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Quadril & Queda: Livro de poemas de Bianca Gonçalves é convite ao movimento da dança e ao movimento da luta

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“Quadril & Queda” é lançado pelo Círculo de Poemas, clube de assinatura de poesia da Fósforo Editora

Por Gabriel Pinheiro | Colunista de Literatura

O novo livro de poemas de Bianca Gonçalves começa numa aula de dança. A instrutora diz: “é uma dança pra trepar direito e parir bem”. A aula segue: “meu ventre pra frente e/ pra trás pra frente e/ pra trás: o ocidente inteiro/ em derrocada”. “Quadril & Queda” é um trabalho em que o movimento do quadril dita o ritmo: circular, por vezes intenso, por vezes leve, mas sempre constante. O livro é um lançamento do Círculo de Poemas.

Bianca Gonçalves (Foto Bianca Gonçalves)

Escrevivência

No texto de orelha de “Quadril & Queda”, Adnã Ionara destaca o compromisso com a “escrevivência” neste conjunto de poemas de Bianca: “operar a partir da experiência de si para possibilitar narrativas que dizem respeito a experiência coletiva de nós mesmas”. Nós, aqui, mulheres negras, de corpos historicamente em disputa, vigiados. Corpos de luta. Na poesia de  Bianca, a dança e a liberdade dos movimentos do corpo são isso: luta. “sou dessas que faz/ o impossível num/ inverno: um cropped e/ meu umbigo em/ sacrifício”.

Bianca Gonçalves faz no livro o uso de frames de vídeos do próprio corpo em exercício de dança. O corpo em movimento — corpo este que, por vezes, nega a nitidez na captura, recusa o caráter estático do registro, é fotografado em vulto, pulsante. As imagens como exercícios poéticos em diálogo com o texto. O movimento capturado em texto e em imagem.

Num dos textos mais fortes do volume, “Emily e Rebecca”, duas crianças têm os cabelos trançados. Gestos de afeto, as mãos besuntadas de óleo de côco mergulham no cabelo da caçula e da mais velha. Emily e Rebecca foram duas primas, crianças pretas que tiveram suas vidas interrompidas pela violência policial, respectivamente, aos 4 e aos 7 anos, em 4 de dezembro de 2020. Um único tiro de fuzil. “domingo é o único dia/ que vejo as duas/ juntas”.

Condição feminina e ancestralidade

“Quadril & Queda” olha para a condição feminina em estruturas familiares patriarcais: “toda mulher da minha/ família sustenta/ os braços de seus homens que/ a despeito da/ família/ mantém os/ seus/ casos”. Olha também para a ancestralidade, na figura de uma neta que se percebe mais parecida com a avó do que com a mãe: “me percebi mais antiga/ me percebi mais bonita”. A ancestralidade aqui também é presente e futuro, não só passado. Bianca nos lembra que o futuro é ancestral: “uma preta jornalista vingaria todos,/ uma preta, duas pretas/ todas/ que são orgulho pra família/ toda, todas com beca e/ diploma/ vingarão.”

Dois poemas de “Quadril & Queda”

Junguiana

Depois que me lançaram à cova, 

esperei por leões, tigres-de-bengala, 

uma matilha abestada.

Mas vieram homens mezzo calvos, 

mezzo cabeludos, na faixa dos cinquenta, 

com relógios de pulso dourados e uma colocação 

em gabinete público no interior do estado de São Paulo.

Olhos d’água

para Conceição Evaristo

Tristeza alguma demove a anciã que em casa habita.

Quando pesa a lágrima 

do mau presságio ou 

quando as coisas se desviam 

da ventania 

ela, vagarosa, 

se resguarda e, 

em seguida, as folhas 

separa.

A senhora aprende com a prole, 

a natureza move e a imita.

A filha se prepara 

e não sabe:

a natureza é que imita.

Encontre “Quadril & queda” aqui

Gabriel Pinheiro é jornalista e produtor cultural. Escreve sobre literatura aqui no Culturadoria e também em seu Instagram: @tgpgabriel (https://www.instagram.com/tgpgabriel)

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