Curadoria de informação sobre artes e espetáculos, por Carolina Braga

Tia Má estreia no cinema com o potente filme ‘Até o fim’

Filme dirigido por Glenda Nicácio e Ary Rosa foi aplaudido de pé pela plateia da Mostra de Cinema de Tiradentes

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Forte concorrente ao Troféu Barroco como melhor longa da Mostra Olhos Livres segundo o Júri Jovem em Tiradentes, o longa Até o fim, de Glenda Nicácio e Ary Rosa, alcança o equilíbrio que há muitos anos desejo ver nas telas do festival. Ao mesmo tempo em que consegue “conversar” com um público mais popular, é também prato cheio para análise da crítica especializada em filmes de autor e com uma estética mais arrojada. São muitas – muitas mesmo – camadas a se debruçar.

É o terceiro longa que a dupla da Bahia exibe na Mostra depois de Café com Canela (2017) e Ilha (2018). Até o fim tem um argumento bastante simples. Quatro irmãs conversam à beira da praia enquanto aguardam o telefonema sobre o estado de saúde do pai. Elas não se viam há mais de 15 anos. É um reencontro inicialmente cheio de mágoas, fortes revelações, mas sempre permeadas por humor.

Temas

Pelo riso, Glenda e Ary conseguem estimular debates sobre temas cada vez mais urgentes e relevantes na sociedade. Falam sobre o poder da mulher negra, a invisibilidade pela qual passam, abuso dentro e fora de casa, assim como identidade de gênero e orientação sexual.

A diretora Glenda Nicácio e as atrizes na apresentação de Até o fim. Foto: Foto Jackson Romanelli/Universo Producao

Foi inevitável ver Até o fim e não pensar como a história também seria potente – e urgente! – no teatro. Isso porque a câmera dos diretores faz pouquíssimos movimentos. Os planos também não se alternam muito, bem como o cenário, que é praticamente o mesmo. Assim como nos palcos, a força está no ator e no texto, ou seja, no que elas dizem.

Arlete Dias, Wal Diaz, Jenny Muller e Maíra Azevedo são praticamente estreantes na telona. Jornalista e apresentadora, Maíra é mais conhecida por outras vertentes de trabalho, principalmente, pelo canal no YouTube Tia Má. Ela também tem um espetáculo de stand-up que esteve em Belo Horizonte durante o Festival de Arte Negra em 2019. Quem a conhece do humor, ou de dos quadros com dicas amorosas no programa Encontro da Fátima Bernardes, vai se surpreender com o trabalho.

Tia Má interpreta Bel, a irmã que se deu bem como produtora de cinema. É a única mulher negra brasileira a receber um Oscar e, sempre que possível, a informação aparece no filme. Inclusive como uma forma de afirmação para as irmãs. Geralda foi a única que permaneceu na cidade local. Rose se tornou cabeleireira e Vilmar, bem, publicitária. Em resumo: Bel, Rose e Vilmar não deram conta de permanecer próximas da família.

Maíra Azevedo, a Tia Má, participa de debate sobre o filme Até o Fim na Mostra de Cinema de Tiradentes. Foto: Netun Lima/Divulgação

Limites

Até o fim também faz refletir sobre limites. As três não deram conta de suportar a própria família. Cada uma, a seu tempo e de acordo como próprio motivo, foi até onde conseguiu. Ficaram marcas, mágoas, mas o reencontro, mais do que representar um fim, é um recomeço.

É assim que Até o fim fica dentro de mim. Um filme sobre resistências pessoais, redescobertas, reencontro e, principalmente, amor. E, como diz a canção de Arnaldo Antunes homônima ao filme, “(…) o amor não se dissolve assim / Sem dor / Se não for / Até o fim”.

É mesmo para se aplaudir de pé, como fez a plateia de Tiradentes.

 

 

A equipe do Culturadoria viajou a convite da Mostra de Cinema de Tiradentes

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