Curadoria de informação sobre artes e espetáculos, por Carolina Braga

Trabalhadores da cultura: reflexões sobre o cenário em crise

No Dia Mundial do Trabalhador, uma reflexão sobre o quão complexa é a situação dos trabalhadores da cultura no cenário de crise
Foto: Banco de Imagens Canvas Pro

Toda vez que penso em escrever algo para os trabalhadores da cultura, meu coração diminui. Fica bem apertado. Minúsculo. Mas logo, tal qual o movimento deste músculo involuntário, ele pulsa. Cresce a medida em que me lembro o quanto a arte e seus derivados são fundamentais para a humanidade. Assim como o coração de cada um de nós, é uma atividade vital.

Por isso, neste dia do trabalhador, gostaria de compartilhar com você algumas reflexões que tem visitado minha mente neste período de isolamento sobre este mercado. Há alguns anos, quando participei do processo seletivo para o Chicas Poderosas, um programa internacional de aceleração, me fizeram a seguinte pergunta: por que você acha que seu projeto é importante para o mundo? Uma grande questão para uma ideia que nasceu hiperlocal, concorda?

Era uma conversa em inglês e digamos que minha performance no idioma é bastante restrita. Mas, diante daquela sinuca, não demorei nem um milésimo de segundo para encontrar a resposta. “Porque eu trabalho com cultura. Ofereço acesso a estas informações. Acho que a arte e a cultura são fundamentais para desenvolver sensibilidade. O mundo precisa disso”. Não falei mais nada.

Do outro lado da linha – era por telefone – encontrei silêncio. O coração disparou, claro. Será que exagerei? Interrompendo o vácuo, o formal agradecimento. Em alguns dias recebi o resultado da aprovação e, meses depois, me encontrei pessoalmente com a entrevistadora. Assim que me viu, foi logo dizendo que nunca se esqueceu daquela resposta. Eu também não.

Coração apertado

Faz pouco tempo que andamos nos referindo aos atores, produtores, escritores, bailarinos, roteiristas, dramaturgos e afins como trabalhadores das artes e da cultura. A utilização de um termo mais objetivo, duro, pragmático se faz necessária em um mundo cada vez menos aberto para entender todas as nuances que cabem nesta palavra: “artista”.

Operário da sensibilidade, por exemplo, se encaixa muito bem. Mas “artista” também pode ter um viés econômico. Aliás, deve ter. Parece ser esta a língua mais compreendida neste mundo ao avesso. Então, vamos lá. O setor cultural emprega hoje 5,7% da mão de obra do Brasil.

De acordo com o projeto de lei apartidário apresentado no Congresso, existem hoje no país cerca de 5 milhões de trabalhadores nessa condição. Deste total, 3 milhões não tem renda fixa. É um mercado sazonal, amparado em projetos. Sendo assim, é instável.

Em resumo: é também sensível. Tão sensível quanto complexo. O Senado aprovou a expansão da renda básica emergencial de R$ 600 para os profissionais da cultura, mas falta a sanção do presidente Jair Bolsonaro.

Números

Para a área da cultura as réguas precisam ser outras. Sempre precisaram. Por exemplo, vários editais de emergência surgiram neste período. Será que os projetos selecionados conseguiram contemplar todos os níveis dessa cadeia. O trabalhador da área que já tem grande reconhecimento cedeu espaço para aquele que ainda não tem tanta visibilidade, mas também está na labuta? Foi possível contemplar todas as funções e atividades da área?

Pesquisadores da Faculdade de Ciências Econômicas da UFMG fizeram um levantamento do impacto da Covid-19 na economia da cultura. Segundo eles, a cada R$ 1 investido no setor, são gerados R$ 1,60 na economia. Considerando a queda de 100% do consumo dessa atividade, durante três meses, o impacto seria de R$ 11,1 bilhões negativos no valor da produção da economia brasileira. O índice representa uma redução de 21,2% no valor bruto da produção do próprio setor (no ano).

Segundo os pesquisadores da UFMG, os governos precisam “estabelecer programas de crédito, de renda mínima e de exoneração fiscal específicos para o setor de atividades artísticas, criativas e de espetáculos, estender prazos de editais e suspender as contas de serviços públicos de espaços culturais fechados”.

