Curadoria de informação sobre artes e espetáculos, por Carolina Braga

Renata Matta Machado lança “Nada Será Como Antes” neste sábado

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No livro, que será autografado na Livraria da Rua, a jornalista Renata Matta Machado narra a luta contra o vício da cocaína, que lhe provocou um AVC

Patrícia Cassese | Editora Assistente

Era para ser um dia qualquer de plantão na vida da jornalista Renata Matta Machado. Mas ao tomar o primeiro gole do café naquela manhã, ela acabou desmaiando, em seu quarto. Só algumas horas mais tarde foi encontrada caída no chão, pela mãe, Aída Dani Matta Machado, que, claro, prontamente chamou socorro. O primeiro hospital que a atendeu, porém, diante da evidente gravidade do quadro, já foi logo sugerindo a transferência para um maior – no caso, o Felício Rocho. Lá, Renata acabou sendo submetida a delicada cirurgia, para conter o AVC hemorrágico.

A jornalista Renata Matta Machado, que lança "Nada Será Como Antes" neste sábado (Cecilia Pedersoli/Divulgação)
A jornalista Renata Matta Machado, que lança "Nada Será Como Antes" neste sábado (Cecilia Pedersoli/Divulgação)

Ao fim, Renata Matta Machado permaneceu 18 dias em coma. “Depois disso, passei meses internada em uma clínica de recuperação, a Clínica de Transição Paulo de Tarso, na Pampulha. E, na sequência, em uma casa de repouso. Só voltei para casa dez meses depois”, relembra ela, que, mais recentemente, resolveu colocar toda esta experiência no papel. Nascia, assim, o livro “Nada Será Como Antes”, que ela autografa neste sábado, dia 12, na Livraria da Rua.

Depressão e ansiedade

Renata conta que, quando sofreu o AVC, dois anos atrás, estava com 52 anos. “Foi no início deste ano que resolvi escrever sobre o episódio e, para isso, tive que lembrar como tudo começou”, conta ela, que acabou concluindo que o acidente vascular cerebral foi provocado por uma overdose de cocaína agravado por um quadro de depressão e ansiedade que se arrastava há anos. “Ao mesmo tempo, eu andava muito estressada por conta do trabalho. E tudo isso junto me deixou como uma bomba relógio prestes a explodir. O que acabou acontecendo”.

A jornalista acabou perdendo os movimentos do lado esquerdo do corpo e, hoje, é cadeirante. Também se diz dependente da mãe e de uma cuidadora. “Passei a refletir muito sobre a minha vida e o meu futuro. Tudo ficou mais difícil para mim. Sou canhota e só consigo digitar com o dedo indicador da mão direita. Sei que nada será como antes, mas nem por isso perdi a minha alegria e o meu bom humor”, comenta Renata, ao Culturadoria.

A droga como válvula de escape

Renata Matta Machado reconhece que, à época em que teve o acidente vascular cerebral, vivia estressada com o trabalho e deprimida (“por conta da vida”). “Ansiosa em resolver os problemas, buscava na droga uma válvula de escape. Era uma fuga interminável. A minha depressão era solitária da mesma forma que o uso da cocaína”. Ao longo de mais de uma década, a jornalista chegou a ser internada em três instituições para dependentes químicos. “Sempre saía e voltava a usar cocaína. Dava um trabalho enorme para a minha família. Poucas pessoas, as mais próximas, sabiam desses episódios”.

Ela conta, ainda, que nunca havia escrito nada sobre si mesma. “Assim, precisei ter muita coragem para enfrentar os meus próprios medos e falar da minha vida e das minhas escolhas. Foi muito doloroso, mas, ao mesmo tempo, foi um grande desabafo. Coloquei para fora muitos sentimentos que estavam guardados. Tive coragem de expor o que vivi com as drogas para alertar, principalmente os jovens, para que não sigam o mesmo caminho”.

Processo

Por outro lado, Renata aproveitou para também se lembrar de momentos alegres e marcantes da vida, desde a infância até a trajetória no jornalismo. De toda forma, ela costuma dizer que foi um verdadeiro parto escrever “Nada Será Como Antes”. “Inicialmente, porque, com o lado esquerdo paralisado em razão do AVC, só me restou o dedo indicador direito para teclar. Assim, fiz um roteiro do que pensava em escrever e comecei o processo. Escrevi muito, mas de forma desorganizada”, reconhece.

A capa do livro, que está sendo lançado pelo selo Jornadas, da Páginas Editoras (Reprodução)

Renata já começa o livro falando do AVC. Sem dúvida, o pior momento da sua vida, “que foi estar à beira da morte”. “Depois, falo dos dias que passei pela Paulo de Tarso. Não foi um momento fácil, porque ainda estava muito revoltada e não aceitava a minha nova condição. Delirava, tinha alucinações. Perdi um tempo enorme em conflito com a fisioterapia e o tratamento não progrediu”, confessa.

