Curadoria de informação sobre artes e espetáculos, por Carolina Braga

Terra Estrangeira: os 25 anos de um marco na reconstrução do cinema nacional

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Terra Estrangeira foi considerado um dos 100 melhores do Brasil, segundo a Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine).

Por Karina Braga | Culturadora

Uma fotografia encontrada na capa de um livro, onde se via um casal à deriva, encalhado numa praia deserta como um navio emborcado na areia. Assim nasceu Terra Estrangeira, no imaginário de Walter Salles. O filme luso-brasileiro de 1996 foi dirigido por ele em co-parceria com Daniela Thomas. 

Uma imagem em preto e branco me veio à cabeça: a de dois jovens frente à um navio emborcado na areia, num país distante. Pouco a pouco, foi ficando claro que aquela cena refletia formas distintas de exílio: político, econômico, afetivo”, explicou o cineasta quando foi perguntado sobre a foto que deu origem a tudo.

O filme foi considerado um dos 100 melhores do Brasil, segundo a Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine). Ao lado de Carlota Joaquina: Princesa do Brazil e O Quatrilho, Terra Estrangeira foi um marco na reestruturação do cinema nacional porque, naquela época, vivíamos tempos obscuros, marcados pelo corte radical de incentivos à produção cultural, providos pelo então presidente Fernando Collor. 

Foi nesse cenário de terra arrasada que nasceu, então, Terra Estrangeira

Linguagem

Selecionado pelo festival de Roterdã, uma grande vitrine do cinema autoral, o filme era a primeira produção brasileira a participar desta competição em muitos anos. Terra Estrangeira conta a história do jovem Paco (Fernando Alves Pinto) que resolve migrar para Portugal e se encontra com Alex (Fernanda Torres). Juntos se envolvem com pessoas perigosas e tentam uma fuga alucinada para a Espanha. 

O filme sintetiza o sentimento de desilusão que tomou conta do país na época, sendo muito bem traduzido pela fotografia em preto e branco de Walter Carvalho. Essa estética bicolor é, na verdade, também protagonista, porque fala de um Brasil frio e opaco. Um país vivenciando, de fato, o espírito de estar à deriva. O preto-e-branco adotado pelo diretor de fotografia, retira todo os adereços, as distrações, e foca naquilo que é o essencial: a realidade seca dos personagens, párias em terra estrangeira. 

O filme foi bem aceito pela crítica e pelo público em geral, marcando o reinício do cinema brasileiro no cenário dos festivais internacionais. Acabou vencedor do Prêmio Golden Rosa Camuna como Melhor Diretor; Grand Prix, Melhor Filme Estrangeiro; Margarida de Prata, Melhor Filme; e troféu APCA, Melhor Roteiro. 

Terra Estrangeira x Terra Arrasada 

Podemos dizer que a imagem de um navio encalhado numa praia, que acabou inspirando o filme Terra Estrangeira, era a metáfora ideal para o Brasil em meados de 1990. 

O momento histórico da criação do filme foi marcado pela completa desilusão nacional. 

O Brasil, presidido por um falso caçador de marajás, acabou se perdendo em meio à inflação descontrolada e medidas econômicas caóticas, com aumento claro no nível de pobreza da população. 

O presidente Fernando Collor também opta por atacar a cultura e a educação. Em março de 1990, ao assumir a Presidência da República extinguiu o Ministério da Cultura. Um mês depois, o Programa Nacional de Desestatização deu fim à Embrafilme e, do dia para a noite, toda a estrutura que mantinha a indústria de cinema foi desestruturada. 

Houve, inclusive, o confisco da poupança de todos os brasileiros, que acabou por provocar um aumento na taxa de suicídio e fuga do país, ou seja, a busca por uma maior estabilidade em terra estrangeira. Fica claro, aqui, o sentimento de completa deriva do povo brasileiro, o que justifica a metáfora do barco que deu origem a filme.  

Há terreno fértil para um Terra Estrangeira, segunda temporada?  

Como dizia Karl Marx, a história se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa.

Terra Estrangeira não esconde os motivos para o qual foi filmado. Ele vivifica os anseios de um país em declínio e, por conseguinte, remonta os sonhos de seu povo, em meio a transformações vitais. 

O filme possui uma potência singular, por mostrar um mundo dividido, fracionado. A desilusão é latente, seja no comportamento dos personagens, especialmente dos protagonistas, como no acúmulo de empecilhos que surgem durante a trama, dando margem à prevalência da obscuridade, de forças nefastas.

Recém liberto do julgo da ditadura civil-militar, e, portanto, sem nortes muito claros, o Brasil daquela época se refazia dos escombros, ansiando por melhores perspectivas pós redemocratização. Esse é o alicerce do filme, com todos os seus desdobramentos.  

