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Tipo Um fala sobre os mistérios e prazeres do último álbum, “Malgovina”

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“Malgovina”, álbum de estreia da banda Tipo Um, mistura elementos do rock progressivo, reggae, jazz, blues e até samba.

Por Caio Brandão | Repórter

Minas Gerais é, sem dúvida, um estado marcado pela presença do rock. Nesse sentido, esse gênero musical é manifestado em vários estilos pelos músicos, do velho e bom metal a sonoridades mais, digamos assim, leves, que inclusive assimilam aspectos de trabalhos posicionados fora dessa esfera. Recentemente, a cena local ganhou mais um representante – no caso, vindo diretamente da capital. É que, no último dia 14 de abril, a banda Tipo Um lançou seu álbum de estreia, “Malgovina”.

“Malgovina”, álbum de estreia da banda Tipo Um, mistura elementos do rock progressivo, reggae, jazz, blues e até samba.
Banda Tipo Um - Foto: Rafaela Urbanin

Para saber mais sobre os caminhos trilhados pelo grupo, o Culturadoria conversou com Gabriel “Bill”, Henrique “Eniruê” e Gabriel “Esquilo”, No bate-papo, os integrantes falaram sobre o disco, mudanças, influências e até Pokémon! Confira a conversa completa a seguir:

O álbum é baseado no rock, principalmente o progressivo, mas tem aspectos de vários gêneros. Como funcionou o processo de “curadoria” dessas influências?

Bill: Isso é uma coisa intrínseca à banda, às coisas que a gente ouve. Um tempo atrás a gente estava fissurado no rapper Kendrick Lamar, e esse é um exemplo de aspectos fora do rock progressivo que a gente gosta de incorporar no nosso som. Nos anos 60 e 70, as pessoas tinham dificuldade de classificar as bandas desse estilo, e essa é a nossa vibe. 

Muitas vezes perguntam o que a gente toca, e eu tenho dificuldade de responder. Eu falava que era rock, mas tem muita influência de samba, de indie, de reggae, é uma mistura natural. A gente tem muito convívio com a música brasileira e procuramos incorporar isso no que a gente faz.

Eniruê: Essa base de rock progressivo é importante para nós. Muitas das nossas composições surgem por meio do improviso. Então, no processo de gravação, a gente tinha muitas seções longas, que foram recortadas. E ouvindo elas, tínhamos a sensação de que precisavam de uma cara, de uma interpretação, que não vinha diretamente do rock. Nesse sentido, a gente está sempre aberto a essas influências para que possa se expressar da melhor forma, tanto como indivíduos quanto como banda.

Esquilo: Eu costumo falar, até para os meninos da banda mesmo, que, como eu e o nosso baixista, Raphael, entramos depois na Tipo Um, é muito interessante como cada um traz as próprias bagagens. Então, entramos no projeto com ele já em andamento, e trouxemos nossas particularidades junto ao norteador muito claro que já existia, que é o rock progressivo. 

Sendo assim, eu e o Rapha tivemos um papel diferente do Bill e do Henrique, que estão na banda desde o início. Existe uma certa limitação nisso, mas ela vem de uma forma positiva, cria um modelo de composição interessante, mesmo que tenha alguns contratempos. Quando você tem um molde claro, isso pode parecer limitante, mas acaba que você se liberta de formas que não imaginava. 

A narrativa do álbum gira em torno da introspecção e da autorreflexão, o que motivou a escolha desse discurso para o álbum?

Bill: A ideia era ter um conceito, e, a partir disso, e das nossas vivências, criar uma história. Esse conceito, no caso, é a mudança. Os enfrentamentos psicológicos típicos de uma pessoa comum na sociedade atual.  Por exemplo, a música “Chilique Público”, que é uma faixa que chama a galera para cantar junto, começa com uma pessoa que deixa o privilégio dela falar mais alto. Então, a gente mostra uma pessoa que cresceu, criou as primeiras convicções, colocou elas à prova, e teve um choque de realidade. 

Pensamos isso de uma forma cinematográfica. O Esquilo fez cinema, então, a gente gosta de criar uma história completa, com contexto, mas também com mistério, para que o ouvinte possa ter as próprias interpretações. Não queremos dar nada mastigado para as pessoas, queremos que a narrativa que a gente propõe esteja sujeita às perspectivas de quem ouve.

