Curadoria de informação sobre artes e espetáculos, por Carolina Braga

Ronaldo Fraga compartilha memórias em livro de entrevistas

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“Memórias de um Estilista Coração de Galinha”, escrito por Sabrina Abreu e Ronaldo Fraga, será lançado neste sábado, 2 de dezembro

Patrícia Cassese | Editora Assistente

Logo na abertura de “Memórias de um Estilista Coração de Galinha” (Autêntica Editora), a jornalista e escritora Sabrina Abreu, que divide os louros da empreitada com o criador Ronaldo Fraga, lembra o momento em que se arriscou a enviar um e-mail ao mineiro, propondo-lhe a ideia de um livro de entrevistas. Assim que o apertou o botão “enviar”, Sabrina refletiu: “Era de se esperar que Ronaldo já estivesse comprometido a fazer um livro do tipo com outro jornalista – alguém célebre como ele”. Mas eis que, minutos depois, ela viu aparecer, na caixa de entrada, a resposta pela qual tanta ansiava: “Vamos fazer!”.

Sabrina Abreu e Ronaldo Fraga, nomes à frente de "Memórias de Um Estilista Coração de Galinha" (Nino Andrés/Divulgação)
Sabrina Abreu e Ronaldo Fraga, nomes à frente de "Memórias de Um Estilista Coração de Galinha" (Nino Andrés/Divulgação)

Certo, Sabrina já havia feito um perfil do estilista para uma revista, mas, também no início do livro, ela confessa que sequer sabia se ele ainda se lembrava dela. Assim, com o assentimento de Fraga, veio a primeira entrevista, em 2014. Sim, o processo que resulta no livro que será lançado neste sábado, consumiu nada menos que nove anos.

Confiança

Na verdade, Sabrina teve a ideia a partir do livro “Conversas com Woody Allen”, lançado pela CosacNaify, em 2008. “A logística foi, a princípio uma vez por semana, no ateliê dele”, lembra Sabrina. “Depois, foi o caos instaurado, ao estilo Ronaldo Fraga”, diverte-se. “Nós nos encontrávamos sempre que possível e houve entrevistas na casa dele, em carros e restaurantes”, explica ela, lembrando que o protagonista da empreitada não quis ler o livro na ordem, na íntegra. “Disse que confiava em mim – olha só a responsabilidade!”.

E o que motivou Ronaldo Fraga a abrir a alma para Sabrina? Ao Culturadoria, ele conta que, obviamente, a confiança foi se solidificando com o tempo. Assim, no curso dos encontros, o envolvimento foi se estreitando. “Mas, de qualquer forma, a paixão da Sabrina pela escrita, pelo projeto… Ela já chegou com os olhos brilhando e soube me convencer da importância de compartilhar as histórias da trajetória de um brasileiro mestiço, vindo de uma camada mais pobre da população e que chega a fazer parte da chamada elite da moda do Brasil”.

Abrindo gavetas

Ainda de acordo com Ronaldo Fraga, Sabrina pontuou sobre a importância de essa história ser contada. “Na verdade, eu nunca tinha parado para pensar. Ela disse: ‘O caminho que você trilhou, ninguém até então tinha feito dessa forma. Então, é importante que essa história seja contada’. E assim fomos juntos, a quatro mãos. Eu abri todas as minhas gavetas, as minhas memórias, contei tudo. Tudo está ali, sem ressalvas”, afiança o estilista.

Sem censura

Perguntada se sentiu que pisava em ovos em relação a algum tema em particular, Sabrina refuta. “Nunca pisei em ovos, porque não é meu estilo e, mais que tudo, não é o estilo dele. Já que topou – e depois de eu o perseguir muito para dar andamento ao projeto –, Ronaldo me deu toda a liberdade, nada foi censurado. Uma exceção, no meu caso, foi a introdução ao assunto da morte dos pais dele. Ronaldo perdeu pai e mãe quando criança, esse era um fato essencial a ser tratado, mas, ao mesmo tempo, difícil de tocar. Mas falamos disso e o tema família voltou várias vezes ao longo do livro”.

Lágrimas e risadas

Ronaldo Fraga acrescenta: “Eu sou um homem que nunca construiu telhado de vidro para mim, então, como diz a (música) ‘Vaca Profana’, do Caetano, ‘Respeito muito minhas lágrimas/Mas ainda mais minha risada’. Eu sempre procurei rir das tragédias, tanto que, quando estou nervoso, a primeira coisa que faço é cair na gargalhada. Por isso as pessoas acham que eu não tenho estresse algum, mas o riso etá sempre me acompanhando”. Desse modo, prossegue ele, durante o processo das entrevistas, os dois tanto choraram quanto riram (“muito mais”).