Recaída

Na clínica de repouso, Renata diz ter vivido momentos de solidão, apesar de ter sido também lá que finalmente pode receber as primeiras visitas de amigos. “E em plena pandemia”. Mas foi lá também que ela viveu a primeira – e única – recaída ao uso da cocaína após o AVC. “Na sequência do livro, faço um flashback da minha vida, desde a minha infância até o dia em que tive o AVC”.

No entanto, Renata frisa que “Nada Será Como Antes” não chega a ser uma autobiografia, mas, sim, um breve relato do que ela viveu em 52 anos. Neste processo, ela faz questão de citar a ajuda de dois grandes amigos e ex-colegas de trabalho, os jornalistas André Gobira e Miguel Anunciação, “que organizaram a narrativa e revisaram os textos”.

Livro em mãos

Em vários momentos da produção do livro, Renata confessa ter ficado muito emocionada, já que seu sonho estava sendo realizado. “Chorei muito quando vi o primeiro rascunho impresso com as fotos. Mas ainda tinha muita coisa para fazer. Escrevi mais um ou dois capítulos, escolhemos fotos, tivemos outras ideias para ilustrar o livro e finalizamos os trabalhos”.

Nesta etapa, a ansiedade também tomou conta. “De fato, fiquei muito ansiosa neste período e comecei a ligar para as pessoas não só para contar sobre o livro, mas para convidar para o lançamento”.

Amizades

Ao longo da vida, Renata Matta Machado sempre se considerou uma pessoa privilegiada por estar constantemente rodeada de amigos. “As minhas amizades são as minhas maiores riquezas. Nesse período pós-AVC, recebi o carinho de muitas pessoas, seja por meio de mensagens ou mesmo de forma presente e calorosa. Ainda estávamos na pandemia quando fiquei internada, e isso só dificultava o reencontro com os amigos”, lembra.

Aos poucos, Renata foi recebendo visitas de uns, telefonemas de outros. “Já em casa, à medida em que fui me recuperando, consegui fazer um passeio ao shopping, fui a bares e restaurantes, revi os amigos. Já fiz até uma viagem para reencontrar uma grande amiga em Arraial D’Ajuda, onde fui muito bem recebida”, festeja.

Vaquinha

Foi só depois que resolveu escrever o livro que Renata se deu conta que não tinha dinheiro suficiente para cobrir os gastos de impressão. Assim, foram os amigos que tiveram a ideia de fazer uma vaquinha virtual. E deu certo. “Em pouco tempo, consegui todo o dinheiro que precisava para imprimir o livro”.

Não só. “Ainda contei com a ajuda dos amigos para a foto da capa do livro, a foto de divulgação, a assessoria de imprensa na divulgação do lançamento e para a minha preparação para as entrevistas. Sou muito grata aos meus amigos e à minha família que se solidarizaram e acreditaram nesse sonho”.

Investimento na recuperação

Hoje, Renata Matta Machado diz estar bem. “Tenho investido muito na minha recuperação. Faço fisioterapia quatro vezes por semana para manter o corpo em ação. Estou muito esperançosa com um tratamento que tenho feito com aplicação de botox nas pernas, braços e mãos na tentativa de recuperar os movimentos. Mas, para dizer a verdade, estou muito ansiosa”.

Ansiosa, como já apontado, com o lançamento de “Nada Será Como Antes”. “Estou na expectativa com a repercussão, com as críticas e, principalmente, com o que vou fazer com o livro”. Renata confessa: “Ainda não sei o que acontecerá daqui para frente. Sei que quero contar a minha história. Quero dividir a minha experiência de vida com jovens e dependentes químicos e mostrar que existe, sim, uma porta de saída para o vício nas drogas”.

Dia a Dia

Ela enfatiza que é preciso lutar dia após dia para ficar livre da dependência. “Para isso, é preciso aceitar ajuda. Não adianta achar que vai conseguir sair sozinho”. Mas antes de tudo, é preciso evitar o primeiro contato com a droga. “Vivi anos achando que tinha controle. Que conseguiria parar a qualquer momento. O resultado está aí. Tive uma overdose, tive um AVC, quase morri, e, hoje, dependo de todos para tudo”.

Serviço

Lançamento do livro “Nada Será Como Antes” (Páginas Editora), de Renata Matta Machado
Neste sábado, dia 12, das 11h às 14h
Na Livraria da Rua (Rua Antonio de Albuquerque, 913, Funcionários)

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