Curadoria de informação sobre artes e espetáculos, por Carolina Braga

Teatro negro performativo por meio da trajetória de Maurício Tizumba é tema de livro de Júlia Tizumba

Artista filha de Maurício Tizumba usa o pai como referência para destacar a potência e características do teatro negro brasileiro no livro “Caras e caretas de um Teatro Negro Performativo”
teatro negro performativo
Ccapa do livro "Caras e caretas de um Teatro Negro Performativo". Crédito: Editora Javali / Divulgação

O teatro negro brasileiro é forte, potente, ancestral e com legado ímpar. Entretanto, essa história começou a ser ignorada com os resquícios da colonização, que reverbera racismo e apagamento da cultura negra até os dias atuais. Dessa forma, para dar mais um passo e mudar esse cenário, a multiartista e pesquisadora Júlia Tizumba embarcou na história do pai, Maurício Tizumba, atrelada a teorias de pensadores e ao teatro negro performativo para escrever o livro Caras e caretas de um Teatro Negro Performativo

A obra é fruto da dissertação de mestrado defendida na Escola de Belas Artes da UFMG. “Pensando em mim como uma mulher negra, artista, de uma família de artistas negros militantes, o caminho para eu querer estudar o teatro e a arte negra foi muito natural”, descreve a artista. “Porque era um desejo de contar e investigar a minha própria história. Como eu tinha meu pai tão perto, eu me encorajei e disse: por que não? Se a gente não contar a nossa história e valorizar nossos saberes, quem vai?”, explica. 

Resgate, registro e criação de um novo legado

Apesar de atuar como artista e ter passado, assim como o pai, pelo Teatro Universitário, Júlia Tizumba também embarcou na carreira acadêmica. Estudou jornalismo e voltou para a universidade para a pós-graduação como um ato político consciente. “Foi um desejo de ocupar esse espaço da universidade que ainda é muito elitizado. Sobretudo a pós-graduação”, recorda. Então, como uma mulher negra e que cresceu em um meio social e cultural cercado dessas vivências, trouxe isso para a pesquisa. 

Foi aí que desenvolveu a pesquisa sobre um recorte do teatro que, muitas vezes, é esquecido no Brasil. Para entender o teatro negro performativo, Júlia explorou percursos fundamentais. Por exemplo, abordou o Teatro Experimental do Negro, que surgiu para criticar a falta de representatividade e valorizar o teatro negro, encabeçado por Abdias do Nascimento, e o teatro Popular Brasileiro de Solano Trindade. Este segundo, por sua vez, era composto por domésticas, estudantes e operários. Além disso, Júlia passou por produções da contemporaneidade, como as que tiveram Maurício Tizumba participando e a Mostra Benjamin Oliveira, em Belo Horizonte.

Sendo assim, unindo a pesquisa, a publicação do livro, a atuação como jornalista e as aulas de percussão que ministra na Associação Cultural Tambor Mineiro, Júlia quer contar a história apagada e criar um legado. “Hoje eu tenho a oportunidade de dar aula para jovens artistas negros e mostrar que existiu Abdias do Nascimento, que existe Maurício Tizumba. Deixar o legado para servir de força motriz para uma continuidade. Estamos construindo a história presente”, salienta Júlia Tizumba. 

Em resumo, falar de teatro negro performativo é dizer ele é quando os artistas negros estão em cena trazendo a corporeidade negra. Além disso, a ancestralidade, memória e identidade. Ou seja, se colocando como protagonistas e autores da própria história e arte. 

Dissertação x livro

O diálogo entre teorias, história do teatro negro e das próprias vivências artísticas estão presentes no livro, assim como na dissertação. Mas também tem coisa inédita. Ao longo da pesquisa, Júlia Tizumba conversou com o pai e o multiartista Sérgio Pererê. As entrevistas tinham o recurso metodológico para construir a dissertação. Entretanto, resolveu colocar na íntegra o papo com os dois. “Achei fundamental trazer a palavra deles para que os leitores possam se encontrar com o pensamento desses mestres na íntegra”, detalha Júlia.

Além disso, o livro tem a publicação inédita da dramaturgia da peça O negro, a flor e o Rosário, escrita por Maurício Tizumba. O objetivo é mostrá-lo não só como ator e diretor, mas também como dramaturgo. 

Júlia Tizumba e a relação com a arte

Nascida em família de artistas, Júlia Tizumba teve o pai como principal referência. Foi ele que a ensinou a cantar e a tocar tambor, foi também a primeira referência em performance. Assim como Maurício, se formou no Teatro Universitário da UFMG. Atualmente é doutoranda em Artes Cênicas pela Escola de Belas Artes da UFMG, integrante do Coletivo Negras Autoras, é atriz na Companhia Companhia Burlantins e uma das idealizadoras da Mostra Benjamin de Oliveira. Já fez parte de musicais como Elza, O frenético Dancin’Days e Zumbi, o Negro. 

O livro Caras e caretas de um Teatro Negro Performativo é publicado pela editora Javali. Ela é a primeira em Belo Horizonte a se dedicar às publicações de teatro. Compre aqui.

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Júlia Tizumba. Foto: LuizaVillarroel / Divulgação

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