Curadoria de informação sobre artes e espetáculos, por Carolina Braga

“A Ordem do Tempo” e as reflexões sobre a vida

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Filme italiano “A Ordem do Tempo”, de Liliana Cavani, está em cartaz na capital mineira, em uma das salas do Cineart Ponteio

Patrícia Cassese | Editora Assistente

Um grande meteoro – batizado como Anaconda – está se deslocando no espaço a uma velocidade acima da habitual. Detalhe: não há meios de interferir na rota dele. Pior: há uma chance bem real de a Terra ser atingida e, com o impacto, a maioria esmagadora das formas de vida seria imediatamente eliminada. Entre elas, a do ser humano. A notícia vem sendo de certa forma camuflada pela mídia e pelos institutos de astronomia. E por um motivo dos mais simples: não tendo nada a fazer, o melhor é não alarmar a população. Mas, pouco a pouco, o cerco à divulgação da tragédia iminente escapa do controle. Bem, quem for aos cinemas assistir a “A Ordem do Tempo” às cegas, sem ler absolutamente nada sobre o trabalho, certamente só vai se dar conta deste argumento passado um certo tempo do filme.

Em BH, o filme italiano "A Ordem do Tempo" pode ser visto no Cineart Ponteio (Pandora/Divulgação)
Em BH, o filme italiano "A Ordem do Tempo" pode ser visto no Cineart Ponteio (Pandora/Divulgação)

No entanto, não há como tecer um comentário sobre o longa de Liliana Cavani (hoje com 91 anos) sem abordar esta que é a espinha dorsal da trama. E que, na verdade, está na sinopse do filme em cartaz em BH, certamente consultada por muitos dos que irão à sala de exibição. Bem, fato é que a notícia do fim dos tempos cai no colo de um grupo de amigos, na faixa dos 50 anos. Pessoas reunidas em uma casa à beira-mar para festejar o aniversário de Elsa (Claudia Gerini). Advogada, ela é esposa de Pietro, interpretado por Alessandro Gassman – sim, filho do inesquecível Vittorio Gassman (1922 – 2000), ator de vários filmes de Ettore Scola, como “Nós Que Nos Amávamos Tanto”.

Anaconda

Além dos casais e “avulsos” que compõem o círculo, também estão, ali, na praia, mais duas pessoas. São elas a empregada, Isabel (Mariana Tamayo) e Anna (Alida Baldari Calabria), filha de Pietro e Elsa, além de um cão. E é a empregada a primeira a manifestar o medo ante a ameaça do fim da vida no planeta. No caso, ela ouviu rumores da colisão por meio de uma emissora de rádio de seu país natal, o Peru. Aliás, um fato a chamar atenção, e que aponta para o velho preconceito contra os países do chamado terceiro mundo. Ao falar que quer voltar para casa, de modo a ficar com o filho neste desenlace da vida, Viktor, um dos integrantes do grupo (vivido pelo ator alemão Richard Sammel) desdenha. Afinal, que sentido faz acreditar no que seria um boato divulgado por “uma rádio do Peru”?

Cena do filme italiano "A Ordem do Tempo", em cartaz na cidade (Pandora/DIvulgação)
Cena do filme italiano “A Ordem do Tempo”, em cartaz na cidade (Pandora/DIvulgação)

Ocorre que um dos membros do grupo – Enrico (Edoardo Leo) – é um físico que está totalmente inteirado do risco – até então, estava escondendo dos amigos. A partir do momento em que todos se inteiram que não há nada a fazer, apenas esperar – e torcer para a mínima chance de o asteroide seguir seu percurso sem atingir a crosta terrestre e fazer tudo explodir -, a comemoração do aniversário vai sendo paulatinamente deixada de lado. Melhor dizendo, cedendo espaço a uma espécie de autoanálise (cada personagem revendo a vida), bem como de cartas na mesa. “A pedra na nossa cabeça nos faz falar”, diz, a certo momento, Greta (Valentina Cervi).

Cartas na mesa

Assim, em duplas ou trios, cada um vai revelando verdades ou trazendo à tona episódios do passado que, de certa forma, ficaram camuflados ou não foram bem elaborados. Neste rol, entram, por exemplo, as traições. Ou arrependimentos de não ter se lançado a uma outra maneira de viver que não aquela à qual o destino encaminhou – mesmo por escolhas que não obedeceram a desejos internos. E sobretudo rancores.

Em meio a toda a angustiante espera pelo meteoro, os personagens não só reveem o passado como divagam sobre o tempo. O tempo que se foi (tempus fugit), o tempo que escorre, o tempo que voa, o tempo desperdiçado, o tempo que pode ser interrompido bruscamente, de modo alheio à nossa vontade. Aliás, a própria existência do tempo, ou o jeito que a humanidade deu de mensurá-lo. Tal qual, a realidade da finitude que foge a qualquer controle.

Reflexões

São reflexões que, no caso do filme, a diretora acerta ao colocar na voz de personagens de meia-idade. Afinal, trata-se de uma faixa etária na qual tal balanço é praticamente inevitável. E assim chegamos ao ponto a partir do qual não é possível mais avançar sem revelar os rumos da história. De todo modo, vale ressaltar que Cavani construiu – a partir do livro homônimo, de Carlo Rovelli, físico teórico e especialista em gravidade quântica,- um filme redondo. Um título que certamente vai fazer com que o espectador também seja impelido a refletir sobre as escolhas de vida – mesmo os que não alcançaram ainda a chamada meia idade. E, convenhamos, analisar escolhas e rever caminhos nunca é demais, em qualquer fase da vida. Principalmente quando há tempo e chances de mudar.

Liliana Cavani

A italiana Liliana Cavani nasceu em 1933, em Carpi, na Itália. Entre os filmes que dirigiu, destaca-se, por exemplo, “O Porteiro da Noite”, de 1974, que alçou Charlotte Rampling à fama. Outros filmes que levam a direção dela são “A Pele” (1981), com Marcello Mastroianni, Burt Lancaster e Claudia Cardinale; e “O Retorno do Talentoso Ripley” (2002), John Malkovich (e Lena Headey, que depois veio a se tornar mundialmente conhecida em “Game of Thrones”, onde deu vida a Cersei Lannister). Recentemente, fez “Ennio, o Maestro”, sobre a vida do saudoso Ennio Morricone (1928 – 2020). Também dirigiu documentários como “As Mulheres na Resistência”, além de ter lançado livros.

Serviço

“A Ordem do Tempo” (L’Ordine del Tempo, Itália) – Liliana Cavani – 1h 53m. Pandora Filmes

Onde. Ponteio Lar Shopping (Saída Rodovia Br 356, 2500 – Santa Lúcia)

Em cartaz desta quinta-feira, dia 13 de junho de 2024, até, ao menos, a próxima quarta, dia 19, quando a programação das salas de cinema brasileiras é alterada.

Sessão às 21h05.

Confira o trailer


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