Curadoria de informação sobre artes e espetáculos, por Carolina Braga

“Subterrânea: Uma Fábula Grotesca” estreia no Sesc Palladium

Gostou? Compartilhe!

Solo da artista Juliana Birchal, “Subterrânea” terá sessões no Teatro de Bolso do espaço de amanhã a domingo

Patrícia Cassese | Editora Assistente

Desde o início, o universo fantástico se impôs com força na feitura dramatúrgica de “Subterrânea – Uma Fábula Grotesca”, solo que a artista Juliana Birchal estreia nesta sexta, no Teatro de Bolso do Sesc Palladium. Ao estruturar a narrativa – que traz a premissa de “abordar a trajetória de uma mulher-cigarra que, uma vez nascida cigarra, deve se conformar a cumprir o seu papel: acasalar, reproduzir e morrer” – o fantástico já se fazia perceptível tanto na forma de abordar o próprio inseto quanto na própria natureza do trabalho com máscaras.

Os rumos da sociedade brasileira inspiram "Subterrânea: uma Fábula Grotesca", da artista Juliana Birchal (Victor Vieira/Divulgação)
Os rumos da sociedade brasileira inspiram "Subterrânea: uma Fábula Grotesca", da artista Juliana Birchal (Victor Vieira/Divulgação)

“E, em se tratando da cigarra, é impossível não pensar na fábula ‘A Cigarra e a Formiga’ (clássico de autoria atribuída a Esopo e mais tarde atualizado por La Fontaine). Pensamos, então, que seria interessante nos apropriarmos da estrutura dela para, assim, contar, em ‘Subterrânea’, a nossa história”, pontua a atriz e palhaça que, nascida em Minas, reside atualmente em São Paulo, onde faz mestrado em artes cênicas pela ECA-USP. Especificamente, em sua pesquisa, Juliana investiga os mascaramentos do Théâtre du Soleil, companhia internacional com quem realizou residência artística entre 2014 e 2016.

Ordem natural das coisas (ou não)

Já a palavra “Grotesco”, no subtítulo de “Subterrânea”, prossegue ela, anuncia para o público que se trata de uma fábula um tanto bizarra. “E que não corresponde à impressão de leveza e graciosidade que a palavra ‘fábula’ de pronto sugere”, acrescenta a atriz, ao Culturadoria. Como o material de apresentação da montagem informa, na peça, pelo bem da espécie, a mulher-cigarra reproduz o próprio sistema que a reprime, mantendo assim, a ordem natural das coisas.

Assim, em “Subterrânea”, o ciclo de vida “desse inseto tão curioso, traz consigo a representação da figura feminina na sociedade patriarcal”. Figura esta que, muitas vezes, “acredita que a sobrevivência depende do cumprimento das obrigações que o próprio sistema impõe”.

Vítima e algoz

Juliana comenta que a Mulher-Cigarra não tem um nome no espetáculo, mas, sim, papeis, funções. “À medida que vamos acompanhando a sua trajetória, esses papeis vão evoluindo: primeiro, ninfa, depois, noiva e, por fim, dona de casa. O público presencia essa transformação em cena, e ela se reflete também na caracterização. Para poder se encaixar nesses papeis sociais, a Mulher-Cigarra se anula, se molda, o que a faz ser vítima deste modelo”.

Ao mesmo tempo, prossegue Juliana, a personagem central de “Subterrânea” também tem seu lado algoz. “À medida que ela reproduz esse mesmo sistema, reprimindo qualquer outra mulher-cigarra que se oponha a ele”, explica a atriz.

Contradições e violências

Vale dizer que acontecimentos políticos, sociais e comportamentais que se desenrolaram no Brasil nos últimos anos acabaram também afetando a construção dramatúrgica, como assume Juliana. “É que foram episódios que nos mostraram que ainda existe, no país, um pensamento extremamente conservador e colonialista. E esse pensamento possui força e influência sobre as nossas vidas”.

Assim, prossegue Juliana, “Subterrânea” coloca em cena uma mulher conservadora que, apesar de concordar com este modelo, acaba por revelar as contradições e a violência desse mesmo sistema sobre ela. “Nesse sentido, o espetáculo apresenta a transformação deste conservadorismo em violência, como algo que estava ali escondido no subterrâneo da nossa sociedade, esperando o momento certo para subir à superfície”, analisa.

Mais sobre a atriz

Juliana Birchal tem sua pesquisa concentrada no teatro físico e no teatro de máscaras. Em 2017, formou-se no curso de Formação Básica de Palhaço dos Doutores da Alegria. No teatro, trabalhou com a Cia. Picnic (2019-2022), O Trem Cia. De Teatro (2020), Fernando Neves (2017), grupo Espanca! (2010) e Juliana Pautilla (2010). É licenciada em Teatro pela UFMG e formada pelo curso profissionalizante em teatro do CEFART/Palácio das Artes (2008-2010).

Sobre estrear o solo “Subterrânea: Uma Fábula Grotesca” em BH, ela diz que, como uma parcela grande da equipe era daqui, fazia sentido. Depois, o espetáculo fará temporada em São Paulo. “E, a seguir, que venham os festivais de teatro para circulação”.

Evidentemente, ela se diz feliz por voltar a se apresentar por aqui. “Foi em BH que eu fiz a maior parte da minha trajetória (dos cursos livres no Galpão Cine Horto, à graduação em Teatro e profissionalizante no Cefar). Já faz quase 10 anos que não moro mais em BH, e é a primeira vez que retorno com um trabalho autoral. Então, é muito significativo poder mostrar esse percurso para o público mineiro em primeira mão”, festeja.

Serviço

Espetáculo “Subterrânea: Uma Fábula Grotesca”

Quando. 16, 17 e 18 de junho – sexta e sábado, às 20h; e domingo, às 19h

Onde. Teatro de Bolso do Sesc Palladium (Rua Rio de Janeiro, 1.046, Centro)

Ingressos: R$ 30 (inteira) / R$ 15 (meia-entrada) (quem levar 1 kg de alimento não perecível tem direito a meia)

Link para compra de ingressos: https://bileto.sympla.com.br/event/82408/d/192164/s/1295346

Classificação indicativa: 14 anos

Gostou? Compartilhe!

[ COMENTÁRIOS ]

[ NEWSLETTER ]

Fique por dentro de tudo que acontece no cinema, teatro, tv, música e streaming!

[ RECOMENDADOS ]