Curadoria de informação sobre artes e espetáculos, por Carolina Braga

Filme “Transe” mostra a polarização política no Brasil de 2018

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Dirigido por Carolina Jabor e Anne Pinheiro Guimarães, “Transe” traz Luisa Arraes, Johnny Massaro e Ravel Andrade à frente do elenco

Patrícia Cassese | Editora Assistente

Meados de 2018. O Brasil se prepara para mais uma eleição presidencial, mas, desta vez, os ânimos estão acirradíssimos: afinal, os candidatos com chances reais de vencer o pleito representam dois opostos – esquerda e direita – em um país já há alguns anos cindido. É neste recorte temporal que transcorre a ação de “Transe”, filme que entra nacionalmente em cartaz nesta quinta-feira. Dirigido por Carolina Jabor e Anne Pinheiro Guimarães, com roteiro também de ambas, o filme mostra a agitação do período por meio de três jovens: Ravel, Luisa e Johnny.

Os atores Johnny Massaro, Luisa Arraes e Ravel Andrade, protagonistas de "Transe" (Pedro Perdigão/Divulgação)
Os atores Johnny Massaro, Luisa Arraes e Ravel Andrade, protagonistas de "Transe" (Pedro Perdigão/Divulgação)

Aqui, uma situada necessária: os personagens levam o nome dos artistas que os interpretam. Ou seja, Luisa é Luisa Arraes, Ravel é Ravel Andrade, e Johnny, Johnny Massaro. De início, Luisa namora Ravel, mas, ao conhecer Johnny, os três passam a formar um trisal. Ao mesmo tempo, se engajam no movimento #elenao, que tentava demonstrar, nas ruas e nas redes, o repúdio ao candidato Jair Bolsonaro – que, como todos sabem, acabou levando a melhor e se tornando o presidente do Brasil no período 2019-2022.

Acaso

A grande ousadia do filme, vale dizer, foi o próprio processo de feitura: assim, direção, produção e elenco deram início às filmagens sem ter o roteiro formatado. Claro, havia um norte, esboços… Mas, também, o espírito livre de coletar cenas a esmo. Tanto que foi assim que Johnny Massaro acabou sendo arrolado ao elenco de “Transe”, como o próprio ator revelou na coletiva de imprensa realizada na última segunda-feira, dia 30 de abril.

“Gosto da história de como entrei (nesta jornada). Eu fui à manifestação (#elenao), em 2018, e, depois, tinha uma festa no Centro da cidade (do Rio). E lá fui eu curtir um pouco. Daí, encontrei a Lulu (Luisa Arraes). Disse: ‘Você está tão linda, está filmando?'”, repassou Massaro, aos jornalistas. Ao que Luisa respondeu que, depois, explicaria. Na verdade, ali, algumas tomadas do filme já estavam sendo feitas. “Três dias depois, a Carol (Carolina Jabor) me liga, fala do filme e do entendimento de que o que tinha acontecido (na festa, referindo-se ao encontro dos dois) poderia ‘funcionar’ (em ‘Transe’). Então, foi uma casualidade maravilhosa (ter encontrado Luisa na festa)”, descreve ele.

Trabalho em construção

Luisa, cujo envolvimento no projeto se espraiava no brilho no olhar e no entusiasmo ao falar sobre o filme, na coletiva, pontua que “Transe” acaba sendo uma ficção feita como documentário. “Assim, lá atrás, a gente não sabia onde ia chegar. Um filme que foi feito hoje sobre hoje (o ‘hoje’ ao qual ela se refere era, como dito, 2018), que não fala de passado, de algo que a gente anteriormente tinha elaborado. Isso está na forma e na maneira como a gente filmou. Não havia diálogos previamente escritos. Íamos para a cena improvisando. Ou seja, ele inteiro era o presente”.

Carolina Jabor lembra que, naquele período, as emoções estavam à flor da pele. “Então, nesse sentido, como havia uma angústia coletiva pairando, ‘Transe’ foi uma reflexão sobre o que estávamos vivendo”. Anne Pinheiro Guimarães complementa. “Foi meio que uma válvula de escape. Mas o filme não traz respostas, ele mostra um despertar para a política para tentar entender o que estava acontecendo”.

Registro

Anne também reitera que “Transe” foi se desenvolvendo sem que os envolvidos soubessem efetivamente o que ia dar no final. “Afinal, ali, a gente não sabia nem qual seria o resultado das eleições”. Por isso, entende ela, “Transe” é exemplo de uma construção coletiva que, no caso, partiu de uma angústia. “E, hoje, é um registro (daquele período), ao mesmo tempo que não deixa de ser muito atual”.

O realismo estava tão presente que, na coletiva, Ravel contou que se lembra de Carolina Jabor ter conversado com ele sobre a possibilidade de um registro particular dele votando, no dia das eleições. Como o irmão tinha uma câmera, o pedido foi concretizado. “Mas eu também não sabia como ‘Transe’ iria ser conduzido – e, depois, descobri que nem elas. Mas havia um sentimento conjunto de indignação, e a gente precisava falar disso, colocar pra fora. Recordo que a gente levou um livro (NR. na votação de 2018, muitas pessoas que apoiavam o candidato Fernando Haddad foram votar levando, nas mãos, um livro)”.