Fernanda Torres em cena no filme "Terra Estrangeira". Foto: Divulgação
Fernanda Torres em cena no filme “Terra Estrangeira”. Foto: Divulgação

E, 25 anos depois, o que o filme nos diz dos tempos atuais? Podemos afirmar que, no Brasil, voltamos ao ponto de partida de Terra Estrangeira? Talvez sim. 

Precisamos falar, novamente, de Terra Estrangeira, para relembrar que as coisas são cíclicas. 

Walter Salles e Daniela Thomas capturam o espírito do seu tempo. Por meio da arte, demonstraram uma fissura no imaginário nacional e no sentimento de país do futuro.  

Com a vitória de Jair Messias Bolsonaro, no pleito de 2018, já havia um prenúncio de maus tempos novamente. 

Atrás de um fantasioso discurso de combate ao comunismo que, segundo o presidente, cooptou a cultura e a educação. Sendo assim, voltamos rapidamente ao cenário arrasador que serviu de impulso para a criação do filme Terra Estrangeira, de Salles. 

A extinção do Ministério da Cultura já dava sinais de uma revisão histórica. A instituição foi transformada na Secretaria Especial da Cultura, subordinada à pasta da Cidadania. Isso já representou o ponto inicial de uma coleção de conflitos entre a classe artística e o governo.

As ações do governo na Cultura em 2019 tiveram duas tônicas. A censura voltou a ameaçar a livre expressão de artistas subsidiados por verba pública, com agressividade que não se via desde a redemocratização. Além disso, a indústria do audiovisual, que vinha registrando crescimentos sucessivos e levava o cinema nacional para os principais festivais do mundo, foi freada com paralisações e cancelamentos de prêmios e patrocínios.

Já entre as primeiras medidas para o setor, o presidente Jair Bolsonaro questionou o patrocínio das empresas estatais à cultura. Assim, reduziu a patamares insignificante o montante de incentivos na Caixa Cultural, no Banco do Brasil e nos Correios.

Sucateamento

O governo anunciou ainda que a fatia mais robusta, vinda da Petrobras, deixaria de existir. Seria realocada para programas de educação e produção tecnológica, escolhida por critérios ideológicos. O corte provocou preocupação, sobretudo nas direções dos grandes festivais de cinema.

Recentemente, foi publicado o Decreto 10.755/21, que regulamenta a Lei 8.313/91 – a Lei Federal de Incentivo à Cultura, também conhecida como Lei Rouanet. As mudanças estão gerando preocupações na área artística. Ao invés de ampliar investimentos e criar mecanismos de retomada para o setor cultural, as novas medidas do Governo Federal trazem restrições, exclusões de conteúdos e limitações no processo decisório.

Por exemplo, a Comissão Nacional de Incentivo à Cultura deixou de ser um órgão de deliberação para ser uma instância recursal que não delibera mais. A Secretaria Especial de Cultura e do Ministério Turismo, concentrada em nomes indicados pelo Presidente da República, poderá dizer quais instituições são relevantes ou não relevantes. O que unilateralmente poderá impossibilitar ou inviabilizar a liberação de recursos para determinado projeto que venha a ser considerado inadequado para a ala ideológica do governo.  

O filme Terra Estrangeira, portanto, a seu modo, retrata esse embate entre o ímpeto da juventude e da mudança e as barreiras impostas pela conjuntura sócio-política. Ele faz uma abordagem dura e melancólica da realidade, sem desacreditar no possível à sua maneira. 

Nada mais atual, portanto, tratando-se de Brasil em pleno 2021. 

A melodia de Vapor Barato, um dos grandes clássicos da MPB, acompanhava sutilmente boa parte da viagem dos protagonistas Paco e Alex. Fala-se de um cansaço e do desejo crescente de ir embora, ser estrangeiro em algum lugar, diante de um cenário desolador.  

Esse filme, em que Salles divide a direção com Daniela Thomas, traz as marcas de seu tempo. Tempo em que era possível entrever as contradições de um mundo cada vez mais integrado, mas com pessoas cada vez mais desenraizadas. Desenraizadas não de uma nacionalidade ou de outra, mas da dignidade, da cidadania, e da relação com o outro.

Quando tudo se direciona ao terreno da indefinição, com ares de possível tragédia, rever o filme Terra Estrangeira nos faz lembrar que a desesperança passará, sendo ela efeito de uma época e de uma política de governo. O filme encena uma metáfora que nos leva além das fronteiras, além das diferenciações culturais, arrebentadas pelo movimento histórico de continuidade e ruptura. 

Poster de Terra Estrangeira/Divulgação
Poster de Terra Estrangeira/Divulgação

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