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“Sessenta Primaveras no Inverno” e as viradas possíveis da vida

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Graphic novel da Editora Nemo, “Sessenta Primaveras no Inverno” enfoca o ponto de virada na vida de uma mulher madura

Patrícia Cassese | Editora Assistente

O que leva uma mulher a sair de casa e a deixar para trás a vida que levava – e que inclui marido, filhos e até, por vezes, agregados? A resposta a essa pergunta muitas vezes não está apenas em um motivo ou evento, mas, sim, na somatória de vários fatores que, somados, fazem com que uma pessoa atinja o tal ponto de saturação. Aquela famosa gota que faz o copo transbordar. Na verdade, uma iniciativa ainda rara, vinda da parte de mulheres. Mas é justamente sobre uma mulher que toma essa decisão que o livro “Sessenta Primaveras no Inverno” (Nemo/Autêntica) enfoca. Trata-se da tradução de uma graphic novel francesa, escrita por Aimée de Jongh e ilustrada pela holandesa Ingrid Chabbert.

A personagem Josy, protagonista de "Sessenta Primaveras no Inverno" (Nemo/Divulgação)
A personagem Josy, protagonista de "Sessenta Primaveras no Inverno" (Nemo/Divulgação)

Ponto de virada

No centro da narrativa de “Sessenta Primaveras no Inverno”, há Josy, uma mulher que está justamente completando as 60 primaveras a que o título faz menção. O tempo é de frio, mas o inverno também pode ter outros significados, aqui. Assim, enquanto a família de Josy – marido, filhos (Martin e Stephanie), genros e netos – estão na mesa, esperando a matriarca para as comemorações (bolo e velas inclusos), ela, sentada no quarto, percebe que simplesmente não dá mais para seguir assim.

Desse modo, Josy faz a mala e simplesmente anuncia que vai embora, deixando todos atônitos. Na verdade, Josy vira a chave de ignição da Kombi e promete que, se o motor ligar, será um sinal decisivo para seguir em frente. E sim, isso acontece.

Os primeiros dias

Já a bordo do veículo que por uns tempos será a nova morada, ao ver um pequeno trailer estacionado, Josy se aproxima e, desse modo, conhece a jovem Camélia, o filho pequeno da moça e uma “agregada” muito especial, a galinha Paulette… Do mesmo modo, em “Sessenta Primaveras no Inverno”, Josy também acaba por ter um agregado, um gatinho preto. Camélia ganha algum dinheiro fazendo faxinas e, assim, certa noite, é convidada para uma festa que acontecerá na casa de Martine, mulher para a qual presta o serviço. Companheira, ela trata de convencer Josy a ir com ela, para tentar distrai-la. Mesmo porque, a nova amiga anda atordoada, às voltas com as ligações insistentes dos filhos, que não se conformam com a atitude da mãe.

Clube das Vilãs Livres

Na casa de Martine, Josy conhece o Clube das Vilãs Livres, que, por sua vez, consiste em mulheres que, tal qual ela, deixaram os casamentos para trás no afã de conhecer a liberdade e de desfrutar aventuras. Daí, foram consideradas, pela sociedade, “vilãs” – um rótulo que nem sempre “pega” nos homens que fazem o mesmo. Assim, naquela noite, ela conhece Christine, uma das “vilãs”, de quem se aproxima e de pronto estabelece afinidades.

No entanto, em pouco tempo, as duas personagens de “Sessenta Primaveras no Inverno” se dão conta que há mais que um sentimento de amizade, ali. Daí, iniciam um relacionamento afetivo. Neste ponto, vale se deter sobre a representação dos corpos de mulheres maduras no traço de Ingrid Chabbert. Ou seja, há, ali, meticulosidade e respeito, mas zero preocupação em disfarçar as marcas normais a corpos que já passaram por gestações. E/ou marcas que, tal qual, são inerentes à passagem do tempo – pelo menos para aquelas que optam por não se submeter a intervenções cirúrgicas. Em tempo: observação sem julgamentos, que fique claro, pois cada mulher tem o direito de fazer o que se sente melhor.

Chave na ignição

Na verdade, ao deixar a família, Josy não tinha como meta dar início a um novo relacionamento assim, tão cedo. Mesmo porque, queria usufruir a liberdade advinda daquele ponto de virada. Assim, as duas acabam se distanciando, para desgosto de Christine, que não consegue entender o raciocínio da amiga. Passado certo tempo, andando na rua, Josy acaba tendo notícias da ex-companheira que lhe desnorteiam.

Para não estragar a fruição da leitura, é prudente parar por aqui, mas, desse modo, voltando ao início. O principal ponto sublinhado por “Sessenta Primaveras no Inverno” é que a vida é curta, e, sendo assim, talvez não devamos nos conformar em viver a nossa no piloto automático. Ou seja, sem emoções, acomodados, imersos em uma espiral que faz com que os dias simplesmente se repitam, sem espaço para surpresas. Como seres passivos que vivem a rotina sem se dar conta de que ali, logo ali, atrás dos muros, há muita coisa pulsando. Resta virar a chave na ignição. Se o carro ligar, quem sabe seja um sinal….

Serviço

“Sessenta Primaveras no Inverno”

Aimée de Jongh. Ilustrações: Ingrid Chabbert.

Tradução: Renata Silveira

Editora Nemo (Autêntica)
120 páginas

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