No entanto, não tem sido esta a resposta encontrada. Cadê a Secretária Nacional de Cultura deste país que até agora não ofereceu absolutamente nada – nada mesmo – a seus colegas? Nem uma palavrinha de apoio rolou. É um abandono revoltante.

Ações

Em Belo Horizonte, os trabalhadores da cultura mobilizaram mais de 800 assinaturas na carta que pedia ao prefeito Alexandre Kalil um plano emergencial para o setor. Ele respondeu com a autorização para que seja retomada a análise das solicitações de readequações de projetos aprovados na Lei Municipal de Incentivo à Cultura durante a pandemia. Os empreendedores culturais estavam impedidos de iniciar a execução dos projetos por causa disso.

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Na esfera estadual, as notícias são péssimas. O governador Romeu Zema (Novo) cortou 45% do orçamento total da cultura. No Fundo Estadual da Cultura a situação é muito pior. O corte foi de 95% do orçamento.

Coração alargado

Já vi diversos estudos sobre o retorno das atividades. Em todos eles, a cultura sempre aparece no fim da fila. Mas isso significa o fim? Incerteza sim, mas fim jamais. O que não falta nesta área é criatividade.

Muito tem se falado sobre o novo mundo que se inaugura pós-Covid. É melhor mesmo que todos nós – artistas ou não – iniciemos logo a fase de experimentação de novas linguagens ou combinações artísticas. Elas podem ser híbridas ou inéditas. Fato é: precisarão ser diferentes. Fica a torcida para que, nessa reconstrução, as pessoas passem a também a dar mais valor ao trabalho do artista. Ninguém fica sem cultura. A pandemia mostrou que não se trata de “perfumaria” ou da “manteiga no pão”. Se trata de saúde mental.

 

Foto: Banco de Imagens Canvas Pro

 

Modelo de negócio no novo espaço público

Aposto que você já viu uma das tantas lives que os artistas têm feito por aí. A pandemia inaugurou a fórceps um novo espaço público. Assim que o isolamento foi determinado, logo começaram as movimentações. A audiências das plataformas de Streaming explodiram. No Brasil, os números das vendas de livros não foram positivos, mas no resto do mundo sim. No Reino Unido, as vendas de livros on-line cresceram 400%. Palmas, palmas e mais palmas. E a música? O número de assinantes do Spotify cresceu 31%.

Até o teatro, minha gente. Mesmo que seja uma expressão de mais difícil adaptação para o on-line, surgiram até festivais. Grupos passaram disponibilizar seus acervos online. Muitas inovações na forma como consumimos arte e cultura estão por vir. Precisamos, no entanto, a reaprender a dar valor ao trabalho de quem se envolve nesta atividade.

Cada live que você assiste, cada livro que lê, cada música que escuta tem por trás um exército de trabalhadores da cultura. A missão deles é deixar sua vida mais leve, seu pensamento mais crítico te ajudar a desenvolver a criatividade, inteligência emocional, exercitar sua empatia. São todas habilidades fundamentais para o novo mercado de trabalho, remoto, dominado por inteligência artificial. O que vai te diferenciar do robô?

Não é só o governo ou as instituições. Sou eu, você e todos que nos rodeiam. A gente se diverte, sim, claro. Nos transformamos a cada peça, cada livro, cada performance, cada quadro, cada filme. É esse o diferencial do humano que vai fazer diferença no “novo mundo”. Mas é preciso sempre lembrar que se trata do trabalho de alguém. Dê valor. Qual valor você dá para a sua sensibilidade? Ou melhor: qual valor você se dá?


Quer ajudar agora? Confira algumas campanhas de solidariedade abertas.

 

Salve a Graxa

Campanha solidária à equipe técnica da grande BH. Doaç?es: Banco Inter. Agência 0001. CC 1808163-0. Felipe Amaral Praxedes. CPF: 056.253.146-75.

Música pela música

Movimento colaborativo para arrecadar fundos para musicistas e DJs que vivem de performances musicais de BH

 

Foto: Banco de Imagens Canvas Pro

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