fbpx
Curadoria de informação sobre artes e espetáculos, por Carolina Braga

‘Trama Fantasma’: os múltiplos entendimentos para um grande filme

Por Carol Braga

25/02/2018 às 13:14

Publicidade - Portal UAI
Cena de 'Trama Fantasma', de Paul Thomas Anderson. Crédito: Universal Pictures/Divulgação

Quem experimentar fazer um giro entre as críticas publicadas sobre Trama Fantasma vai detectar algo interessante. Realmente há uma multiplicidade de olhares.

O perfeccionismo, tanto do protagonista como do diretor, chamou a atenção de Luiz Zanin Oricchio, do Estadão. Silvana Arantes, no Estado de Minas, destacou o “trânsito” que a honestidade pode ter entre amor e arte. Para Mário Abbade, do Globo, o filme conta sobre uma relação de ciúmes, amor doentio e codependência.

As interpretações no exterior também foram diversas. A crítica publicada no Chicaco Sun-Times compara o novo filme de Paul Thomas Anderson aos longas de mistério dos anos 1950 e cataloga: Hitchcock de luxo. A.O Scott, do New York Times, escreve sobre os paralelos entre a obsessão artística do protagonista e do diretor. O The Guardian foi mais para o lado da moda e a semelhança que o personagem tem com figuras da sociedade britânica desta área.

O que todos os textos têm em comum? A constatação de que se trata de um grande filme, que Daniel Day-Lewis está perfeito no papel e que será uma sacanagem com quem gosta de ver bons atores em cena se ele levar essa história de aposentadoria para frente.

A história

Trama Fantasma conta a história do estilista de luxo, Reynolds Woodcock (Daniel Day-Lewis). Ele é sistemático, exigente. Atende a altíssima classe britânica com a ajuda administrativa da irmã Cyril (Lesley Manville, ótima). Além de ser um homem bem-sucedido, parece ser muito mimado também por todas as mulheres que o cercam. É machista.

A primeira coisa que me chamou atenção no filme foram enquadramentos (aqui uma dica para entender um pouco mais sobre isso). Em geral, os personagens aparecem em primeiríssimo plano, ou seja, a câmera destaca do ombro pra cima. Entendo como desejo do diretor que nos aproximamos daquelas pessoas na tentativa de decifrá-los.

Nestes quadros bem próximos, principalmente nas primeiras cenas, observa-se que o olhar de Woodcock nunca é frontal. Ele está sempre levemente com a cabeça baixa. Isso vai até conhecer Alma (Vicky Krieps).

A garçonete do interior cai nas graças do estilista. Tem o corpo perfeito para o que ele precisa. O tempo todo Paul Thomas Anderson deixa claro o tanto que a relação mais intensa da vida de Woodcock é com a profissão e não com as pessoas. O tesão parece estar mais no que o corpo dela pode servir à arte dele do que a ele mesmo.

[VEJA TRAMA FANTASMA NO CINEART]

Cena de ‘Trama Fantasma’, de Paul Thomas Anderson. Crédito: Universal Pictures/Divulgação

Acordos tácitos

Com toda sua simplicidade Alma entende isso desde o princípio. Para ela está ok. Nós é que só vamos compreender tudo no final do filme. Ok, sem spoilers.

Por isso, para mim, Trama Fantasma fala muito sobre os acordos tácitos existentes nas relações. De qualquer natureza. Entre Reynolds e a irmã Cyrill. Entre Woodcock e as clientes. Entre o estilista e as costureiras. E, de maneira mais intensa, entre o homem e a mulher. Entre Reynolds e Alma.

Esses acordos tácitos podem ser desequilibrados, doentes, e até absurdos. Mas eles dizem respeito apenas às pessoas que os firmam. Por isso é difícil entender os relacionamentos dos outros estando de fora.

Paul Thomas Anderson tem maestria ao ir tecendo discretamente todas as camadas. A sóbria fotografia dialoga com a trilha sonora criada por Jonny Greenwood (sim, o guitarrista do Radiohead), tão elegante quanto o universo que cerca Reynolds Woodcock.

