Curadoria de informação sobre artes e espetáculos, por Carolina Braga

A Paixão Vibrante de Zé Celso Martinez Corrêa

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O diretor Zé Celso Martinez Corrêa, o arquiteto das emoções teatrais, construiu uma vida de intensidade e transformação, envolvendo os palcos com paixão vibrante pela arte

Carol Braga | Editora

Toda experiência envolvendo Zé Celso Martinez Corrêa sempre foi um acontecimento. No sentido de ser, de fato, memorável, inesquecível. Zé não veio a esse mundo para ser neutro. Veio para causar, fazer pensar, tirar do lugar comum. Foi o que fez ao longo de toda a vida, tendo o teatro como grande alimento.

José Celso Martinez Correa, diretor do Teatro Oficina, faleceu nesta quinta, aos 86 anos (Garapa Coletivo/Wikimedia Commons)
José Celso Martinez Correa, diretor do Teatro Oficina, faleceu nesta quinta, aos 86 anos (Garapa Coletivo/Wikimedia Commons)

Zé Celso transformava qualquer espaço em um palco efervescente, no qual as emoções se manifestavam livremente, e, assim, o público era arrastado por uma energia inexplicável. O teatro era a forja dele, um ferreiro incansável. Desde a criação do Teatro Oficina, os embates com a ditadura, até as experiências mais recentes. como a montagem de “Esperando Godot” (que, aliás, o trouxe a BH). Dentro e fora do palco, tudo o que ele fez foi intenso. Na forma e no conteúdo.

Os encontros

Tive três oportunidades de encontrá-lo em Belo Horizonte. A primeira, em 2010, quando o Teatro Oficina apresentou “O Banquete” no Museu de Arte da Pampulha, na programação do FIT-BH. Ali já foi uma catarse regada a vinho. Mas nada foi comparável à vivência durante a Virada Cultural de Belo Horizonte, em julho de 2016.

Silvana Arantes, editora do caderno de Cultura do Estado de Minas, foi quem sugeriu que eu me infiltrasse no elenco do Oficina e tentasse mostrar o avesso da cena para o leitor do jornal. O espetáculo era “Para dar um fim ao Juízo de Deus”, texto de Antonin Artaud, logicamente encenado com todos os surpreendentes temperos do diretor brasileiro.

“Atriz por um dia”

Em um primeiro momento, senti certo desconforto com a ideia. Afinal, Zé Celso, um dos nomes mais importantes do teatro nacional, estava na cidade. Sendo assim, o foco da pauta ser a minha experiência como “atriz por um dia” me pareceu, inicialmente, um disparate. Depois eu entendi o que isso significaria. Ver Zé Celso fora de cena era uma experiência que eu – e todo mundo que ama o teatro – precisava ter, principalmente para entender a dimensão da devoção dele à arte para a qual se dedicou por mais de 60 anos.

Pisar em um palco é coisa séria. Criar espetáculos que trazem contundentes provocações também é, por mais dionisíaca que a experiência possa parecer. O encontro com o público transformava Zé Celso. Se antes do espetáculo a imagem que me marcou foi a de um diretor exigente, sério e concentrado (que inclusive me xingou quando tentei fazer uma foto dele), bastou o público entrar no teatro para tudo mudar. Até o semblante, a energia.

Força viva e pulsante

A presença da plateia era como um alimento para arte e para a vida de Zé Celso. A arquiteta Lina Bo Bardi captou isso bem quando projetou o palco do Teatro Oficina como uma passarela, com a plateia praticamente dentro dos espetáculos. A impressão que eu tenho é que a paixão dele pelo teatro nutria o desejo constante de criar experiências únicas. Sejam elas geradas pelo estranhamento, pelo encantamento, pela catarse. Zé Celso mostrou que a arte não pode ser contida. Ou seja, é uma força viva e pulsante que conecta artistas e espectadores em uma experiência coletiva.

Ao final da única apresentação em BH de “Para dar um fim no juízo de Deus”, Zé Celso literalmente caiu nos braços do público. Era como se ele estivesse compartilhando uma parte de si mesmo, deixando uma marca indelével em cada espectador.

Zé Celso Martinez Corrêa, ao longo da vida, conseguiu transcender as barreiras das artes cênicas e se tornar um símbolo da paixão artística, de resistência e de luta. A presença inconfundível e o legado como ator e diretor serão lembrados por gerações, inspirando artistas a ousarem e a transformarem a arte em verdadeiros – e necessários – acontecimentos.

Zé Celso, rodeado pelo público, ao final da apresentação de “Para dar um fim no juízo de Deus”, em Belo Horizonte. Foto: Carol Braga.

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