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Sete anos em maio: média-metragem vai ter distribuição comercial no cinema

Dirigido por Affonso Uchoa o filme relata a história de Rafael dos Santos Rocha e o seu trauma por causa da violência policial

Por Jaiane Souza *

29/01/2020 às 16:30 | * Escreveu com a supervisão de Carolina Braga

Publicidade - Portal UAI
Foto: Divulgação / Universo Produção

“Para o preto que morreu cedo demais”. A frase, que abre o filme Sete anos em maio, deixa subentendido o que está por vir: a morte precoce e a violência contra corpos negros na sociedade. É justamente sobre isso que o média-metragem trata ao relatar a vida de Rafael dos Santos Rocha. 

Um dia, ao chegar na sua casa em Contagem, ele foi surpreendido por policiais que o acusavam de tráfico de drogas. A denúncia anônima – e falsa – resultou em tortura e perseguição policial. Depois do ocorrido, Rafael foi para São Paulo, se envolveu mais uma vez com o crime, com as drogas e foi preso. De volta a Belo Horizonte, a fim de reconstruir a vida, o ciclo foi retomado. 

Em resumo, essa é a história que permeia os 42 minutos do filme de Affonso Uchôa, que fez sua pré-estreia nacional na 23ª Mostra de Cinema de Tiradentes. O projeto vai ter distribuição comercial em março deste ano em 12 capitais brasileiras. Mais uma vitória para o cinema e para os realizadores independentes. 

Linguagem

Affonso conheceu Rafael por meio de amigos em comum. Após algumas tentativas de levar a história para o cinema, descarte de roteiro e produções, deu certo! Sete anos em maio chegou à telona de forma magistral. Isso porque a narrativa transcende o formato tradicional de documentário e surpreende quem assiste. “Este filme carrega uma história de tentativas e erros, até que eu encontrei uma forma que considerasse justa de contar a trajetória do Rafael”, explica Affonso Uchoa. 

A surpresa surge quando Rafael Santos está relatando a sua história. O ator, podemos chamá-lo assim já que foram necessários diversos takes para chegar resultado final, está sentado olhando para a direita da câmera estática, como se tivesse conversando com um entrevistador. Entretanto, ao final do relato, é revelado que, na verdade, está acontecendo um diálogo entre dois personagens. Uma troca de experiências e reflexões cercadas pela violência. Dessa forma, o documentário cede para o ficcional e os gêneros dialogam. 

 

sete anos em maio

Foto: Netun Lima/Universo Produção

Temática

Assim como em Arábia, a reflexão central do filme é a narrativa de um povo oprimido, a qual o diretor faz muito bem quando leva as questões do individual para o coletivo. Existem muitos “Rafaeis” por aí, o dos Santos Rocha é um dos exemplos do que acontece todos os dias. Tanto é que, em determinado momento, o interlocutor de Rafael, Wenderson Patrício Neguinho, diz: “Já passei por tanta coisa que quase toda história que eu ouço parece a minha”. 

“Uma das minhas intenções com este filme é criar a ambientação perfeita. Ou seja, fazer com que pessoas brancas, privilegiadas, de classe média como a maioria de nós aqui (se referindo à sala de exibição na Mostra Tiradentes) ouçam durante 40 minutos essa história”, revela Affonso Uchôa ao destacar o tom político do filme. Ao ser perguntado sobre como se sentia ao se ver na tela, Rafael dos Santos Rocha se mostrou orgulhoso. “No começo eu pensei ‘eu já penso nessa história o tempo inteiro, agora vou ter que ouvir eu mesmo falando disso?’, mas agora isso me fortaleceu porque eu nunca fui ouvido, a polícia nunca me ouviu”.

Além de tratar diretamente do assunto, o diretor usa mais um artifício que faz o final de Sete anos em maio ser arrebatador. A brincadeira Vivo-Morto é utilizada no final para “remeter de forma lúdica ao militarismo da sociedade e da própria brincadeira. Quando Rafael é o último a ficar sob os comandos do líder (que está com farda policial) ele se recusa a se abaixa no comando de ‘morto'”, explica Uchôa. Mais um símbolo de resistência dos oprimidos.

Distribuição comercial do último filme

Sete anos em maio está com estreia prevista no circuito comercial para março (isso mesmo) junto com Vaga Carne (50 minutos), exibido na abertura da 22ª Mostra de Cinema de Tiradentes. O média acaba de ser selecionado Festival de Berlim 2020. O filme tem a direção de Grace Passô e Ricardo Alves Jr, com participação da Universo Produção.

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