O viés ficcional

Outro ator presente à coletiva, Matheus Macena ponderou que, com ele, a dinâmica foi bem diferente. “O personagem é diametralmente oposto à minha personalidade, na visão de vida, no pensamento. Como eu, é um homem negro, de origem periférica, mas somos totalmente diferentes”, contou ele, que foi procurado pela própria Luisa Arraes para compor o elenco de “Transe”.

A partir da fala dele, Luisa brincou: “Ou seja, eu era atriz, escrevia também e fazia… como se chama mesmo? Casting”. Sendo assim, em “Transe”, Matheus não interpreta a si mesmo, mas dá vida ao personagem João. “Portanto, as falas dele foram escritas”. Anne situou que o personagem representava (“e representa”), de certa forma, uma forma de entrar na vida das pessoas que pensavam de modo distinto do trio principal, “para perspectivar”. “A cena que ele chega é meio que uma síntese do assunto (polarização) chegando às nossas casas”.

O outro lado

Massaro amplia o debate e lembra que, de muitas maneiras, o filme “Transe” tenta também entender o pensamento do dito “outro lado”. “Porque esse outro lado, claro, existe, e o nosso trabalho seria superficial se não contemplasse outras perspectivas. Até para tentar entender: ‘Quem são essas pessoas?’.

Ravel também opinou. “Acho que, daqui a dez anos, se formos revisitar (“Transe”), vamos ainda estar aprendendo com ele. Afinal, a politica está sempre em mutação. Assim, nunca está nada certo. Naquele tempo, a gente via as pessoas falando tantos absurdos. E hoje a gente se vê muito menos ingênuo. Talvez menos arrogantes em nossas opiniões políticas. Porque a gente sempre acha que o nosso lado é o melhor, e, olhando o filme, a gente começa a entender melhor o outro”.

O impensável

Anne prossegue: “A gente achava que o impensável não aconteceria. Hoje, a partir da maturidade (em relação à polarização), entendemos que o impossível não é impossível de acontecer. Ou seja, estamos menos fechados na bolha, mais atentos ao que está acontecendo fora do nosso círculo”. Luisa emenda: “Eu odeio opiniões contrárias ao que penso (risos). Mas, agora falando sério, eu hoje respeito mais uma opinião contrária, e acho que isso é uma perda de arrogância”.

“Se a pessoa estuda (o assunto), já consegue olhar e entender que tem essas diferenças, e passa a discutir (com quem tem opinião divergente) sem se afastar. Hoje, escuto mais essas pessoas, e acho que, do mesmo modo, elas também tendem a me escutar”, diz Ravel. “Naquela época, eu tinha interesse em falar. Agora, quero ouvir, entender”, endossa Luisa.

Ela também reflete. “Complementando o que Ravel falou, pois acho importante, ‘Transe’ tem uma crítica sobre a nossa própria bolha”. Seja como for, Matheus Macena entende que o longa tem chances de atingir o dito “outro lado”. “Mesmo se a pessoa se levantar (no meio da sessão) e for embora, penso que a gente tem tudo para atingir, acho que o cinema tem esse poder”.

Na ilha de edição

Perguntados sobre como foi estar na ilha de edição com tanto material em mãos, Luisa de pronto disse que, ao fim, eram vários filmes. Ou seja, que o que foi filmado poderia render vários filmes. As diretoras confirmaram que sim, de certa forma, o roteiro foi efetivamente construído na edição. Isso porque, nas filmagens, o norte era mais a vivência, o calor do momento, enquanto que, na edição, “Transe” teve um direcionamento. Era tanto material a ser peneirado que, na coletiva, foi revelado que até cenas que contaram com a presença de Caetano Veloso tiverem que sair.

De todo modo, Luisa comentou que o livro “Verdade Tropical”, lançado por Caetano Veloso em 1997, foi meio que base do roteiro. Aliás, no filme, os personagens do trisal têm DRs por meio de músicas de Caetano. “Através das letras, eles dizem para o outro o que querem transmitir”. Ravel diz que o personagem que interpretou ia ainda mais a fundo no “Caetano filósofo”. “Assim, o cara que pensa sobre a sociedade. Inclusive, a gente chegou a ir à casa dele. Esse momento… Cara, eu acho que morri e renasci. A Carol (Carolina Jabor) me mostrou, depois, um apanhado de cenas nas quais eu tocava, e ele nos acompanhando. Ver aquilo, ele me olhando… Saí do meu corpo e voltei. E ele disse que gostou”, diz um Ravel compreensivelmente orgulhoso.

Confira, a seguir, o trailer

Ficha Técnica

“Transe”

Direção: Carolina Jabor e Anne Pinheiro Guimarães   
Roteiro: Anne Pinheiro Guimarães e Carolina Jabor   
Elenco: Luisa Arraes, Johnny Massaro e Ravel Andrade   
Participação Especial: Ana Flavia Cavalcanti, Bella Camero, Célio Junior, Cláudio Prado, Dudu Rios, Maria Clara Drummond, Matheus Macena, Matheus Torreão, Pastor Henrique Vieira e Priscila Lima   
Direção de Fotografia: Daniel Venosa   
Produção: Cosmocine e Conspiração
Distribuição: ArtHouse e Filmes do Estação

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