, em outro mundo, um mundo de imaginação com músicas, frases, palavras, expressões, que tornaram a vida bem mais fácil de ser vivida. Quero deixar aqui uma pergunta: e o que faz parte do seu mundo? Amamos vocês!”

 

 

Crédito: Bernardo Carneiro/Seap/Divulgação

 

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