 

Interpretações

Daniel Day-Lewis é um caso a parte. A composição dele para Woodcock está nos detalhes. Como o enquadramento em primeiríssimo plano é frequente, as nuances estão no rosto. Só com a expressão dele entendi o quanto aquele homem que se diz todo poderoso, também guarda suas inseguranças. Alma soube usar isso a favor dela.

Vicky Krieps é uma surpresa. Além de também ter a expressividade do olhar, a atriz de Luxemburgo tem uma questão fisiológica que fez bem à Alma. Sabe gente muito branquinha que fica vermelha com facilidade? Eu sou assim. Vicky e Alma também. As tensões e as emoções vão todas para o rosto.

Não acho que Trama Fantasma seja um filme apenas sobre amor e ódio. Vejo mais como estes e diversos outros sentimentos como admiração, medo, coragem e outros formam nossa complexidade. Se é difícil para cada um se entender, é muito mais complicado tentar interpretar e julgar as relações que os outros estabelecem com pessoas, com o trabalho, com a vida.

Para mim, foi esse o recado de Paul Thomas Anderson.

 

 

Continua após a publicidade...

photo

BH recebe Mostra de Diretoras Negras no Cinema Brasileiro

Um levantamento da Agência Nacional do Cinema (Ancine) apontou que nenhum filme foi dirigido ou roteirizado por uma mulher negra no ano de 2016. A pesquisa teve como base 142 longas-metragens brasileiros lançados comercialmente em salas de exibição. Deste modo, com o objetivo de incentivar a produção cinematográfica de diretoras negras a ‘Mostra de Diretoras […]

LEIA MAIS
photo

Mostra CineBH: dicas e apostas para edição 2019

Ver filmes é sempre bom, não é? E quando é de graça, free, na faixa? E quando os filmes são importantes para o cinema independente, falam de diversidade, exploram diferentes lugares físicos e de pensamento, melhor ainda. Então, se você se interessa por cinema, por refletir o cinema, aí vai uma ótima oportunidade: 13ª Mostra […]

LEIA MAIS
photo

Cinema na quarentena: ‘Entre facas e segredos’ mostra a graça que o suspense pode ter

Geralmente os filmes de suspense costumam ser, no mínimo, tensos, né? Agora, o que Entre facas e segredos, o longa dirigido por Rian Johnson, mostra é o quanto o humor pode fazer bem às histórias com assassinatos, perseguições e muitas desavenças familiares. É até curioso dizer, mas está aí uma delícia de filme! Sim, porque […]

LEIA MAIS
photo

Cinema na quarentena: as impressões sobre O poço, filme da Netflix

Um filme sensorial, com críticas sociais e que nos faz refletir sobre o que estamos vivendo. São essas as impressões que ficam após assistir O poço, de Galder Gaztelu-Urrutia, nova produção original espanhola da Netflix. O longa lançado em março, é cheio de camadas, interpretações marcantes e um enredo que bate em cada um de […]

LEIA MAIS
photo

Cinema na quarentena: Minha Mãe é uma peça 3 chega ao streaming

A chegada de Minha Mãe é uma peça 3 ao streaming, no contexto de reclusão em que estamos vivendo, vai contribuir ainda mais para os números estratosféricos que todos os projetos dessa franquia de Paulo Gustavo costumam alcançar. Nenhum problema com isso. Como Bertolt Brecht costumava dizer, já que ninguém ri do que não entende, […]

LEIA MAIS
photo

As lições de empreendedorismo de Madam C.J Walker na série da Netflix

A série disponível na Netflix A vida e a história de Madam C.J Walker, ou simplesmente, Self Made, é aquele tipo de produção que oferece ao espectador uma série de caminhos de análise. Pode-se, por exemplo, iniciar com elogios mil a Octavia Spencer, não apenas pela brilhante atuação como a protagonista, mas também por ter produzido essa […]

LEIA MAIS