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Bandas de BH lançam singles em que refletem sobre a vida e o presente

Devise por Sarah Leal

Bandas Devise, Dolores 602 e Radiotape estão com novos singles na praça para anunciar álbuns que em breve devem chegar às plataformas de streaming

Por Arianne Ruas | Culturadora

O cenário do rock alternativo de Belo Horizonte ferve em novidades. Para que incríveis canções não passem sem a devida atenção na enxurrada de lançamentos, fizemos uma análise cuidadosa de algumas que você não pode deixar de ouvir. Todas foram lançadas por bandas de rock da cidade que misturam influências de diversos estilos. 

Aurora – Devise feat. Ysee

A Devise é uma banda que se destaca há bastante tempo no rock alternativo mineiro. Cada um dos integrantes traz suas próprias referências. O resultado é uma mistura de influências do brit-pop e do indie rock combinadas a referências nacionais. O single “Aurora”, chegou às plataformas no dia 24 de setembro anunciando o lançamento do álbum “Depois de Abrir os Olhos”. Como tem sido comum, é um trabalho que foi adiado por mais de um ano devido à pandemia. Na faixa, contam com os vocais da francesa Ysee, integrante do Noel Gallagher’s High Flying Birds, grande referência da banda. 

O single representa o início de um novo momento para a Devise. Ou seja, além do início do lançamento do disco, a retomada cuidadosa aos estúdios. É um símbolo de mudança sob diversos aspectos. Desde o título, que significa início da manhã ou princípio de algo. Na letra, proclama a quebra do que existe para o início de uma nova conjuntura: “as ruas já ecoam nosso tambor, para anunciar a aurora de outros tempos que vão chegar”. 

Single Aurora da banda Devise
Esperança

Em relação com o contexto vigente brasileiro, a música ganha sentido de esperança contra as circunstâncias de caos político, social e sanitário. O refrão grita “já raiou nosso dia/ a verdade é quem brilha mais” e, assim, canta a vinda de um momento que se contrapõe ao cenário de negacionismo atual, em que mentiras contaminam os meios públicos, a política e as redes sociais. Apesar do tom esperançoso, o trabalho também carrega uma força raivosa, como um desgosto entranhado por muito tempo, que se liberta em sons explosivos.

Não só a voz rasgada de Luís Couto, como todos os instrumentos parecem gritar essa mensagem de ruptura. O tambor, mencionado na letra, ganha uma representação impecável na percussão grave do início. Junto a um solo de guitarra e a outra percussão que se assemelha ao som de corte, cria uma atmosfera épica de marcha a um grande acontecimento. Ou melhor, a aurora de outros tempos, como diz a letra. Nesse futuro, nós, sobreviventes de tempos sombrios pandêmicos, cantaremos nossas vidas, com todo amor nas esquinas.    

Ouça – Dolores 602

A banda Dolores 602 também começa a abrir os caminhos para o lançamento de mais um álbum com o single “Ouça”. O grupo é formado por quatro mulheres compositoras e instrumentistas. Difícil conceituar a banda em um só estilo musical, algo que vem se tornando cada vez mais comum na contemporaneidade, em que os artistas são uma grande mistura de gêneros e transitam ao redor deles ao longo dos trabalhos. Mas, no geral, a banda possui fortes elementos do rock alternativo, do indie-pop, do folk e da MPB.

“Ouça” surge como um exemplo dessa transitoriedade e efervescência criativa a qual muitos músicos e grupos passam ao longo da carreira. No single, as artistas inauguram uma nova forma de produção musical. Ou seja, agregam elementos eletrônicos, como beats e sintetizadores – um desejo que já existia na banda. Dessa forma, só fortalecem uma identidade marcante que consiste em não ser estável. E mais: que não é facilmente colocada em uma caixinha de gêneros musicais, mas fluída e híbrida. 

Porém, é claro, algumas coisas características do trabalho das quatro permanecem. Apesar de inovarem nos instrumentos utilizados, a melodia continua estilo Dolores 602: produzida para emocionar. As entradas de instrumentos e de vocais são muito bem pensadas na faixa e fazem arrepiar os pelos do corpo. 

Nas produções das musicistas, investigações interiores e sociais viram poesia. O olhar atento e reflexivo que se transforma em versos extremamente bem escritos é bastante presente em “Ouça”. A faixa propõe a quem escuta que também exerça esse movimento de atenção a si mesmo e ao que lhe cerca. Em um mundo regido pela velocidade e produtividade, em que se corre bastante perigo em automatizar e não reparar a vida, o single é um chamado à escuta. 

Dolores 602. Foto: Fernanda Polse/Divulgação

Só Dependia De Mim (Acústica) – Radiotape

Como Dolores 602, a banda Radiotape também experimentou uma nova forma de produção neste último lançamento. As referências do grupo são vastas, mas circulam principalmente ao redor do rock. Citam nomes como Beatles, Strokes, Nada Surf, Mutantes, Lô Borges e Roberto Carlos. Dessa vez, porém, a inspiração veio com mais força do artista Neil Young, um expoente do folk.

No lugar dos solos de guitarra e da bateria marcante, instrumentos característicos do estilo ganham maior foco, como banjo, gaita e violão. Para que essa experimentação fosse possível, contaram com a participação de artistas mais familiarizados ao folk. Convidaram Rafael Carvalho (Sliced Hearts) no banjo, Digo Leite (Moons) na gaita e Felipe Sabbá (Joy Corporation) nas orquestrações. A banda se apoia em um rock de atmosfera mais iluminada e menos melancólica. Na faixa, os integrantes souberam encaixar essa identidade na proposta folk de forma brilhante.

“Voei até você”, repete várias vezes a música. O single parece narrar uma busca, em alguém, por algo que se precisava. Mas, metaforicamente, também pode dizer de um voo não necessariamente a alguém, mas a algum lugar, algum objetivo, algo exterior. Nessa busca, o eu lírico parece se perder de si mesmo: “caminhei sem rumo, encontrei o mar, perdi meus anseios, me deixei levar”. Fica evidente que a canção representa a procura de alguma coisa no mundo. E mais: uma consequente descoberta de que a busca é vazia, o que precisava estava em si. 

Assim, no momento atual, em que o sucesso é frequentemente visto como sinônimo de felicidade, a busca incessante por conquistas pode dissimular o que realmente precisamos e somos. A música pode atuar como um lembrete. Ás vezes, o que a gente procura não está no outro nem no mundo, mas na gente.

Banda Radiotape. Frame do Videoclipe.

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