Curadoria de informação sobre artes e espetáculos, por Carolina Braga

Todos nós desconhecidos: no fim, somos tudo o que temos

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Dirigido por Andrew Haigh, longa com Andrew Scott e Paul Mescal traz reflexões sobre luto e solidão queer

Carol Marques | Repórter

“Todos nós desconhecidos” foi lançado em março no Brasil com um sucesso discreto. Desde as primeiras imagens de divulgação, o longa de Andrew Haigh chamou a atenção por retratar um romance entre Paul Mescal (Normal People e Aftersun) e Andrew Scott (Fleabag e Ripley). Muito além de uma exploração visual entre os homens do momento, Haigh entregou um filme comovente que explora com maestria temas como luto e solidão. 

Adam, interpretado por Andrew Scott, é um roteirista de 40 e poucos anos que vive em Londres. Silêncio e planos abertos em que sua silhueta se destaca contra a cidade apresentam a solidão do protagonista. O prédio, alto e imponente, está vazio, com exceção de um outro apartamento, cujo morador Adam observa de longe.

Depois de um treinamento de incêndio, Adam finalmente cruza com o vizinho – o jovem Harry (Paul Mescal), que está bêbado e procurando companhia. Naquele momento, Adam recusa a oferta de um drinque, temendo a intimidade.

Paul Mescal como Harry em “Todos Nós Desconhecidos” | Foto: Searchlight Pictures

A trama, então, ganha um novo rumo quando Adam, buscando escapar de um bloqueio criativo, visita a casa dos seus pais e os encontra vivos. Entretanto, eles morreram em um acidente de carro quando ele tinha 12 anos. 

Trauma, perda e zonas cinzas familiares

Com uma estonteante atuação de Andrew Scott, “Todos Nós Desconhecidos” traz à luz o impacto traumático da homofobia e do luto na vida adulta. À medida em que Adam se conecta com o “fantasma” de seus pais e com seu vizinho Harry, ele finalmente encara seu profundo sentimento de inadequação. 

Em uma determinada cena, ele sai do armário para a mãe, encontrando uma mescla de preconceitos e estigmas antiquados, que o ferem como se a mãe estivesse viva e ele fosse apenas um menino. Em outra, ele confronta o pai que sempre soube que o filho era gay, mas nunca o consolou enquanto chorava pelo bullying vivido na escola. 

Adam (Andrew Scott) e seus pais, que morreram quando ele tinha 12 anos. | Foto: Seachlight Pictures

Delicadamente catárticas, essas cenas levantam perguntas sobre o que significa, para uma pessoa LGBT, ser de fato conhecida pela

família. Além disso, escancaram a profundidade das cicatrizes deixadas pelas zonas cinzas dos erros cometidos por nossos pais, muitas vezes em nome do amor. Um fato curioso é que o cenário dos encontros de Adam com seus pais é a casa da infância do diretor.

O que o personagem de Harry faz ao se aproximar do protagonista é expandir, por meio da conexão física ou mental, a vida comedida criada por Adam ao redor do seu luto. Nas cenas de sexo entre os dois, encontramos um Adam tensionado pela timidez e isolamento e um Harry paciente e gentil. Nos diálogos, descobrimos que apesar de ter pais e irmãos vivos, Harry se sente deslocado e sozinho, entendendo de imediato as dificuldades enfrentadas por Adam. 

Portanto, Andrew Scott corporifica a experiência traumática em uma performance sutil. Toda a sua movimentação revela, ao tentar esconder seu sentimento de inadequação, o trauma que, mesmo contido, continua vivo. Já Paul Mescal está adorável e belíssimo, exalando a doçura de uma juventude interrompida pela própria dor. 

Todos nós desconhecidos | Foto: Searchlight Pictures

Dois mundos em conflito

“Todos nós desconhecidos” joga com essas duas atmosferas. De um lado, a aceitação total do ser provocada pela presença de Harry, do outro, pais e filho que estão se conhecendo, talvez, pela primeira vez. E o medo da rejeição da própria família continua firme e forte para Adam, que já os perdeu uma vez. Se ao encontrar a mãe Adam sente-se infantilizado e rejeitado como homem gay, é na cama dos pais que ele busca abrigo e troca confidências. 

Na zona cinza das relações familiares, capazes tanto de ferir quanto de curar, o espectador é confrontado com a dura realidade de que nunca haverá tempo suficiente entre um filho e seus pais, mesmo que eles tenham cometido erros. Mesmo que eles já estejam mortos.

Já na porção final de “Todos nós desconhecidos”, as duas atmosferas da vida de Adam se chocam. Da mesma forma que o prédio londrino é a realização física da solidão, a relação de Adam e Harry nos relembra que, no fim, somos tudo o que temos. As conexões humanas são aquilo que nos permite crescer para além das experiências negativas que nos moldaram.

Por fim, vale destacar a trilha sonora, que ressignifica clássicos e a cena da boate. Se um filme tem Paul Mescal e uma pista de dança, você já sabe que vai sofrer, mas vai ficar feliz por isso. 

“Todos nós desconhecidos” está disponível para streaming no Star+.

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