Eniruê: As formas que a gente entrega a narrativa também variam de acordo com as sonoridades que usamos. Há momentos que pedem mais energia, outros, que pedem melancolia. O jeito que a gente compõe abre muito espaço para a espontaneidade, até para usar coisas fora do cotidiano brasileiro, como a língua inglesa, por exemplo. Isso tudo vai de acordo com o que a melodia pede.

Esquilo: Essa questão da mudança reflete também a vivência da banda. A formação da banda já mudou algumas vezes, então, são várias perspectivas convivendo ali, e isso se manifesta no som. O álbum te leva para um lugar, e depois para outro, que você não espera, e isso é um aspecto importante da obra. 

Esse processo também pode dizer muito sobre o futuro da banda. Acho que as pessoas que escutam a gente podem esperar mais mudanças. E isso dá muito pano para manga para criar, mudar… e também para quebrar a cara, ver que algo não deu certo. Tudo isso potencializa a experiência de acompanhar o trabalho da banda. 

A identidade visual de “Malgovina” evoca um sentimento de claustrofobia, mas também com uma pontinha de uma espécie de mística, um mistério. Como foi o desenvolvimento por trás desse aspecto do álbum?

Bill: A banda, na verdade, é um grupo muito grande. Nós temos quatro músicos, o nosso manager, Igor; um videomaker, que também faz o marketing, Felipe, e o Rodrigo, que cuida da iluminação e da parte visual. Então, todo mundo participa do processo criativo, e, ao mesmo tempo que esse processo pode ser complicado, todo mundo é muito capacitado.

Para esse álbum, a gente foi muito inspirado pela questão dos liminal spaces, que evocam mistério, e que estão presentes em obras como a série “Twin Peaks”. Assim, surgiu a ideia de chamar a fotógrafa Rafaela Urbanin, que trabalha com conceitos parecidos, e, partindo daí, a gente teve a certeza de que ela entenderia nossa proposta. 

Nesse sentido, a gente trabalhou muito com o mistério. Uma porta que você não sabe para onde vai, uma luz que você não sabe de onde vem, uma psicodelia abstrata que evoca algo misterioso. 

Esquilo: Esses liminal spaces, ou espaços liminares, são justamente espaços de transição, que dialogam muito com o conceito de mudança presente no álbum. Por exemplo, o corredor de um hotel: ele não é um espaço que existe para você ficar nele, ele serve como um local de transição. 

Isso causa um sentimento de estranheza quando você está nesses lugares, e a gente trouxe isso para a identidade visual do álbum. Então, temos corredores, salas de espera, tudo isso influenciado por Twin Peaks, que usa muito dessa ideia.

Existe alguma coisa que foge do aspecto puramente musical, mas que influencia o álbum de alguma forma?

Bill: Você está falando com um grupo de nerds (risos). Nossa vibe, hoje, é Magic, que é um jogo de cartas, e RPG de mesa. O Esquilo está preparando para nós uma campanha de RPG baseada em Star Wars. São coisas que estão presentes na nossa vida. O Henrique, por exemplo, já foi top 1 do mundo no jogo Guitar Hero: Metallica, então, isso influencia muito a gente.

Tem dias que estamos de cabeça quente e a gente fala: “vamos encontrar para jogar um Magic?”, a gente tira tempo para curtir essas coisas. Além disso, Stanley Kubrick também foi uma influência, já que, em “O Iluminado”, ele trabalha muito com liminal spaces, então muitas vezes a gente incorpora essas coisas sem nem perceber. Mas, além disso, eu também assistia a Bob Esponja, sabe? Assim, é algo muito natural essa mistura de elementos muito diferentes, e a gente não tem vergonha disso.

Esquilo: Hoje mais cedo eu estava desenhando pokémons (risos). Os jogos são influências muito fortes para nós, ainda mais pois, para os artistas que a gente admira, que são, principalmente, das décadas de 70 e 60, isso não era comum. Hoje, isso é algo normal, faz parte da cultura do mundo inteiro.

Sendo assim, a gente não queria se equivaler com os artistas que são referências para a banda. A gente não tem vergonha de transparecer essa vivência, até porque, nascemos nos anos 90, então, éramos bombardeados com várias coisas que hoje pertencem à cultura pop. O próprio Pokémon, Mario Bros., a época do Playstation 2, são bons exemplos disso.

Eniruê: Esse processo é ser autêntico mesmo, com a nossa vivência, bem como com as nossas criações artísticas.

O show de lançamento do “Malgovina” vai acontecer no Mascate, que é da Xeque Mate, uma bebida que tem suas origens em Belo Horizonte. Tendo isso em vista, como a cidade influencia o trabalho de vocês?

