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Metallica volta às raízes com “72 Seasons”

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Evocando a sonoridade de obras antigas, Metallica usa a introspecção como combustível para erguer o mais novo álbum da banda.

Por Caio Brandão | Repórter

Não é novidade para ninguém a força do Metallica enquanto marco cultural. Nem todo mundo é fã da banda, mas a grande maioria das pessoas, pelo menos, já ouviu falar.

Evocando a sonoridade de obras antigas, Metallica usa a introspecção como combustível para erguer o mais novo álbum da banda.
Metallica - Foto: Tim Saccenti

Sendo assim, sempre que o conjunto anuncia o novo álbum, surge a pergunta “o que pode ser feito?”. A resposta, dessa vez, é simples: retornar às raízes. Essa temática se faz presente em toda a obra, tanto no conceito, bem como nas letras e sonoridades.

O nome do álbum, “72 Seasons”, é uma referência aos primeiros 18 anos da vida de um ser humano, detalhe percebido nas meditações líricas das músicas. Contudo, não é uma reflexão só sobre os primeiros 18 anos dos membros da banda: são reflexões sobre tal época em geral, tanto pela perspectiva de quem já viveu esse período, quanto de quem ainda passa por isso.

O caos como manifestação da intimidade

Tendo em vista o tom da obra, a introspecção é um fundamento de “72 Seasons”. Assim, as letras giram em torno de contratempos emocionais, típicos dos primeiros pensamentos acerca do que ser uma pessoa representa.  

Nesse sentido, o álbum é recheado de ponderações sobre a juventude, principalmente a de James Hetfield, vocalista e principal letrista da banda. Contudo, o panorama é mais amplo do que o estritamente pessoal. 

Todos os membros do Metallica têm entre 58 e 60 anos. Então, as interações da banda com os primeiros anos da vida se estendem para além do particular. Existe também a perspectiva de quem já passou por esse momento, mas lembra dele plenamente, tanto as dores quanto as glórias típicas desse recorte de tempo. 

Ademais, essas percepções se dão por causa, também, das relações do conjunto com seus filhos, ou pessoas mais jovens no geral, que estão passando pelo que eles já passaram. Esse choque de pontos de vista concedem ao álbum uma honestidade crua, como se fosse um desabafo que estava preso por tempo demais.

Um exemplo disso é a última faixa da obra, “Inamorata”, que é uma referência a uma relação de parceria que beira o romântico. Em uma entrevista ao jornalista Steffan Chiazzi, James Hetfield, vocalista da banda, conta que essa “parceira” mencionada na música é a personificação de sentimentos como miséria, angústia, tristeza ou raiva, e a letra em si é um relato de como é lidar com essa “companhia”.

A influência dos tempos pandêmicos

Podemos tentar ignorar o quanto quisermos, mas o fato é que a pandemia de 2020 foi um marco na vida de todos que estavam vivos para presenciá-la. Sendo assim, não foi diferente para o Metallica. 

O impacto disso para a banda, contudo, é algo agridoce. Lógico que foi um período doloroso, não só em uma escala pessoal, mas para o mundo inteiro. Apesar de tudo, talvez esse evento tenha gerado um nível de união inédito dentro da banda. 

Depois do tempo isolado, compondo via chamadas no aplicativo Zoom, o conjunto se uniu, literalmente, para trabalhar nessa última obra. Uma parte marcante da construção de “72 Seasons” foi o envolvimento de todos os membros da banda no processo de composição. 

Previamente, James Hetfield, vocalista da banda, e Lars Ulrich, o baterista, eram praticamente os únicos participantes dessa dinâmica. Porém, essa “exclusividade” foi abandonada em favor de uma lógica mais íntima e coletiva de produção. 

Isso pode ser sentido ao ouvir as músicas, já que o Metallica parece estar se divertindo nas produções, que se dão com a naturalidade esperada de uma banda com tantos anos de experiência.

Sonoridade e raízes

Quem ouve o “72 Seasons”, e conhece outros trabalhos do conjunto, com certeza terá um sentimento de familiaridade. O álbum é, primeiramente, um retorno estético aos primórdios do Metallica.

Todos os elementos que constituem a identidade sonora clássica da banda estão ali. Baterias rápidas, guitarras cadenciadas freneticamente, vocais “arranhados”, além dos solos caóticos de Kirk Hammett. Assim, os preceitos do thrash metal, gênero musical cuja origem passa muito pela existência da banda, ocupam o panorama musical da obra. 

O fato de que uma das guitarras mais usadas no álbum é a “OGV” intensifica, ainda mais, esse retorno às raízes. Segundo o próprio James Hetfield, essa guitarra mudou a vida do frontman, por ter sido usada nos primórdios da banda.

Hetfield comprou o instrumento por sua semelhança à guitarra de Michael Schenker, da banda UFO, que era uma Gibson Flying V clássica. Porém, anos depois, o vocalista descobriu que a “OGV”, na verdade, não era uma Flying V autêntica, mas sim uma cópia feita no Japão. 

Contudo, existem alguns grooves mais lentos para dar ritmo e dinâmica às faixas, afinal de contas até o caos deve ter certos respiros. Essa decisão acaba sendo produtiva, já que Hetfield já não berra mais como no início da carreira. O tom mais melódico usado pelo vocalista nos últimos trabalhos do Metallica mesclam bem com a parte instrumental.

Pessoalmente, sinto saudades dos gritos do cantor na época do álbum “Kill ‘Em All”, ou do “Ride The Lightning”. Todavia, todos aqueles anos de vocais gritados cobraram seu preço, e infelizmente a voz selvagem de Hetfield nos anos 80 e 90 não está mais entre nós.

As armadilhas do saudosismo

“72 Seasons” é um álbum divertido, mas ele para por aí. Conceitualmente, a obra é, de fato, um dos trabalhos mais interessantes do catálogo do Metallica, pelo seu tom intimista, introspectivo e, acima de tudo, sincero.

Entretanto, no que diz respeito puramente à sonoridade, o álbum é mais do mesmo. A expectativa em relação a um conjunto que está por tanto tempo na estrada é a de que deveria haver alguma reinvenção, inovação, algo do tipo.

Mas, dessa vez, a obra é familiar até demais, como se as músicas antigas fossem recicladas. Caso alguém dissesse que “72 Seasons” é uma coletânea de b-sides regravados, eu acreditaria. 

Dito isso, os fãs de Metallica são resistentes à mudanças, tendo em vista as recepções a álbuns como “St. Anger” e a dupla “Load/Reload”, além da colaboração com Lou Reed, “Lulu”. Sendo assim, é compreensível a decisão de compor algo que remete aos anos de ouro da banda.

Apesar disso, é uma pena que o Metallica não ousou mais, já que os membros do conjunto tem a criatividade e a competência técnica para tal. Portanto, “72 Seasons” é um prato cheio para fãs de longa data, mas é exatamente o que se espera da banda, o que gera uma certa decepção. 

Você pode ouvir “72 Seasons” pelo link.

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