Curadoria de informação sobre artes e espetáculos, por Carolina Braga

Cinco pontos sobre o show de Roger Waters em BH

Por Carol Braga

22/10/2018 às 11:55

Publicidade - Portal UAI
Eugênio Gurgel/ T4F Divulgação

Show de Roger Waters está para os fãs de Pink Floyd assim como um parque de diversões para crianças. Volte no tempo e pense em todas as emoções que sentiu a primeira vez que experimentou um daqueles brinquedos. Assim como as outras turnês, Us + Them é um espetáculo que, sobretudo, desperta sensações.

Deste modo, este texto é apenas uma tentativa de reproduzir em palavras um pouco da experiência que foi estar no show realizado na noite do dia 21 de outubro de 2018, no Mineirão. É uma tentativa pois experiências não devem ser descritas, mas vividas.

 

Palco diferente

“Que palco esquisito”. Ouvi de um cidadão no público logo que pisei na pista. O sujeito tem razão. Roger Waters quebra a estrutura tradicional que, em geral, reproduz um palco italiano. A “boca de cena” dele tem o tamanho do campo de futebol. A banda fica no centro e no fundo, o telão – grande protagonista do espetáculo – com 790 m2. Quando você olha para tudo aquilo apagado não consegue ter a dimensão do que se transforma.

 

Uma estrela que não brilha mais do que o espetáculo

Por mais que Waters circule de um lado para o outro, é curioso você ir a um show em que o artista principal está mais para coadjuvante do que protagonista. Em primeiro plano ficam, por exemplo, a potência dos vídeos, tanto em narrativa como em realização técnica e estética, a sonorização que chega a estremecer seu corpo. É a mensagem que importa mais e não a vaidade do ídolo. E existe mensagem em cada segundo, até no som de helicóptero que gira em surround entre uma canção e outra, por exemplo.

Roger Waters também não é daqueles artistas falantes, embora de todos os nomes internacionais que passaram por BH tenha o discurso mais forte. É que as ideias dele se expressam, para além das músicas, nas imagens, nas palavras projetadas. Em resumo: Roger Waters escolhe uma maneira muito mais artística para dizer o que pensa.

 

Carolina Braga/Culturadoria

3D de verdade

Por que a palavra experiência é a mais apropriada para falar sobre o show de Roger Waters? Porque ele te tira da condição de simples espectador. A sonorização é tão potente que rapidamente você se esquece que está em um Estádio de Futebol. O som vem de todos os lados, te abraça. Além disso, tem a encenação.

Durante o show da turnê Us + Them tem alguns momentos em que o espetáculo sai do palco e vai para a plateia. Tipo quando ele começa o repertório do disco Animals e sobe uma muralha no início do segundo ato, ou quando o porco inflável com a frase “Seja Humano” passeia pelo público.

Grande surpresa também foi a reprodução, no meio da pista, com luzes de led, a capa do antológico disco Dark Side of the moon.

 

[youtube modulo=”2″]rk5k5nOnbzQ[/youtube]

 

É um show, um filme, uma peça de teatro, até dança contemporânea tem

O show de Us + Them começa com a imagem de uma mulher sentada de costas para a plateia, apreciando o mar. Como manda o manual da psicodelia (ehehe) a contemplação dura cerca de 15 minutos. Ou seja, você vai ver um show que começa com um filme. Somente depois disso há a explosão esperada com Speak to me, do Pink Floyd.

Essa inversão na expectativa de quem vai ver um show se dá ao longo das 2h30 minutos e, inclusive, durante o intervalo. Assim como nas músicas, as projeções contam histórias e fazem críticas. Há momento em que a dança contemporânea ganha destaque no telão, assim como o teatro.

Para citar um exemplo, em Pigs o próprio Roger Waters usa uma máscara de porco para encenar. Em outro momento, ele se acorrenta. E isso é o que? Teatro.

Curiosamente o espetáculo tem intervalo, o que também é pouco comum em apresentações musicais. Mas não pense que é uma pausa em que tudo se desliga. É nesse momento de silêncio que Roger Waters argumenta, por meio da tecnologia que marca o espetáculo, o ponto de vista político que, inclusive, foi parcialmente censurado no Brasil.

 

[youtube modulo=”2″]EBvPYX1uRXI[/youtube]

 

Toda arte é política. Resistiremos!

Resistir, resistir, resistir, resistir. A mensagem que se repetiu na camiseta dos alunos da escola Municipal Benjamin Jacob durante Another brick in the wall  é o principal recado do espetáculo inteiro. Desde que estreou a turnê no Brasil, no dia 09 de outubro em São Paulo, fala-se mais sobre a carga política do que do artístico.

No caso de Roger Waters essas duas coisas caminham unidas há muitos e muitos anos. Fazer espetáculos assim, para ele, é resistir. Para dar este recado, o baixista do Pink Floyd fala sobre a guerra. Expõe sem reservas os líderes mundiais equivocados. Faz alerta sobre o crescimento de um novo fascismo. Chama atenção para o perigo que o dinheiro tem de corromper as pessoas.

Com competência técnica, estética e conceitual incomparável, usa o melhor da arte para dizer ao mundo que devemos ter cada vez mais cuidado com o outro. Resista pois, o que nos resta, é nos mantermos humanos.

 

Carolina Braga/Culturadoria

 

 

Continua após a publicidade...

photo

“Eu não tenho medo de ousar”, diz Gal Costa que chega a BH para show

Quando Gal Costa anunciou parceria com Marília Mendonça, um raciocínio mais imediato geraria estranhamento instantâneo. Mas se parar um pouco mais e analisar a carreira dela como um todo, verá que o convite feito à cantora sertaneja campeã de audiência no século XXI, faz sentido. “A gente deve estar aberta para ver o mundo de […]

LEIA MAIS
photo

Confira como está a procura para alguns dos shows mais esperados de 2018 em BH

A agenda cultural de Belo Horizonte está com uma série de shows e turnês imperdíveis ao longo do ano. Uma das atrações mais esperada será somente em outubro, mas os ingressos já estão acabando. Como o Culturadoria não quer ver ninguém de fora, selecionou seis shows que prometem ser muito badalados. Além de contar como […]

LEIA MAIS
photo

Lô Borges anuncia novo álbum e lança o DVD ‘Tênis + Clube’ em BH

Em 1972, aos 19 anos, Lô Borges lançou seu primeiro álbum. O famoso Disco do Tênis, considerado uma obra prima da música brasileira. Hoje, mais de 40 anos depois, decidiu fazer um show especial de lançamento do trabalho. Dessa forma, reuniu todas as 15 canções do disco e mais nove do álbum ‘Clube da Esquina’ […]

LEIA MAIS