“Amaciada”

O estilista conta que, quando Sabrina aparecia, de pronto brincava: “Chegou a canseira”. “Veja, no início, eu enrolava ela, não ligava, desaparecia, para ver se ela realmente nutria toda aquela paixão que dizia ter pelo projeto. E ela não abandonou essa história nem por um minuto. E não teve nada que eu contasse pra Sabrina e, na sequência, falasse: ‘Não vamos publicar isso’. Era o contrário. Ela falou: ‘Ronaldo, eu vou dar uma amaciada nessa história, porque eu acho que isso aqui está pesado’ (risos)”.

Ronaldo pormenoriza: “Teve uma questão de um grupo grande com o qual trabalhei. Ela (Sabrina) acabou tirando o nome dele, era uma história muito pesada”. Ele lembra que, lá atrás, certo dia, uma pessoa lhe deu o toque de que, caso não tivesse ainda registrado o próprio nome como marca, deveria correr. “Até ali, eu nunca havia pensado no meu nome como marca. Mas essa pessoa soube que pretendiam entrar com o registro antes de mim. Assim, tive que correr, da noite para o dia. No livro, a Sabrina achou melhor não citar nomes, mesmo que eles não estejam mais no mercado. Mas a história é importante porque foi aí que comecei a ter a noção de que eu era uma marca, não mais apenas o nome de uma pessoa física”.

Bastidores

Ronaldo Fraga ratifica o que Sabrina já havia falado, que foi lendo capítulo a capítulo, mas não o livro inteiro, depois que ele foi costurado. “Inclusive com as correções feitas pela revisão. Aliás, inclusive ela queria preservar a minha linguagem coloquial. Quando eu ria, ela escrevia ‘risos’. Até falei: ‘Sabrina, não precisa disso’. Mas ela disse que queria que as pessoas entrassem na conversa. E tem palavras ou gírias que são minhas, que as pessoas também não conhecem. Mas no final deu tudo certo”, brinda.

Ronaldo Fraga: encontros com Sabrina Abreu desde 2014 (Nino Andrés/Divulgação)
Ronaldo Fraga: encontros com Sabrina Abreu desde 2014 (Nino Andrés/Divulgação)

Sabrina revela que vivenciou momentos permeados pela emoção principalmente quando as conversas versavam sobre a formação de Ronaldo Fraga. “Da infância à faculdade de moda da UFMG, passando pelo curso profissionalizante no Senac, ao primeiro emprego na loja de tecidos até a pós, em Nova York, como um prêmio de Jovens Talentos. Tudo nesse começo me emocionou muito e me fez entender o que veio depois, inclusive os bastidores e processo criativo que eu testemunhei nos últimos anos”.

Confira, a seguir, outros trechos da entrevista

Ronaldo, o que é ser um estilista coração de galinha?

Bom, eu amo coração de galinha. É o nome da minha primeira coleção, quando eu volto de Londres, ganho prêmio revelação por isso. Mas obviamente é uma metáfora. Então esse Coração de Galinha, ele fala daquilo quase despercebido. Algo que, a princípio, ninguém dá valor e acaba passando. E ele também seria um coração muito fácil. É uma coisa quase como ‘Maria vai com as outras’, ou seja, pequeno, mas gigante no gostar. Então essa que é a grande história, é ser uma pessoa Coração de Galinha.

Sabrina, no início do livro, você lembra que já havia feito um perfil do Ronaldo Fraga antes de levar a ele a proposta do livro de entrevistas. Evidentemente, àquela altura, já havia feito também outros tantos perfis. Neste caso, o que te impulsionou a pensar especificamente no nome do Ronaldo Fraga como candidato a um livro de entrevistas?

A diferença em relação ao Ronaldo é o fato de ele pensar o Brasil. Ele é um criador, Como você disse, eu tive a sorte de conhecer vários, mas ele está profundamente conectado com o Brasil. Esse perfil que escrevi foi quando ele voltou do Pará e fez uma coleção inspirada pelo que viu por lá. Aquilo me instigou a ter uma longa conversa (que, ainda bem, durou anos). Eu sentia vontade de entender mais esse país enorme onde vivo. Meu encontro com o Ronaldo se deu após o lançamento do livro (“A Voz do Alemão”, NVersos) que fiz com o Rene Silva, jornalista e empreendedor do Complexo do Alemão (Rio de Janeiro). Depois de conviver com o Rene, minha barra ficou lá no alto. Assim, precisava de alguém com muita vivência para captar minha atenção novamente.

E o que acha que mudou em você, interiormente, após esta jornada?

Acho que, como todo o resto do caminho, essa parte foi boa para eu tentar ser mais quem eu tenho que ser. A coragem e a criatividade do Ronaldo são um ótimo estímulo para isso.

Serviço

Lançamento do livro “Memórias de um Estilista Coração de Galinha” (Autêntica Editora)

Neste sábado, dia 2 de dezembro, a partir das 11h.

Onde: Atelier-loja @ronaldofragaparatodos, no Mercado Novo (Rua Rio Grande do Sul, 499, Centro)

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