Curadoria de informação sobre artes e espetáculos, por Carolina Braga

Cinema de Minas mostra vigor em segundo dia da Mostra de Tiradentes

Festival exibiu curtas e longa que demonstram crescimento coerente da produção do estado

Por Carol Braga

20/01/2019 às 16:42

Publicidade - Portal UAI
Foto Beto Staino/Universo Produção

“Tenho cada vez mais vontade de fazer filmes focados na questão cotidiana”, diz André Novais Oliveira. Com três curtas e dois longas no currículo, todos eles premiados, o desejo do cineasta mineiro só confirma a coerência como vem construindo a carreira. O cinema do André é sobre o cotidiano. Cada vez mais.

Temporada, longa já em cartaz no circuito comercial e exibido dentro da mostra Homenagem em Tiradentes é sinal disso. Já premiado como melhor filme no Festival de Brasília, narra a jornada de transformação de uma mulher (Grace Passô). Processos pessoais como este nem sempre são tranquilos. Mesmo assim, André narra o crescimento dela com profundidade e humor.

Debate

O longa foi debatido na manhã de domingo. A mediadora da mesa, a curadora Tatiana Carvalho Costa destacou de maneira muito pertinente como Temporada, de certa maneira, é também fruto da luta que artistas negros como Conceiçao Evaristo, Zezé Motta, Ruth de Souza e outros. “É uma espécie de agradecimento a quem veio antes para que a gente seja esse futuro”, destacou.

A historiadora e crítica Natália Batista fez as primeiras reflexões sobre o trabalho. Ela começou dizendo o que achou estranho um ponto comum identificado em diversas críticas publicadas sobre o filme. Segundo ela, muitos textos dizem que não acontece nada em Temporada quando, na verdade, acontece tudo.

“É um filme carregado de nuances e de significados muito profundos. Essa questão mostra o quanto nosso olhar tem que mudar para entender essas produções”, refletiu. A historiadora destacou a relação que o filme tem com o espaço urbano e as questões que dali surgem. “Temorada tem a capacidade de ser político sem dizer do político”.

Na análise de Natália, o roteiro de André Novais Oliveira aborda questões de classe, fala sobre precariedade no mercado de trabalho, as dores e as delícias de se morar na periferia, a distância dos grandes centros, a precariedade na saúde. O filme trata também sobre racismo.

 

Temporada – Foto: Wilssa Esser/ Divulgação

 

Elenco

Além de todas as temáticas que o longa aborda, vale destacar também o trabalho de interpretação. O elenco formado por Grace Passô, Russo APR, Rejane Faria, Hélio Ricardo, Ju Abreu, Renato Novaes, Sinara Teles e Janderlane Souza é tão afinado que muitas vezes passa a impressão de que o que dizem partiu de improvisações.

De acordo com o diretor, embora muitos diálogos tenham realmente surgido durante os ensaios, a maior parte das falas estava prevista no roteiro. “Sinto que o André vai esculpindo tudo com muita delicadeza. Tem uma relação muito detalhista com o texto”, afirmou Grace Passô.

Segundo o diretor, Temporada é um filme de pequenos conflitos que significam muita coisa dentro de um cotidiano. “Apontam para uma tentativa de identificação das pessoas. Queria que as coisas acontecessem internamente. Que o espectador conseguisse ver isso em algumas ações e até na falta de ações dela”, explicou.

Curtas mineiros

O segundo dia da Mostra de Cinema Tiradentes foi marcado também pela exibição de curtas-metragens que revelam a diversidade e a maturidade do cinema produzido em Minas Gerais. Entre os destaques Plano Controle, de Juliana Antunes e Noirblue – Deslocamentos de uma dança, de Ana Pi.

O primeiro mostra o interesse que o festival tem em acompanhar a carreira de cineastas revelados por aqui. Juliana venceu – com louvor – a Mostra Aurora de 2017 com o longa Baronesa. Plano Controle é o primeiro curta dela. Aborda, com humor, o universo distópico em que estão à venda planos de teletransporte.

Já Noirblue é o resultado de uma viagem pessoal da bailarina Ana Pi que acabou se transformando em um curta premiado. Ela visitou nove países da África e, a partir da experiência, reflete de maneira muito poética sobre a própria ancestralidade, o futuro, a liberdade e outros temas.

 

 

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