Eniruê: No meu caso, tem uns 12 anos que eu tenho bandas por aí, então, Belo Horizonte foi um lugar que me influenciou muito nesse sentido, até na questão dos lugares que eu frequentava. Assim, por ter tocado com muitos músicos diferentes, interagido com muita gente, estar sempre conhecendo novas bandas, sejam elas autorais, covers, underground; essa vivência no ambiente musical de BH me fez absorver muitas ideias.

BH sempre foi uma referência para o Brasil inteiro no quesito música, mesmo que às vezes os cenário dê uma estagnada. A cena aqui é muito forte, temos nomes como Skank, Sepultura, ou seja, se você se abrir, Belo Horizonte vai te dar muitos aprendizados nesse sentido.

Bill: Quando eu vim para BH foi meio louco, já que eu cresci no Rio de Janeiro, e o jeito de interagir com esses dois espaços é muito diferente. Os lugares, as pessoas, o jeito de conversar, tudo é bem distinto. Então, nosso som tem essa coisa cosmopolita, já que eu e o Esquilo já moramos em outras cidades além de Belo Horizonte, ou seja, a gente mistura coisas que a gente vê aqui com outras que vimos em outros lugares.

Dito isso, a influência de BH é, sim, enorme. Eu tive uma conversa muito dura com meu pai um tempo atrás na qual eu falei para ele que eu queria ser músico, e queria ser um músico em BH especificamente, porque é aqui que se fazem músicos bons. Aqui, a galera faz arte com gosto, é tudo muito bonito, e é muito bom poder viver isso.

Como foi trabalhar com o produtor Leonardo Marques, que é um produtor de renome, tendo, inclusive, um Grammy Latino no currículo?

Bill: A Ilha do Corvo (estúdio) é um parque de diversões para músicos, e o Leo é muito importante para isso. Ele faz a gente se sentir parte de tudo que acontece ali. Existia uma pressão em cima da gente por causa das gravações, todo mundo queria performar o melhor possível ali, mas o Leo incorporou a gente tão bem nesse processo que foi tudo muito tranquilo.

Foi uma experiência muito única, me fez ter certeza de várias coisas, que era aquilo que eu queria fazer todos os dias da minha vida, A certeza que eu quero gastar todo o meu dinheiro para gravar música (risos). Foi lindo! A gente fez um amigo lá, e uma experiência como essa é algo que a gente deseja para todo artista.

Eniruê: Todas as ideias, todos os equipamentos, tudo que ele fazia estava conectado com o que a gente queria. Isso faz tudo ser muito leve, muito natural. Claro que existia uma ansiedade, já que, até aquele ponto, a gente não tinha muita experiência de estúdio, além daquilo ser o nosso sonho, né? Então, era normal esse nervosismo.

Porém, o Leo transmitia uma tranquilidade muito grande, e isso fez a gente fluir. Ele canalizou nossas habilidades com maestria, passava muita confiança para realizarmos o trabalho da melhor forma possível. O Leo tem muitos recursos, não só em termos de equipamento, mas intelectualmente também. Ele usou a criatividade dele para resolver qualquer problema que a gente pudesse ter. 

Esquilo: Eu quebrei a cara ali, mas num sentido positivo. Aquele momento foi muito simbólico. E participar disso faz parte do sonho de cada um. Isso gerou ansiedade na gente mesmo, mas, quando chegamos lá, era um ambiente muito diferente do que imaginávamos. 

A gente foi recebido por um cachorrinho, sabe? (risos). Isso já te quebra no meio, te deixa muito mais tranquilo. A convivência era muito leve, você podia sair, conversar com o Leo, ir comer alguma coisa, voltar para trabalhar. Isso me surpreendeu positivamente. 

Ter a expectativa quebrada dessa forma é um exercício criativo, bem como de aprendizado, muito gostoso. Nós tocamos com equipamentos que eu só sabia que existiam, mas até então nunca tinha visto de fato. Daí, você se coloca num lugar de aprendizagem. Você se abre para um processo muito prazeroso. 

Show de lançamento

A banda irá comemorar o lançamento do álbum no dia 13 de Maio na Casa Mascate, espaço cultural da Xeque Mate, tradicional empresa de bebidas belo-horizontina, em um line-up que contará também com as bandas Radio Exodus e Shiron The Iron.

Você pode ouvir “Malgovina”, na íntegra, pelo link.

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