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Solitária: O embate contra o Brasil (ainda) escravocrata

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As mulheres são as protagonistas do novo romance de Eliana Alves Cruz, “Solitária”, lançado pela Companhia das Letras.

Por Gabriel Pinheiro | Colunista de Literatura

Mabel e Eunice, mãe e filha, duas gerações de mulheres negras e periféricas. Juntas, elas moram no trabalho de Eunice, em um condomínio de luxo. Ela é trabalhadora doméstica. Na impossibilidade de permanência da filha com a avó doente, a mãe leva Mabel consigo para o quartinho reservado à ela na residência. “Para quem não era patrão tudo era “‘inho’”. As mulheres são as protagonistas do novo romance de Eliana Alves Cruz, “Solitária”, lançado pela Companhia das Letras.

Quando criança, ao ver a mãe cuidando da filha dos patrões – uma bebê que parecia tanto com as bonecas, branca, rosada e risonha – Mabel perdeu o interesse por elas. Assim, aquilo deixara de ser diversão quando viu que era trabalho, muito trabalho. Neste ambiente, onde trabalho, exploração e afeto se misturam, mãe e filha, pouco a pouco, se distanciam. Mabel quer se afastar de um destino que repita a vida de Eunice. “Esse sentimento foi o embrião de um afastamento entre nós, que precisaria do remédio do tempo para curar”. 

As vozes narrativas

“Solitária” é dividido em três partes. Sendo assim, na primeira, a voz narrativa é de Mabel. Então, acompanhamos o sentimento de revolta e indignação que se sedimenta dentro da narradora dia após dia, ano após ano, ao lado da mãe. Na segunda parte, conhecemos a história pelo olhar de Eunice. Eliana Alves Cruz, em certa medida, reconta uma mesma narrativa por um segundo ponto de vista. Aqui o olhar é, por vezes, obliterado pelo afeto, que mascara a violência da relação com os patrões. “Acho que às vezes a gente está numa situação ruim, mas se acostuma com ela e não quer sair por que é ruim, mas é conhecido. Era assim que eu me sentia trabalhando na casa de d. Lucia”.

Na terceira parte, a autora aposta em vozes narrativas que surpreendem, tamanha a inventividade. Não digo muito para não entregar a experiência, mas, digamos, que, entre essas vozes, há uma que tem um olhar muito privilegiado para os dramas e traumas vividos por mãe e filha.

A invasão do real 

Manchetes de jornais brasileiros invadem a ficção do livro. A autora incorpora no texto a história da criança que, sob responsabilidade momentânea da patroa da mãe, cai do alto de uma janela. E também os inúmeros casos de denuncias que revelam casos de trabalho infantil doméstico ou de pessoas vivendo décadas em condições analogas à escravidão. Ao olhar para as janelas do condomínio de luxo, Eunice repara nas inúmeras bandeiras do Brasil penduradas pelos moradores: “Será que sempre tinham estado ali?”. Há, ainda, a pandemia e as outras pestes que se insinuam com ela: a fome e o desemprego.

É bonito, por exemplo, como Eliana traz para a narrativa autoras como Conceição Evaristo e Carolina Maria de Jesus, escritoras que já falaram sobre mulheres como Eunice e Mabel e sobre os quartos habitados por elas. Autoras que serão essenciais para o crescimento e para a construção da consciência da jovem Mabel e que ela apresentará à mãe: “Elas pararam a leitura do dia nesse ponto porque Eunice molhou as páginas daquele livro, Quarto de despejo, com seu pranto.”

Assim, Eunice nos diz do sacrifício que era se tornar invisível. Ou seja, como se esta fosse uma atribuição inerente à trabalhadora doméstica, restrita a espaços diminutos e tendo o silêncio como companhia constante. “Era preciso estar presente sem estar”. Não aqui. Eliana Alves Cruz, em “Solitária”, dá corpo e volume a vozes historicamente silenciadas. A potência reside no diálogo – e também no embate – entre as gerações de mulheres que retrata: a emancipação de uma geração que inspira e encoraja a libertação de outra. Um efeito cascata, uma revolução.

Capa do livro Solitária. Crédito: Companhia das letras)
Capa do livro Solitária. Crédito: Companhia das letras)

Encontre “Solitária” aqui

Gabriel Pinheiro é jornalista e produtor cultural, sempre gasta metade do horário de almoço lendo um livro. O Instagram é @tgpgabriel (https://www.instagram.com/tgpgabriel/)

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